Crítica | Usagi Yojimbo – Livro 5: Bode Solitário e Filhote

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Neste quinto volume que compila as histórias de Usagi Yojimbo (no caso, as edições #19 a 24 de Usagi Yojimbo Vol.1), o autor e desenhista Stan Sakai conseguiu inovar sua própria narrativa e adicionar doses altas de poesia na abordagem para a cultura e história do Japão medieval, fazendo dos cinco contos aqui narrados uma viagem de diferentes pesos dramáticos, morais e com um distinto caminho para a ação, sendo o mais diferente deles o incrível aventura A Kite Story.

Utilizando um princípio narrativo similar ao de Rashomon, o autor passa a narrar diversos pontos de vista sobre um dos Festivais de Pipas Gigantes (que existe até hoje no Japão), desde o processo de manufatura por parte de um produtor chamado Tatsusaburo, até uma intriga que acontece justamente no dia do festival, envolvendo Usagi. Cada um dos lados tem a sua história narrada e não só a marca cronista do roteiro mas também uma abordagem poética e de amor à profissão pode ser percebida nessa narrativa, o que nos faz pensar em todas as pessoas que passam anos de sua vida produzindo coisas para um tipo de festividade popular anual, sempre procurando fazer o melhor, o mais chamativo e o mais memorável produto para aquela edição do evento.

Dos outros contos desse volume, Frost and Fire é talvez o mais objetivo e inesperado. O protagonista aqui é contratado para reaver uma espada tradicional, que pertencia a um samurai morto em circunstâncias que não são segregadas ao ronin. É a partir desse momento que o roteiro ganha duas camadas, uma abordando diretamente os segredos e sentimentos em torno da vida desse samurai e outra abordando algo mais comum nas história de Usagi, que é a ganância dos indivíduos, os crimes cometidos por dinheiro e poder. Todos querem alguma coisa e o caminho que alguns utilizam para chegar até os seus objetivos é o mais infame possível, muitas vezes atropelando a vontade e a própria vida de quem só queria a simplicidade e a memória de um bom tempo, de uma nesga de felicidade. O conto mais solene do volume, com certeza.

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Já em Blood Wings temos a apresentação do clã Komori, formado por ninjas-morcego rivais do clã Neko, praticamente levado à inexistência devido à quantidade de baixas mostradas em A Conspiração do Dragão. Nessa história temos inúmeras referências ao épico arco do Volume 4, especialmente mostrando a tentativa de Lord Hikiji em se reerguer financeiramente para continuar sua escalada de obtenção de poder e eliminação de inimigos em todo o território do Japão. Sakai consegue explorar bem esse aspecto de mistério, deixando o personagem nas sombras, fazendo a serpete Lorde Hebi dar uma série de dicas sobre os planos do seu senhor, mas sem entregar informações demais. Isso é fantástico, porque torna ascensão de Hikiji um problema fixo para o futuro e a justificativa para um grande número de ações criminosas que podem ter Usagi como interventor. Baita sacada.

No fim, um arco formado por duas histórias, The Way of the Samurai e Lone Goat and Kid, o primeiro servindo como introdução à belíssima homenagem que o autor faz a Lobo Solitário, de Kazuo KoikeGoseki Kojima. As histórias se conectam pela citação do General Oyaneko, que Usagi encontra em O Caminho do Samurai e que é usado por inimigos como armadilha, em Bode Solitário, na tentativa de tirar o coelho de cena. A trama não carrega aquele aspecto mais caloroso que alguns personagens ou tramas desse Universo possuem, mas é marcada pelo respeito e temor diante de dois exímios espadachins como o ronin Usagi e o assassino Yagi, que perambula com seu filho Gorogoro em um carrinho de bambu. É uma trama crua e com sua própria beleza (Gorogoro é um fofo, assim como o Daigoro, do original), terminando com chave de ouro esse volume que se permitiu um pouco mais de delicadeza, sem deixar de lado a violência que marca tal período histórico e a própria série do coelho ronin.

Usagi Yojimbo – Livro 5: Lone Goat and Kid (EUA)
Contendo: Usagi Yojimbo Vol.1 #19 a 24 (dezembro de 1989 – setembro de 1990)
Editora original: Fantagraphics, agosto de 1992
Roteiro: Stan Sakai
Arte: Stan Sakai
Capa: Stan Sakai
152 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.