Crítica | Utøya 22 de Julho: Terrorismo na Noruega

“Eu preciso encontrar a minha irmã.”

Uma missão simplérrima intimida o espectador no mais novo longa-metragem, o segundo em um ano, a retratar os horrorosos atentados terroristas na Noruega, em 22 de julho de 2011. Uma garota, em meio ao massacre comandado por uma única pessoa, na ilha de Utøya, procura pela sua irmã, enquanto, paralelamente, se esgueira pelo claustrofóbico cenário apresentado, desesperando-se para sobreviver aos indiscriminados assassinatos praticados por um homem movido pelo extremismo político. O cineasta Erik Poppe pavimenta os seus personagens por quase vinte minutos, especialmente a protagonista Kaja (Andrea Berntzen), que carrega uma câmera invisível em seus ombros, acompanhando-a passo a passo. Quando a ação propriamente dita começa, o escopo da condução não é alterado, muito pelo contrário, impulsionado por uma carga de adrenalina preenchida por movimentações mais bruscas, dando margem a um plano-sequência, parcialmente documentário, integral à curta duração do filme.

A câmera invade uma intimidade macabra, presa aos gritos desencontrados, os tiros ensurdecedores e o silêncio ameaçador, que separa um estrondo barulhento de outro, ainda mais enervante. A espera é o que tem de mais perigoso, de mais cruel ao ser humano, porque é preenchida pela esperança do término de um acontecimento indescritível – esperança que morre quando o atirador retoma a sua missão, destroçando sonhos e futuros. 22 de Julho, dirigido pelo renomado Paul Greengrass, englobava os terríveis setenta e dois minutos de duração do evento em uns quinze, diminuindo uma observação, para certas pessoas, quase sádica dessa tensão, contudo, na verdade, mais incômoda que qualquer outra coisa, permitindo uma empatia que o saber pelo saber não proporcionaria. Justamente esse é o caso de Utøya – 22 de Julho, longa-metragem que decide compartilhar dos mesmos setenta e dois minutos, em uma proposta de imersão à realidade consideravelmente polêmica, certamente ambiciosa.

Como representação de uma realidade de sofrimento, a decisão precisaria vir acompanhada de uma substância dramática, para não perturbar por perturbar. O que está intencionado, no final das contas? O drama apresenta-se vigente em diversos momentos, como em casos de pessoas desconhecidas pela protagonista, que morrem em seus braços sem ela nem saber seus respectivos nomes. A protagonista, ademais, comanda com vigor o filme, reiterando prolongadamente a angústia em suas inúmeras camadas, da agonia pela morte alocada a cada canto de um cenário mortal devastado e afastado de muitos contatos terceiros, assim como a pungente irrealização do que aconteceu com a sua irmã, perdida em meio a correria desenfreada. O esticamento dessa trajetória de horror, contudo, estafa um espectador estasiado dos traumas inexoráveis, deixando de se impactar em decorrência de uma certa anestesia. A climática resolução do longa-metragem também provoca sensações desagradáveis, um pouco insensíveis.

Utøya, em última instância, acaba trabalhando com uma ruptura entre a realidade e o ficcional que quase desmorona o objetivo cinematográfico da obra, ainda resistindo graças a um outro enfoque mais claro, buscando o humano, o verdadeiro, ao invés dessa manipulação problemática do que aconteceu. Erik Poppe procura retirar qualquer discussão política do caso para, em consequência, desmerecer os posicionamentos ideológicos do assassino, discursos pomposos carregados de intolerância. São crianças morrendo e ponto. O cineasta entende o seu filme como uma retórica a qualquer evento da espécie. O assassino, a exemplo, demora para aparecer e, quando aparece, mostra-se deformado pela distância ou encoberto pelas árvores, nunca como um perigo material, mas como um monstro à espreita. O estudo desenvolvido em 22 de Julho, mais abrangente tematicamente, desaparece. Um antagonista personificando o injustificado, portanto, surge.

Utøya 22 de Julho: Terrorismo na Noruega (Utøya 22. juli) – Noruega, 2018
Direção:
Erik Poppe
Roteiro: 
Siv Rajendram Eliassen, Anne Bache-Wiig
Elenco: 
Andrea Berntzen, Aleksander Holmen, Brede Fristad, Elli Rhiannon Müller Osbourne, Sorosh Sadat, Ada Eide, Jenny Svennevig, Ingeborg Enes, Mariann Gjerdsbakk 
Duração: 
92 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.