Crítica | Valsas de Viena

estrelas 4

Quem entende um pouquinho de História e cultura românticas da Europa sabe que a família Strauss dominou a cena musical austríaca por décadas, passando de geração para geração o talento de compor belas obras, marcos de uma época, muito embora os compositores mais lembrados do clã sejam os dois Johann Strauss, ditos pai e filho ou simplesmente grafados como I e II. Num “musical sem música” (ou pelo menos não com tanta música quanto deveria ter um musical, nos moldes como entendemos hoje), Alfred Hitchcock nos apresenta uma pequena biografia romântica, protagonizada por Strauss II ainda jovem, dividido em agradar Rasi, o amor de sua vida, ou tornar-se compositor e maestro como o pai, seu verdadeiro sonho.

Hitchcock aceitou a direção de Valsas de Viena com o mesmo intuito que tivera em O Mistério do Número 17, ou seja, de “compensar” a má fama vinda com o fracasso de Ricos e Estranhos, um acontecimento que mesmo anos depois o diretor não conseguia entender. Valsas de Viena lhe foi oferecido pela Gaumont British Picture Corporation e, para não negar a oferta e ter melhor oportunidade de emplacar um novo roteiro junto aos produtores da casa (o roteiro de O Homem Que Sabia Demais), o diretor aceitou a encomenda. É certo que esse tipo de obra não tem o estilo de Hitchcock, e talvez por isso ele o desprezasse tanto, mas Valsas de Viena é um um filme muito bom para ser relegado ao limbo, como foi, ao longo dos anos, tanto por seu diretor quanto por uma boa parte dos espectadores.

A história, apesar de ser baseada em fatos reais, segue a trilha comum das biografias, alternando fatos e acrescentando algumas licenças dramáticas, estratégia bem dosada no roteiro e igualmente bem dirigida por Hitchcock. Poderíamos apenas determinar como ponto de atenção as escolhas do editor Charles Frend para algumas sequências. Em dado momento do filme, parece que a montagem paralela está trabalhando com coisas completamente diferentes, uma falha percebida justamente porque todo o restante da fita recebe um bom tratamento de edição, que pela primeira vez em um filme de Hitchcock, tem mais acertos do que erros.

No meio dessas licenças dramáticas, temos a briga entre o Strauss pai e o Strauss filho, na ocasião em que este último compunha a conhecidíssima Danúbio Azul. Trata-se de uma licença, porque quando Strauss filho compôs essa valsa (1867), o pai já havia morrido (1849). Todavia, considerando o forte embate entre os dois nos anos anteriores, é bem provável que o conteúdo dessa história tivesse acontecido de verdade, caso o velho compositor ainda estivesse vivo. A personagem de Rasi também não fez parte da vida do jovem Strauss, mas tanto a sua colocação quanto a presença do Strauss sênior receberam ótima contextualização na trama.

Os fatos que vão da inspiração para a valsa até sua execução, num plano bem elaborado pela Condessa von Stahl, obedecem a uma linha narrativa segura, sem muitos furos nas histórias paralelas, com pontos sutis de suspense e um tom cínico de humor durante toda a projeção que tora o momento ainda mais icônico.

Valsas de Viena é um filme bastante divertido, com ótima música e bela recriação cênica de alguns espaços da Áustria romântica de final do século XIX. Para espectadores não familiarizados com esse ambiente cultural ou geográfico no cinema e o tipo de romance biográfico proposto no filme, é provável que tudo não passe de uma grande chatice, uma opinião bastante comum – e extramente injusta, diga-se de passagem – em relação à obra. Mas estamos mesmo é diante de uma boa e insólita aventura do mestre Hitchcock.

  • Crítica originalmente publicada em 27 de janeiro de 2014. Revisada para republicação em 25/11/19, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

Valsas de Viena (Waltzes from Vienna) – UK, 1934
Direção:
 Alfred Hitchcock
Roteiro: 
Guy Bolton, Alma Reville, Heinz Reichert, Ernst Marischka
Elenco: 
Jessie Matthews, Edmund Gwenn, Fay Compton, Esmond Knight, Frank Vosper, Robert Hale, Charles Heslop, Hindle Edgar, Marcus Barron, Betty Huntley-Wright
Duração: 
81 minutos

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.