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Crítica | Vampiros do Deserto

por Leonardo Campos
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Interessante observar as transformações múltiplas da figura do vampiro ao longo da história. Ainda na onda do horror juvenil que tomou conta de meados da década de 1980 e os primeiros anos do novo milênio, Vampiros do Deserto é uma aventura sanguinária irregular, aparentemente inspirada em alguns traços de Vampiros, de John Carpenter, lançado em 1998. Aqui, eles possuem algumas características do poema alemão Lenore, de G. A. Burger, haja vista a sua condição de um morto que viaja velozmente. Ainda na tradição literária alemã, o filme dialoga com a sedução que leva ao sexo de A Noiva de Corinto, de Goethe, metáfora constante na historiografia dos vampiros. As comparações, no entanto, são luxuosas e eruditas demais para um filme que não é menor por ser juvenil, mas por tratar a sua história da base do descaso. Sob a direção de J. S. Cardone, acompanhamos ao longo de seus 90 minutos, a trajetória de Sean (Kerr Smith), um montador de trailers para a indústria cinematográfica. Intimado para o casamento de sua irmã, ele toma um carro emprestado e segue por estradas desérticas rumo ao local da festa, situado em Miami.

Durante a viagem, presencia uma situação aparentemente anormal num dos quartos do hotel à beira da estrada, mas decide não se envolver e continua sua saga solitária. Em determinado momento, oferta carona para Nick (Brendan Fehr), um rapaz que ele descobre mais adiante, ser um caçador de vampiros. Da tranquilidade de sua travessia solitária, a vida de Sean se transforma em poucos minutos, principalmente depois que eles cruzam com Megan (Izabella Miko), jovem que é uma das vítimas de um perigoso vampiro que assombra a região. Para não se transformar numa criatura da noite pela eternidade, eles precisam identificar o algoz da garota, monstro que precisa ser detido e eliminado em solo sagrado. Muito além de salvar Megan, Sean precisa salvar a si mesmo, pois num dos ataques da jovem, ele também foi mordido involuntariamente, tendo agora uma maldição a se espalhar por seu corpo, prévia do que ele será futuramente se não arrumar a bagunça que se tornou a sua existência. Nick também se revela nas malhas do assombro, pois ainda não se transformou numa criatura dentuça e sanguinária por causa de antídotos.

Esse é o mote de Vampiros do Deserto, narrativa sobre figuras que circundam ambientes perigosos em busca da tal cura. Acompanhados pela empolgante textura percussiva de Tim Jones, os personagens lutam por suas vidas e pelo extermínio de criaturas que aqui, ganharam um adicional em sua mitologia. Chamados de “os abandonados”, referência ao próprio título original da produção, os vampiros desta produção exalam sexualidade por todos os poros, elementos reforçados não apenas por atitudes, mas pelos figurinos de Ernesto Martinez, setor que trabalha com roupas justas, casuais, delineadoras da boa forma tanto dos vampiros quanto de suas vítimas, exibicionistas em suas imagens apolíneas. Entre os diálogos básicos e as situações corriqueiras, Vampiros do Deserto conta mais sobre as origens destas criaturas, explicitadas verbalmente, ausentes no que tange ao que podemos considerar mais cinematográfico, talvez por questões orçamentárias, afinal, flashbacks com resgates memorialísticos de determinadas épocas geralmente aumentam os custos em figurinos, maquiagem, efeitos visuais, dentre outros setores.

No que diz respeito ao texto, somos informados que na época das Cruzadas, os turcos massacraram uma média de 200 cavaleiros franceses, num conflito bélico que deixou de sobra apenas 9 deles, condenados a perecer na região da Antióquia. Embasados por uma lenda que narra a presença do anjo infernal Abbadon, conta-se que ao fim da noite, esta criatura apareceu diante dos homens e ofertou os privilégios da vida eterna, tendo em troca as suas almas, afinal, ele já estava na região para recolher as almas dos mortos na batalha. Dos 9 envolvidos, apenas 8 aceitaram. O único a rejeitar foi sacrificado pelo grupo que além de mata-lo, beberam o seu sangue. No dia seguinte, envergonhado diante de suas posturas violentas, os cavaleiros que assinaram o pacto com Abbadon se esconderam dentro de cavernas, justificativa para as suas respectivas relações com as luzes. Vagantes sozinhos pela noite, tais criaturas seculares ficaram condenada a viver eternamente e dois deles ainda resistem em solo estadunidense, responsáveis diretamente por alguns ataques que ocorrem no filme. À propósito, Johnathon Schaech interpreta um dos “abandonados”.

Divertido, mas limitado dramaticamente, Vampiros do Deserto pode ser considerado um capítulo razoável na evolução destas criaturas no cinema, nada muito memorável, mas uma tentativa de sair do lugar comum dos seus antecessores. Isso não significa que a tentativa deu certo, pois de boas intenções o inferno está cheio, prova disso é o resultado da narrativa barulhenta, frenética demais e carregada de simbolismos visuais não trabalhados adequadamente pelo texto, tampouco pela direção irregular de Cardone. A tentativa de situar os vampiros numa região desértica é desperdiçada, da mesma maneira que o mestre John Carpenter fez com o seu filme que situa as criaturas da noite no mesmo espaço geográfico da produção analisada nesta crítica. A diferença é que o seu realizador não possuía a experiência e o senso estático de Carpenter na produção de imagens, o diferencial em seu filme também dramaticamente cheio de imprecisões e irregularidades. Numa comparação talvez vulgar, mas adequada para situar cada um dentro de seu meio de produção e qualificação, Vampiros do Deserto é veloz e dinâmico como um videoclipe enquanto o filme Vampiros de John Carpenter é mais carregado de estilo, com tom mais cinematográfico.  E sim, estou comparando porque são ambos em regiões desérticas, com vampiros em mitologias inovadoras, mesmo que não exatamente muito eficientes.

Ademais, maquiados pelo setor supervisionado por Michael Burnett, os antagonistas deste frenético e divertido filme esquecível de vampiros trafegam por uma história repleta de referências fálicas, tons homoeróticos e outras estratégias narrativas orquestradas pelo roteiro e transformadas em imagens bem sensuais pela direção de fotografia de Steven Bernstein e pelo design de produção de Martina Buckley, o primeiro setor assertivo nos movimentos e enquadramentos abertos, voltados ao processo de contemplação da região desértica e o segundo, caprichado nos detalhes dos espaços tão abandonados quanto os personagens do título, cenários adornados por objetos precários de uma direção de arte também eficiente na construção da atmosfera de uma história pouco inspirada, provavelmente por causa da direção de J. S. Cardone, cineasta diante de seu próprio texto dramático. Os poucos efeitos visuais ficam por conta de Richard Malzahn, mais econômico em passagens fantasiosas que a maioria dos filmes de vampiro realizados na época.

Vampiros do Deserto (The Forsaken/Estados Unidos, 2001)
Direção: J.S. Cardone
Roteiro: J.S. Cardone
Elenco: Kerr Smith, Brendan Fehr, IzabellaMiko, JohnathonSchaech, PhinaOruche, Simon Rex, CarrieSnodgress, Alexis Thorpe, Frederick Flynn
Duração: 90 min

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