Crítica | Vá e Veja

estrelas 5,0

O capítulo 6 do Apocalipse de João (ou Livro das Revelações), possui uma constante repetição de chamado ao apóstolo: “vem e vê“. Neste capítulo temos os ‘quatro cavaleiros do Apocalipse’ e entendemos que cada um deles anuncia a chegada de ondas de destruição e desgraças contra milhares de pessoas. Foi desse contexto bíblico que o diretor Elem Klimov e o roteirista Ales Adamovich tiraram o “Vá e Veja” para o título deste filme, já que o nome original entregue aos censores, “Matar Hitler“, havia sico rejeitado.

Filmado durante nove meses, depois de ter passado oito anos para ser aprovado pelo Goskino (Comitê Estatal Soviético de Cinematografia), Vá e Veja tornou-se um dos retratos mais impiedosos, crus e amplamente dramatizados sobre a Segunda Guerra Mundial. Acompanhamos a história de Florya (Aleksey Kravchenko, na época com 16 anos, em uma atuação lancinante) um garoto de 13 anos que se junta à guerrilha soviética contra os nazistas, na Bielorrússia (ou Belarus), e em pouco tempo se vê afastado dos companheiros, o que o força a realizar uma jornada de dor, medo e violência à medida que vê as horrendas atitudes de seus inimigos e de seus compatriotas.

Através da forte exploração sentimental e dramática do protagonista e de um roteiro que tem a evolução do olhar desse adolescente para o mundo à sua volta — proposta de pessoalidade destacada pelo amplo uso de steadicam em todo o filme –, Klimov chega o mais próximo possível da visão geral de Hannah Arendt em Eichmann em Jerusalém – Um relato sobre a banalidade do mal (1963), mostrando o curso da História, do lirismo das paisagens e da descoberta do amor (à família, à terra, ao outro) até o momento onde a maldade se torna constante e passa a ser abstraída pelo indivíduo como algo trivial, um estado das coisas acompanhado pela literal explanação de um militar nazista que dizia “só estar fazendo o seu dever”.

Durante muitos anos eu ouvi pessoas reclamando do “exagero” de Klimov ao representar os rostos dos protagonistas ou da sua forma “quase vazia” de retratar o massacre de uma vila bielorrussa, rebatendo as ações de maldade por muito tempo na tela. Essas reclamações, no entanto, são de espectadores que olham o filme como uma obra de caráter romântico sobre a guerra, mas não é disso que ela se trata. Mais ou menos na linha de A Infância de Ivan — porém menos poético e inteiramente exposto aos horrores do acontecimento –, Vá e Veja mostra o crescimento de um garoto, o avanço da guerra e como ambos se modificam. O aumento do ódio, as pequenas vitórias de um e outro grupo, o massacre organizado ou por um ideal ou por vingança, a apropriação de coisas como espólio ou como direito de um combatente… tudo isso vem para a tela como se grandes quadros fossem misturados e exibidos em movimento por mais de duas horas: intragável e ao mesmo tempo esteticamente muito bonito.

Ao estudar essas visões, Klimov não deixa de colocar o lado político em ação. A ausência absoluta de uma força estatal e o tratamento dado pela milícia campesina aos novatos são destaques internos e foram dois dos muitos motivos que fizeram o filme demorar para receber seu orçamento de produção. Junte a isso a sujeira absoluta com que o ocorrido é tratado e o abandono, em todos os sentidos, dos cidadãos dessas vilas do interior do país e você tem um retrato ampliado do que se pode apreender das entrelinhas.

Impulsionado pela Lacrimosa do Réquiem de Mozart, pela Cavalgada das Valquírias, de Wagner, pelo Danúbio Azul de Strauss Jr. e por uma trilha sonora densa de Oleg Yanchenko, Vá e Veja é ao mesmo tempo uma obra histórica e lírica sobre uma tragédia que interrompeu e mudou o curso de milhares de vida. A belíssima fotografia de Aleksei Rodionov (seus planos em movimento, seus planos noturnos e a forma como ele e o diretor corromperam a regra de campo-contracampo a favor do filme são grandes destaques) termina o escopo técnico afiado do filme, que, sob a direção fluída de Klimov, tem um final de portas abertas para a reconstrução. Como é comum dos homens, recomeçar, reconstruir o que eles e seus pares destruíram. Uma conclusão que, infelizmente, nos dá a ideia de ciclo. Como é comum dos homens, destruir o que foi construído como reparo de uma destruição anterior. Uma condenação sem fim. E cada vez mais sanguinolenta.

Vá e Veja (Idi i smotri) — União Soviética, 1985
Direção: Elem Klimov
Roteiro: Elem Klimov, Ales Adamovich
Elenco: Aleksey Kravchenko, Olga Mironova, Liubomiras Lauciavicius, Vladas Bagdonas, Jüri Lumiste, Viktor Lorents, Kazimir Rabetsky, Evgeniy Tilicheev, Aleksandr Berda
Duração: 136 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.