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Crítica | Vampiros de Almas

por Luiz Santiago
320 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 4,5

Estados Unidos, década de 1950. A Guerra Fria seguia em alta e o ranço do macarthismo ainda era sentido no país. A paranoia da espionagem inimiga, o medo da bomba atômica e a ideia de uma dominação comunista (eles estão entre nós!) marcou a época e ganhou em Vampiros de Almas (1956) uma das mais claustrofóbicas e intensas versões que o cinema já conheceu sobre o tema, mesclando terror e ficção científica de ordem B como poucos diretores conseguiram fazer antes ou depois.

Baseado no livro The Body Snatchers (1955), de Jack Finney, a trama se passa na cidade fictícia de Santa Mira, Califórnia, onde sementes vindas do espaço caem na Terra e crescem em forma de grandes vagens, dentro das quais duplicatas de seres humanos são produzidas. O filme explica relativamente bem a origem e como a transformação acontece, mas deixa vago o que acontece com o corpo original e em que momento ele é “substituído”. Temos a ideia clara de uma espécie de possessão, mas a relação ente duplicata e corpo real o roteiro não deixa claro. No livro, o corpo humano vira cinzas e a duplicata que habita o alien vive apenas 5 anos, além de ser incapaz de se reproduzir. Dá pra imaginar como isso acaba a longo prazo, certo?

Essa “infiltração comunista”, leitura que também pode ser feita de Os Pássaros (1963), de Alfred Hitchcock, era uma das grandes paranoias da década, que ainda teve relatos sensacionalistas (com alguns elementos reais) de lavagem cerebral e outras técnicas de persuasão observadas pelos aliados na Guerra da Coreia (1950 – 1953), o que ajudou a inflar o imaginário popular com o medo de que muito rapidamente suas personalidades e individualidades seriam ‘consumidas pelo comunismo’, que estava agindo “de dentro pra fora” bem no nariz do Tio Sam e ninguém estava vendo.

Nota-se também as reflexões filosóficas abordadas na história, como a possibilidade de um mundo onde religião, medo, ambições e amor não existem. Desta forma, os vilões são humanizados e dizem muito do que a humanidade já pensou e teorizou a respeito. Que tal uma sociedade onde os sentimentos não são a coisa mais importante? Que tal as implicações de não haver amor e não haver problemas para resolver? O conflito pode parecer apenas superficial à primeira vista, mas traz uma discussão bastante frutífera sobre a forma como as sociedades modernas se organizam e como elas foram perdendo elementos de sua identidade inicial, muitas vezes substituídos por uma “duplicada”, como é o caso dos avatares nas fotos pela internet, as respostas automáticas por e-mail e a impessoalidade das mensagens por redes sociais e afins. De uma forma ou de outra, caímos no mesmo ciclo.

O diretor Don Siegel faz aqui um trabalho exemplar na criação de um suspense sobre o que acontecerá com o Dr. Miles Bennell e sua parceira Becky Driscoll, disseminando pela fita acontecimentos instigantes e que marcam cada uma das partes. Se temos um elo fraco na introdução e no epílogo do longa (o que torna todo o desenvolvimento um grande flashback), a qualidade do miolo da fita é altíssima, da direção ágil e pontual de Siegel, com mínimos tropeços na direção de atores; na bela fotografia de Ellsworth Fredericks, com suas cenas noturas fascinantes e enquadramentos tortuosos; e na trilha sonora de Carmen Dragon, com compassos bem localizados nas oitavas menores do piano e uma orquestra em nível assustador. O fato de ter um orçamento pequeno fez com que a criatividade aqui fosse elevada ao máximo, conjunto que só trouxe benefícios para a obra e para o público.

Vampiros de Almas traz também uma pequena participação de Sam Peckinpah no elenco (ele dizia que também contribuiu na escrita do roteiro, mas não foi creditado) e foi melhor recebido com o passar dos anos do que em seu próprio tempo, apesar de não ter sido um fracasso de bilheteria: o orçamento da produção foi cerca de 416,9 mil dólares e o arrecadamento nas bilheterias chegou a 3 milhões. Evidente que isso é fichinha perto de grandes produções atuais, mas a relação custo-benefício aqui não é ruim.

Três refilmagens já foram feitas de Vampiros de Almas: Os Invasores de Corpos (1978), Os Invasores de Corpos – A Invasão Continua (1993) e Invasores (2007), cada uma com um objetivo e um conteúdo, mas nenhuma delas conseguiu fazer o espectador temer como esta obra original de 1956. Eis aqui um filme genuinamente de dois gêneros para fazer pensar e se maravilhar.

Vampiros de Almas (Invasion of the Body Snatchers) —  EUA, 1956
Direção: Don Siegel
Roteiro: Daniel Mainwaring e Richard Collins (não creditado), baseado na obra de Jack Finney.
Elenco: Kevin McCarthy, Dana Wynter, Larry Gates, King Donovan, Carolyn Jones, Jean Willes, Ralph Dumke, Virginia Christine, Tom Fadden, Kenneth Patterson, Guy WayEileen Stevens
Duração: 80 min.

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16 comentários

Rafael Lima 30 de janeiro de 2018 - 19:45

Excelente Crítica, Luis! De fato, é muito mais do que um Sci Fi B de horror, e traz uma série de questões válidas até hoje, como você bem observou, questões que vão muito além da metáfora politica do “medo dos comunas” atribuído na época. A atmosfera do filme é fantástica também, conseguindo muito com pouco. E o final (ou quase) com o protagonista correndo pela estrada gritando feito louco é coisa de gênio, pena que arranhado pelo epílogo, como você bem observa. Mas ainda assim, um clássico maravilhoso, que não por acaso é influente até hoje.

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Luiz Santiago 30 de janeiro de 2018 - 20:19

Esse filme é uma coisa ABSURDA de grandiosa. Um terror político, por assim dizer, fora que as relações humanas e a própria forma da invasão… mano do céu. Deviam se inspirar nisso para criar um vilão medonho de DW. Pena que não temos mais o visceral CapalDeus mas a Jodie com certeza saberia levar bem uma trama com aliens desse tipo.

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Rafael Lima 1 de fevereiro de 2018 - 01:15

Pois é, a motivação já lembra muito os Cybermans, com o desprezo pelas emoções, vistas como uma barreira para a evolução (que também se encaixa na analogia que você fez em relação as novas tecnologias). Mas eles não tem esse “fator infiltração” que a raça alienígena desse filme tem, em que não se pode confiar absolutamente em ninguém.

Chegou a ver alguma das versões posteriores do filme, Luis? Assisti um tempo atrás a versão mais recente com o Daniel Craig e a Nicole Kidman, e achei totalmente esquecível e sem impacto, diferente dessa maravilha do Siegel. Mas nunca vi as versões dos anos 70 e 90. Chegou a conferir alguma?

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Luiz Santiago 1 de fevereiro de 2018 - 04:19

Não cheguei a conferir nenhuma. No máximo os trailers, mas não conferi não. É compreensível que tenham (pelo menos essa que vc viu) o tom esquecível… É raro conseguir o nível que um filme conseguiu nesse classicão, viu.

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Rafael Lima 1 de fevereiro de 2018 - 01:15

Pois é, a motivação já lembra muito os Cybermans, com o desprezo pelas emoções, vistas como uma barreira para a evolução (que também se encaixa na analogia que você fez em relação as novas tecnologias). Mas eles não tem esse “fator infiltração” que a raça alienígena desse filme tem, em que não se pode confiar absolutamente em ninguém.

Chegou a ver alguma das versões posteriores do filme, Luis? Assisti um tempo atrás a versão mais recente com o Daniel Craig e a Nicole Kidman, e achei totalmente esquecível e sem impacto, diferente dessa maravilha do Siegel. Mas nunca vi as versões dos anos 70 e 90. Chegou a conferir alguma?

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Rafael Lima 30 de janeiro de 2018 - 19:45

Excelente Crítica, Luis! De fato, é muito mais do que um Sci Fi B de horror, e traz uma série de questões válidas até hoje, como você bem observou, questões que vão muito além da metáfora politica do “medo dos comunas” atribuído na época. A atmosfera do filme é fantástica também, conseguindo muito com pouco. E o final (ou quase) com o protagonista correndo pela estrada gritando feito louco é coisa de gênio, pena que arranhado pelo epílogo, como você bem observa. Mas ainda assim, um clássico maravilhoso, que não por acaso é influente até hoje.

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Anônimo 19 de novembro de 2017 - 12:30
Responder
Luiz Santiago 19 de novembro de 2017 - 12:44

Sim!!! O filme gera tantas e tantas reflexões que dá pra colocar em vários debates. É maravilhoso ver como uma obra clássica dessas consegue dialogar com tantas coisas. Uma baita obra!

Responder
H-Alves 6 de abril de 2016 - 14:27

Incrível! Resolvi ver o filme pq ele está na lista dos 1001 pra ver antes de morrer que estou acompanhando pelo filmow. Por ser antigo, ia deixar pra depois e começar pelos recentes, mas vi que está disponível no Netflix e achei melhor não perder tempo. Assisti ontem e adorei o filme. A imagem é belíssima e em nenhum momento achei que o filme ficou datado. Confesso que não tinha percebido essa paranóia política por trás, só agora depois de ler o seu texto que ficou claro pra mim.

Por coincidência assisti o filme heróis de ressaca um dia antes desse, mas depois de ver vampiros da alma fiquei acho que esse heróis de ressaca pegava a idéia central do filme. HahahawHahaha os filmes possuem estilos diferentes, mas a idéia de uma cidadizanha que é substituída por seres alienígenas que nos copiam e não possuem sentimentos é a mesma.

Responder
Luiz Santiago 6 de abril de 2016 - 15:09

Que bom que deu uma chance para essa maravilha logo de cara! Eu simplesmente adoro essa obra. A forma como ele mostra essa invasão e racionaliza e até filosofa sobre ela é incrível mesmo.

Responder
Luiz Santiago 6 de abril de 2016 - 15:09

Que bom que deu uma chance para essa maravilha logo de cara! Eu simplesmente adoro essa obra. A forma como ele mostra essa invasão e racionaliza e até filosofa sobre ela é incrível mesmo.

Responder
H-Alves 6 de abril de 2016 - 14:27

Incrível! Resolvi ver o filme pq ele está na lista dos 1001 pra ver antes de morrer que estou acompanhando pelo filmow. Por ser antigo, ia deixar pra depois e começar pelos recentes, mas vi que está disponível no Netflix e achei melhor não perder tempo. Assisti ontem e adorei o filme. A imagem é belíssima e em nenhum momento achei que o filme ficou datado. Confesso que não tinha percebido essa paranóia política por trás, só agora depois de ler o seu texto que ficou claro pra mim.

Por coincidência assisti o filme heróis de ressaca um dia antes desse, mas depois de ver vampiros da alma fiquei acho que esse heróis de ressaca pegava a idéia central do filme. HahahawHahaha os filmes possuem estilos diferentes, mas a idéia de uma cidadizanha que é substituída por seres alienígenas que nos copiam e não possuem sentimentos é a mesma.

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Alessandro Dias 2 de junho de 2015 - 21:38

Filmaço!!! Excelente texto, principalmente na parte do paralelo com a atualidade e suas redes sociais, parabéns!

Responder
Luiz Santiago 3 de junho de 2015 - 01:09

Valeu, @alessandro_dias:disqus!
Esse filme realmente é sensacional. E me pegou de surpresa. Confesso que não esperava ver algo tão bom assim.
Você conhece a refilmagem?

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Alessandro Dias 3 de junho de 2015 - 04:05

Também fui pego de surpresa, estou acompanhando o especial Sci-fi de vocês! Sempre curti esse gênero, mas nunca me aprofundei o bastante, logo, estou assistindo as recomendações do Plano Crítico aos poucos.

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Luiz Santiago 3 de junho de 2015 - 13:49

Que honra! Fique de olho, teremos muito mais aqui, até o final do ano. Assim que lançarmos o índice do Especial ficará até mais fácil para consulta.
Abraço!

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