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Crítica | Utopia (2020) – 1ª Temporada

por Luiz Santiago
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Utopia (2020) é um remake da série britânica de mesmo nome, criada por Dennis Kelly e que durou duas temporadas, entre 2013 e 2014. Esta versão americana tem Gillian Flynn como showrunner, e carrega todos aqueles elementos que conhecemos bem de tramas conspiratórias e complexas lançadas nos Estados Unidos, elementos que vão da facilitação enervante do original até uma revisão de valores que diminui imensamente o impacto da maioria das coisas, inclusive a revelação que abre as portas para o prosseguimento da série e dá um significado maior à toda perseguição, mortes e confirmação de teorias conspiratórias desenvolvidas ao longo da temporada.

Utopia é a “impossível e “quase mística” continuação de uma graphic novel cheia de simbolismos, publicada por um autor maldito e desconhecido. Dois grupos diferentes de nerds se juntam em torno dessa criação: os que acham que é só uma história recheada de símbolos artísticos e narrativos, metáforas e referências; e os que verdadeiramente acreditam que ali existem pistas e explicações para inúmeros desastres epidêmicos no mundo. MERS, SARS, Ebola e Zika são citados, mas abrem-se as portas para pensarmos em outras doenças que mataram milhares e que, segundo as indicações de Utopia, são produto de uma engenharia de armas biológicas, com um motivo que descobrimos na reta final da temporada: ajudar o planeta a sobreviver (e aos humanos a terem uma vida melhor) diminuindo a população e, logo em seguida, esterilizando milhares de pessoas por poucas gerações.

O contexto da série é extremamente oportuno, embora as leituras que alguns articulistas estão fazendo sobre a ligação direta (como inspiração) entre Utopia e COVID-19 esteja, em absolutamente tudo, errada. A questão viral é algo diretamente ligado a epidemias vistas até 2013 e 2014, pois a base dos roteiros de Gillian Flynn e Ryan Parrott é justamente a versão original da série. Sem contar que esta versão foi inteiramente filmada antes do fechamento das produções causado pela pandemia. O que é válido fazer é uma ligação contextual entre a crise viral do mundo atual e a série, mas esta crise não foi a inspiração para os roteiros. Interessante notar que o comportamento da população, da medicina, da imprensa e de empresas farmacológicas é muitíssimo similar ao que vemos no mundo real, e se o espectador tem um pouquinho a mais de memória, certamente há de se lembrar que não mudou muito em relação a outras crises do tipo — a diferença é que esta é mais duradoura.

Pensando por esse aspecto de realidade, a estrutura narrativa da série causa impacto imediato. Certas coincidências e rumos que a sociedade toma dá a oportunidade de pensar sobre teorias da conspiração, especificamente envolvendo saúde e meios de comunicação, com adendos políticos dos mais diversos. Na série, um importante aviso é dado, disfarçado de história em quadrinhos, mas no conjunto das coisas tais indicações da graphic novel são apenas informações bobas e não faz a mínima diferença se alguns indivíduos verdadeiramente acreditam nelas. Alguém precisa morder a isca. E basicamente toda a temporada mostra como essa relação entre a informação fornecida intencional ou não-intencionalmente é utilizada por conglomerados com agendas muito específicas, controlando milhões de pessoas em vários setores sociais/ideológicos.

No que concerne ao enredo, não tenho assim tantos problemas com a série. Evidente que houve uma queda de qualidade na abordagem de todos os temas, em relação ao original, mas a costura dada por Gillian Flynn não é ruim nem no conceito, nem na base de relações individuais e institucionais que apresenta. Me irrita mais o momento de revelação, que é colossalmente empobrecido em sua discussão e significados, mas ainda assim a mensagem, por mais rasa que chegue ao público, está lá. A meu ver, a versão americana perde na condução técnica e principalmente, este sim, o maior problema dessa adaptação, na dramaturgia.

O primeiro aspecto é o mais fortemente subjetivo de todos, e tem também um elemento de estilo em jogo. Toby Haynes é o principal diretor da temporada, marcando o estilo visual nos três primeiros episódios. Em vez de se preocupar com a visão Universal, utilizando-se do espaço geográfico e da fotografia imersiva em paletas bem específicas — para criar um contraste de abordagem entre Território & Indivíduo na segunda metade da temporada (mais ágil e mais “institucional”) –, os produtores conceberam um show de aparência local, urbana, pouco diferente daquilo a que estamos acostumados em séries americanas como um todo. Para mim, foi espantoso ver isso em um projeto de Gillian Flynn, cuja visão bem mais estilizada esteve presente de forma aplaudível em Sharp Objects. Aqui, onde esse tipo de abordagem mais escrupulosa era necessário, ela praticamente nem dá as caras, salvo alguns raros momentos.

E aí chegamos no ponto mais complicado dessa adaptação: a dramaturgia. Séries como Utopia possuem, desde a sua concepção, um peso muito grande no tipo de atores e atrizes que escalam para os papéis. E isso fica ainda mais sério quando existe um fator de comparação, de uma versão com orçamento infinitamente menor e de qualidade dramatúrgica assustadoramente superior. A meu ver, a melhor escalação aqui foi a da pequena Farrah Mackenzie como Alice, e a atriz mirim dá uma identidade fenomenal à personagem, apesar do pouco tempo de tela. Já todo o restante do elenco varia entre más escalações até construções de personagens que parecem ter passado por uma louca higiene dramatúrgica (culpa dos diretores e showrunner que orientaram mal esses atores), como é claramente o caso de John Cusack. Outros três casos como os de Desmin Borges (Wilson), Cory Michael Smith (Thomas) e Rainn Wilson (Michael) passam pelo mesmo tipo de problema, com a desvantagem de que são podados também pelo roteiro, apesar de alguns bons momentos solo em tela.

A dinâmica de grupo aqui demora muito para acontecer e é bem irônico que logo no início, antes da grande junção entre esses personagens, havia um senso muito maior de união, coleguismo e pertencimento. Também é irônico o fato de que essa união, após a chegada de Jessica Hyde (Sasha Lane, disparada, a pior escalação da série) tinha muito mais motivos para acontecer, por qualquer ângulo narrativo que se analise. Apenas no final é que essa dinâmica volta a dar as caras de maneira interessante, mas ainda temos os problemas de elenco para lidar, então ficamos em um dilema entre conteúdo e interpretação do conteúdo que infelizmente impede o show de avançar mais.

Os momentos finais trazem reflexões densas sobre o mundo em que a gente vive, colocando sob uma ótica psicopata (ou objetivamente capitalista?) o futuro da humanidade. Porque tudo o que se diz como problema, na série, é um fato. Hoje, o problema não é ainda a produção de alimentos e sim a sua distribuição. Mas isso mudará em poucas décadas, com o aumento da população, assim como o agravamento de um problema que hoje é vivido por milhares de pessoas: a escassez de água. Some a isso a produção de lixo, a destruição de flora e fauna, a poluição do ar, a provocação da acidez da chuva e efeito estufa, a elevação dos níveis dos Oceanos, a falta de espaço para habitação digna e a incapacidade da maioria dos Estados do mundo estruturarem uma condição de vida saudável para os habitantes… Nada disso é novo. Mas há novidade em torno de tudo isso: chegou um ponto em que começou a custar não apenas as vidas dos miseráveis que o topo da pirâmide social nunca ligou para. Tornou-se um problema planetário que afeta a todos.

Chegamos à Era em que o acúmulo desses problemas provavelmente já cruzou a linha do irreversível ou algo perto disso. A despeito do grande desenvolvimento tecnológico, parece-nos que é só ladeira abaixo para a humanidade. E Utopia fala de uma tomada de atitude drástica para esse tipo de problema em larga escala. Mas é uma atitude que nos coloca em grande conflito moral e ético, com aquela pergunta “quanto mal deve ser feito antes de se fazer o bem?“. Nesse tipo de programa é que chegamos a agradecer o fato de não sermos imortais e poucos de nós chegarem a um século ou mais de vida. O futuro a médio prazo, infelizmente, não parece nada animador. A não ser que Mr. Rabbit consiga criar, por um caminho criminoso, um “mundo perfeito”. Seria isso válido?

Utopia (2020) – 1ª Temporada (EUA)
Criadora: Gillian Flynn
Direção: Toby Haynes, Susanna Fogel, Courtney Hunt, J.D. Dillard
Roteiro: Gillian Flynn, Ryan Parrott (baseado na série original de Dennis Kelly)
Elenco: John Cusack, Ashleigh LaThrop, Dan Byrd, Desmin Borges, Christopher Denham, Javon ‘Wanna’ Walton, Farrah Mackenzie, Cory Michael Smith, Jeanine Serralles, Rainn Wilson, Sasha Lane, Bernard Gilbert, Hadley Robinson, Jessica Rothe, Meg Warner, Sonja Sohn, Fiona Dourif, Crystal Fox, Tim Hopper
Duração: c. 55 min.

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