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Crítica | Valérian e Laureline: Os Pássaros do Mestre

por Luiz Santiago
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Já começamos Os Pássaros do Mestre no meio de uma importante ação. Valérian e Laureline estão em um tipo de jangada, à deriva em um rio, após sua nave ter sido engolida num atoleiro. Valérian diz que percebe algo maléfico naquele asteroide nômade em que pousaram, e Laureline manifesta a sua primeira de muitas insatisfações com todo o perrengue, que se tornaria algo ainda pior com o passar das horas. Em pouco tempo — e após um resgate conveniente até demais para o nosso gosto — a dupla de agentes espaço-temporais irá se encontrar no meio de uma sociedade que sobrevive trabalhando para o líder do asteroide, o Mestre que ninguém jamais viu. Em adição a isso também há o medo dos pássaros-loucura, cuja bicada venenosa pouco a pouco torna em pessoas loucas os que se recusam a trabalhar e os que tentam lutar contra as injustiças.

Os Pássaros do Mestre traz algo bem diferente do que os autores trabalharam nos volumes anteriores da saga. Existe aqui uma discussão imediata que questiona, mas não de maneira negativa, o torpor de resignação desses indivíduos, que trabalham arduamente para um líder que eles nunca viram e que nada dá em troca. Aliás, a compensação pelo trabalho são as sobras de comida que preparam para o tal Mestre e, nos momentos em que esses restos são liberados, o pior de cada um vem à tona, já que todos vão procurar desesperadamente pegar algumas migalhas para comer, e no dia seguinte, continuarem recolhendo algas, dando início a mais um novo ciclo.

A chegada que Valérian e Laureline nesse asteroide não perturba a ordem vigente de imediato, mas faz com que um recém capturado, o jovem Sül (do planeta Manadil, na Constelação do Cisne) tenha com quem conversar. A insatisfação do personagem é similar à dos agentes de Galaxity, e então pouco a pouco começa a busca para a saída daquela situação. E claro, a narrativa expõe, através da fantástica arte de Jean-Claude Mézières, diversos obstáculos para que os pensamentos de quebra da opressão se realize. Os indivíduos aqui não têm tempo para pensar e passam as horas numa difícil jornada de trabalho, o que no final dificulta ainda mais o pensamento, já que eles terminam o dia pensando apenas em comer e descansar.

Outros personagens também aparecem no texto, e vemos a sacada do roteirista Pierre Christin em colocar tipos de pessoas com pensamento e ações diferentes caindo no mesmo mesmo tratamento de exploração pelo Mestre, sendo que alguns estão tão preocupados com suas questões pessoais, que sequer percebem isso. É o caso dos dois idosos discutindo filosofia, das duas mulheres com pinta que socialite que acreditam que tudo aquilo é uma aventura de cruzeiro interestelar ou do garimpeiro de Aldebaran. A luta, porém, irá se concretizar (de maneira meio bagunçada, devo dizer), tendo essas pessoas como aliados inesperados.

O processo “revolucionário” exposto no quadrinho vem com uma boa dose de humor e aventura, como é típico dos volumes da série. O foco é claro desde o começo (a dupla protagonista foi “capturada” por uma força estranha do asteroide, atolou num pântano e não conseguiu mais decolar, assim como acontecera com centenas de outras naves) e o autor explora questões sociais ao lado de questões pessoais, tanto psicológicas quanto físicas, escancarando a pergunta “como é possível lutar contra um sistema se o indivíduo precisa trabalhar para não ser punido e depois só tem fome e cansaço?“. Aliado a essa questão, há a desesperança e a alienação pura e simples de alguns. Uma história que, em diversos aspectos, por mais triste que seja, se encaixa com perfeição em inúmeros arranjos sociais do nosso mundo contemporâneo.

Valérian e Laureline: Os Pássaros do Mestre (Valérian et Laureline: Les Oiseaux du Maître) — França, 14 de junho a 16 de setembro de 1973
No Brasil: Valérian Integral N°2 (Edição Especial – Sesi-SP Editora, 2017)
Publicação original: Revista Pilote #710 a 720
Editora original (encadernado): Dargaud
Roteiro: Pierre Christin
Arte: Jean-Claude Mézières
Cores: Évelyne Tranlé
45 páginas

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