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Crítica | Velozes e Furiosos 8

por Iann Jeliel
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Velozes e Furiosos 8

  • Leiam, aqui, as críticas de todos os filmes da franquia.

“Quanto mais tosco, melhor”. Essa paráfrase está sendo cada vez mais usada para defender a franquia de Velozes e Furiosos, que com o passar do tempo foi abraçando a galhofa ao ponto de desafiar qualquer nível de suspensão de descrença, ou seja, que não pode se levar a sério em nenhuma hipótese, ao mesmo tempo que seu teor extremamente popular e mercadológico não se sustenta somente com isso, tanto que a partir do quarto filme, inesperadamente, ele achou além de uma premissa e grupamento para se tornar uma saga episódica de espionagem como seus parentes bem melhores, Missão Impossível e Bourne, o discurso da familia de pauta secundária passou a ser uma interface primária no intuito comunicativo da saga com as massas. Velozes e Furiosos 8 

No entanto, ei de discordar que esse encaminhamento tenha aspectos positivos para o que o projeto é hoje, pois, Vin Diesel e companhia idealizam-no mais como um produto ideológico de fácil lucro, do que uma obra que pensa sua continuidade na preposição da universalização temática do termo que tanto defende, ou por que não, na reinvenção para puro escapismo de espionagem que tenta se superar em cada nova setpiece de ação. Analisaremos as preposições em separado. Na ação pela ação, há uma preguiça tremenda de Velozes e Furiosos 8 em elaborar novas situações com o mínimo de construção nos recursos da linguagem cinematográfica. Em quase todos os filmes, o que importa é o feito “impossível”, o caminho até chegar ele é completamente ignorado, estafando cada nova setpiece em puros enxertos justificativos para um novo filme. O problema não é a falta de realismo, inclusive adoro filmes até mais “mentirosos” do que a sequência ápice do submarino, mas sim a falta de sensibilidade no guiar delas, que não existe, não tem um pingo de entusiasmo, dinâmica de crescente, vulnerabilidade, construção espacial, nada que leve a um sentimento genuíno de empolgação quando vemos as imagens.

É um problema diagnosticado desde construção de universo, porque nem bons diretores como James Wan responsável pelo sétimo e o próprio F. Gary Gray que fez o ótimo Straight Outta Compton – A História do N.W.A. , conseguem através de seus estilos imprimir veracidade, intensidade e malemolência na formatação do entretenimento alienado promovido pelo roteirista/produtor Chris Morgan, o “showrunner” por trás da transformação no filme de ação marginal dos anos 2000 nessa franquia multibilionária. Ele simplesmente não consegue deixar a ação rolar sem interrompe-la para uma piadinha de humor imaturo ou melodrama, rindo ou se levando a sério, sempre nos momentos errados. No máximo, o efeito de cada feito impossível é de uma vergonha parcial, ficamos embasbacados pela falta de noção do que pensaram ao invés do quão maneiro é ver os personagens fazendo aquilo com os carros ou braço em tela. Porque sim, até as sequências de pancadaria, são amplamente genéricas e sem vida. Essas afirmações todas anteriores, valem para todos os filmes desde que ele esteve presente, este igualmente incluso. Em resumo na ação, Velozes e Furiosos 8 é mais um Velozes e Furiosos. Se você gosta e compra essa papagaiada como divertida, dificilmente, não irá comprar de novo.

Pulando esse fato para a primeira preposição colocada anteriormente, algo fica evidente neste longa, a familia de Diesel está cada vez mais eclética. Inicialmente preenchida pelos amigos do gueto que Dominic Toretto conquistou, aquele que o perseguiu da sua vida motivada pela alta adrenalina no primeiro filme, no caso, Bryan (Paul Walker) e outros que protagonizaram/estrelaram outros filmes, desde negros (Tyrese Gibson, Ludacris), coreanos (Sung Kang), judeus (Gal Gadot), latinos (Dwayne Johnson, Michelle Rodrigues), e basicamente qualquer um que conquistou o coração do carecudo. Não foi voluntário, mas a drenagem da popularidade da saga ficou marcada pelo carisma desses personagens que de algum modo representam uma condição, ou pelo menos descendência remetente, a povos marginalizados como era o próprio Dom intitulado de bandido no primeiro filme.

O discurso adotado de familia, portanto, segue uma coerência nos entornos dos filmes, apesar de ter sido acolhida arbitrariamente a partir de um determinado momento, o que justifica ela ter virado uma antítese a origem do gueto ostentativo que consta o principal conflito levantado pela essência inicial da ideia do primeiro capítulo, que nem tinha intuito de se expandir, mas já que o fez, a seletividade dos personagens em tese já ajudava para a preposição ser coerente com a premissa de continuidade. Não me arrisco a dizer que é ela que faz reverberar sua credibilidade, mas na prática, isso não é levantado, essa familia nunca foi aproveitada nessa linha miscigenada, se resumindo a uma linha de diálogo para dar o significativo mais superficial da palavra. A familia de Diesel até Velozes e Furiosos 8, saiu da margem para virar a tradicional conservadora, onde os machos alfas defendem armas, desfilam em carros bonitos, passeiam entre mulheres gostosas, tem esposas fodonas e resolvem qualquer coisa como heróis – sem se importar com a morte de ninguém nos milhões de acidentes de carros ocorridos – em nome de uma familia recheada de incongruências ao tradicionalismo.

Desde pequenas ao primo desconhecido comunista só mencionado para ter cena em uma Havana estereotipada inescrupulosamente como o Brasil no quinto filme, amigos de familia disputando uma mesma mulher, até filho de outro “casamento” do patriarca, passando até mesmo pela aceitação dele outros bandidos que antes ameaçaram a integridade da estrutura tradicional (Jason Statham, Luke Evans), que viram até aliados com enorme coração. Olhar por esse lado parece chato para um filme que queria só divertir, mas o tratamento cínico no caráter novelesco da história, vai e vem de personagens que não morrem, retcoms com outros que não existiram na continuidade, ou na própria ideia de transformar Dom num vilão forçado – criatividade nível Transformers, alias, o que aconteceu com Optimus Prime no último filme desse mesmo ano ? –, incomoda, já que como na ação, todas essas picuinhas são meros dispositivos de avanço mercadológico.

Tudo bem que é limitação também, principalmente por parte de Vin Diesel que não consegue entregar o mínimo de angustia interna ao personagem, repetindo a cara de bravo que tem por natureza, parecendo que foi abduzido por um alienígena ou virou um droide, mas não é desculpa para narrativamente essas incongruências levantadas não levarem a trama para frente em conflitos mais interessantes, pelo menos na ação, infelizmente malfeita. Coitada de Charlize Theron, pois ela até entrega uma boa vilã, mesmo sem qualquer motivação e tapeada por um plano que não faz o menor sentido – a chantagem dela só funciona porque ela tem um super exército ao seu lado que consegue derrotar o Dom, então, por que ela precisa dele para realizar seu plano? Já não tem os melhores homens a disposição? Fora ela dá para destacar a presença de The Rock e Statham, dois brucutus de verdade, ao contrário de Diesel, que possuem uma química já bastante promissora no sétimo filme e aqui mais bem aproveitada, mesmo que somente pensando no spin-off logo a frente.

Ademais, julgue como implicância minha ou não, mas acredito veementemente que dados os caminhos apontados da tosqueira “consciente” que se transformou a franquia, pelo menos com esta familia aí, Velozes e Furiosos não voltará a ser bom – se é que foi um dia –, porque ela não precisa ser, já que tem grande parcela do público alienado defendendo sua acomodação supérflua do “quanto mais tosco, melhor” e enquanto o dinheiro isso tá entrando, aos montes, no bolso.

Velozes e Furiosos 8 (The Fate of the Furious | EUA, 2017)
Direção:
 F. Gary Gray
Roteiro: Chris Morgan (baseado nos personagens criados por Gary Scott Thompson)
Elenco: Vin Diesel, Jason Statham, Dwayne Johnson, Michelle Rodriguez, Tyrese Gibson, Ludacris, Charlize Theron, Kurt Russell, Nathalie Emmanuel, Luke Evans, Elsa Pataky, Kristofer Hivju, Scott Eastwood
Duração: 136 min.

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