Crítica | Varda por Agnès

VARDA POR AGNES PLANO CRITICO FILME DOCUMENTÁRIO

Varda por Agnès (2019), último trabalho da diretora belga Agnès Varda, estreou no Festival de Berlim em 13 de fevereiro de 2019. Produzido originalmente para a TV (em dois episódios), a versão cinematográfica chega a trazer os esperados problemas que encontramos nesse tipo de transposição entre mídias, mas uma coisa fica certa para o espectador ao fim da sessão: aqui está uma obra essencial, concebida para ser a despedida da diretora dos cinemas, um filme necessário para quem pretende conhecer, entender, destrinchar, falar sobre a cineasta, seus filmes e suas ideias.

Como versão de um produto feito para a telinha, Varda por Agnès acaba sofrendo parcialmente com o ritmo (especialmente em seu miolo) e com a organização dos assuntos internos, que claramente funciona melhor numa versão para a TV do que para as grandes telas. Há também muitas demonstrações de trechos dos filmes da diretora, o que é um problema paradoxal. Em primeiro lugar, porque muito do tempo é “gasto” mostrando longos trechos de obras que o espectador já viu (ou que deveria ter visto, ou que irá ver) em sua versão original. E mesmo se não for este o caso, temos aí o espaço com esses takes originais “tomando o lugar” onde caberiam muitíssimo melhor coisas que o público jamais terá oportunidade de ver, como cenas de bastidores ou fotografias da produção desses filmes, elementos que, para o propósito investigativo da cineasta, surtiria o mesmo efeito. Por isso o fator de novidade da obra está um tantinho comprometido.

E em segundo lugar (daí entra o elemento paradoxal), essas cenas são necessárias para uma maior exemplificação daquilo que Varda conta em suas palestras ou em declarações (antigas ou criadas especialmente para este filme) que nos ajuda a entender o seu processo de criação, alguns aspectos de sua vida pessoal, sua visão política, sua militância feminista, seu olhar totalmente simpático aos trabalhadores e aos grupos que lutam contra qualquer tipo de opressão. Em dado momento, a cineasta coloca três grandes colunas nesse seu processo de realizar filme por tantos anos: inspiração, criação e compartilhamento. E é através delas vemos uma exploração selecionada de sua filmografia, com os já citados trechos que vão de La Pointe-Courte (1955) a Visages, Villages (2017).

Pensado como um filme de despedida pela própria diretora — através dele, no Festival de Berlim, ela fez a sua retirada oficial do mundo do cinema, e veio a falecer um mês e meio depois — este documentário ajuda o público a ligar diversos pontos artísticos que moviam Agnès Varda, e também a conectar ideias que porventura não tenham ficado claras através de seus filmes. Evita-se aqui as “intenções misteriosas” que às vezes estudiosos, críticos ou espectadores atribuem a diretores falecidos, que não mais podem falar sobre o que se diz de seu legado cinematográfico. Varda por Agnès é um documentário feito sob medida para impedir esse tipo de leitura incoerente da obra de Varda. No decorrer do processo, nós também a ouvimos falar de paixões literárias, de seu casamento com Jacques Demy, de sua carreira como fotógrafa (claramente um ponto de divisão herdado da TV que não pareceu orgânico no filme) e de diversas instalações e exposições que idealizou e coordenou entre 1980 e 2018.

Solene e muito rico em informações sobre toda a vida artística de uma diretora com uma obra tão fértil como Agnès Varda, esta sua derradeira obra está entre aquelas que, mesmo com seus problemas de condução, se torna necessária. Um mergulho caloroso, criativo e muito tocante pela mente e ações de uma das mais instigantes diretoras do cinema. A celebração merecida de um gigantesco legado. Viva Agnès Varda!

Varda por Agnès (Varda par Agnès) — França, 2019
Direção: Agnès Varda
Roteiro: Agnès Varda
Elenco: Agnès Varda, Sandrine Bonnaire, Nurith Aviv, Hervé Chandès, Esther Levesque
Duração: 115 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.