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Crítica | Velozes e Furiosos 9

por Kevin Rick
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A franquia Velozes e Furiosos é, desde o quarto filme, galhofa, proposta especialmente abraçada a partir de Operação Rio. Não que os três primeiros filmes da cinessérie sejam algum exemplo de realismo, mas havia no mínimo alguma tentativa, mal feita diga-se de passagem, de verossimilhança nos microcosmos de corrida clandestina – mas, para deixar claro, desde o início este Universo nunca obedeceu as leis da física, apenas foi se tornando mais absurdo com o tempo. Logo, as várias críticas em relação às diferenças da primeira fita para o recente são, assim como a concepção dos últimos filmes, ridícula. Não há o que se cobrar de realidade nas perseguições de carro completamente absurdas entre Vin Diesel e seus vilões pastiches de 007. Aos poucos, a franquia encontrou sua própria linguagem de ação descerebrada, e como produto de diversão alienada, também encontrou uma vasta audiência engajada em cada novo episódio espalhafatoso.

Dito isso, a nona empreitada da franquia falha miseravelmente em sua própria abordagem de exagero que a popularizou, pois concebe seu mais recente capítulo em torno do drama familiar tosco, que, com exceção do sétimo filme, o único mais pessoalmente emocionante por causa do trágico falecimento do ator Paul Walker, nunca foi capaz de evocar qualquer tipo de importância com o arco pouco carismático de Vin Diesel e companhia. O melodrama familiar não funcionava e ainda não funciona, mas ao ser colocado como desculpa e pano de fundo para as sequências explosivas, havia uma relação maior de comprometimento com seu teor de diversão bobinha que entregou alguns filmes, em minha opinião, minimamente regulares.

Contudo, ao situar sua trama em volta da rivalidade de Jakob (John Cena), o irmão perdido de Dom (Vin Diesel), além de vários flashbacks enfadonhos, o filme dá passos para o pior caminho possível: dramaticidade desleixada. O filme quer a todo momento soar espertinho com comentários debochados de Roman (Tyrese Gibson) sobre como eles são invencíveis, uma clara tentativa de se mostrar autoconsciente da sua linguagem absurda, mas é curioso como parece ter receio de abraçar isso em seu âmbito narrativo, naquela contínua reverberação de “Velozes e Furiosos é sobre família”. Velozes e Furiosos não é sobre família. Nunca foi sobre família. É sobre ser uma embalagem comercial de blockbuster ordinário que toma como base o entretenimento vazio. E quando tenta desesperadamente ser sobre família, algo que já vinha acontecendo com mais fervor no oitavo filme, a obra começa a demonstrar seu cansaço criativo, a embalagem de arte supérflua e, principalmente, a falta de carisma de Vin Diesel – e John Cena certamente não ajuda na dinâmica, na pior química entre personagens de toda a saga.

Quer o maior exemplo de um filme que entende a abordagem de franquia e tem sucesso nela? É só assistir Hobbs e Shaw, meu filme favorito da franquia, ainda que bastante mediano, pois é uma explosão de cinema brucutu com dinâmica bem-humorada, realmente autoconsciente da sua masculinidade absurda e os caminhos comerciais atuais (super-herói, participações especiais, personagens femininas com espaço na ação, etc), e, acima de tudo, carisma. F9 demonstra a importância de atores como Dwayne Johnson e Jason Statham nestes filmes, pois são capazes de oferecer um certo magnetismo meio anos 80 com suas interpretações, algo que Vin Diesel não consegue transpor em nenhum momento do filme. Realmente não consigo entender o apelo popular do artista, que tanto dramaticamente quanto como puro personagem brucutu, não me vende seu papel de âncora de um Universo que preza pela diversão temporária. O ator não é divertido, não te envolve na atmosfera galhofa com suas feições constipadas e soa forçado em cada frase clichê – algo que The Rock se tornou mestre.

A trama é genérica, com macguffins e toda a cafonice que estamos habituados, e não há problemas nesses elementos que fazem parte do contexto, só que a constante procura pelo drama familiar insosso – e cabe aqui uma crítica ferrenha à montagem, que fez seu melhor trabalho, se esse trabalho era deixar o frenético ritmo da saga em uma tediosa inserção de backstories irrelevantes – transforma a experiência que tem como molde o ridículo, e sempre reafirma isso através de Roman, em uma jornada pelos personagens principais que vão na direção oposta. Quer saber a história novelesca dos Toretto? Como Dom foi preso? As decepções parentais de um John Cena apático? É, eu também não.

Nesses caminhos de construção de personagem e expansão de Universo, é possível ver a saga bebendo da proposta atual de Universos Compartilhados como o da Marvel. É um caminho esperado, tanto do ponto de vista comercial quanto de desenvolvimento da franquia, algo que eles já fizeram muito bem com o spin-off de Hobbs e Shaw, mas, aqui, a proposta exponencial resigna a experiência. Nada é orgânico na construção da obra, em que vemos uma colagem de personagens antigos e novos, retorno ao passado, explicações rápidas de como Han (Sung Kang) está vivo,  referências pop como na péssima participação de Cardi B, entre outros momentos de exposição de pessoalidade desnecessária em uma franquia como esta, tanto porque são mal feitos, como também por tirarem espaço da viagem da ação. E sim, estou cobrando ação de um filme de Velozes e Furiosos, pois por bem ou por mal, esses filmes normalmente te mantém engajados com o que acontece em tela, mas não nessa nona entrada, recheada de duração desperdiçada com subtramas e mais tempo que o habitual de melodrama irritante.

Mas quando tem ação, a obra entrega? Sim e não. Tem os típicos exageros cômicos, as sequências cada vez mais gigantescas e a ideia de sempre aumentar o nível do ridículo é redefinida em um bloco com Roman e Tej (Ludacris) tirando sarro de um deboche do público. Dito isso, não é um descomedimento criativo. O diretor Justin Lin cria várias sequências que prezam pelo choque humorado com os eventos em tela, mas constrói bem pouco de inventividade artística em torno delas. Reutilizando magnetismo, personagens lutando e pulando em cima de carros, e algumas perseguições genéricas, o cineasta pareceu preguiçoso com a câmera e os planos comuns. Sem carros com rampas, sequências memoráveis como a do submarino ou de Abu Dhabi, a mentira estima o pior tipo de senso de ridículo: o monótono. Até mesmo a sequência mais falada, é muito mais divertida por apenas existir e pela dinâmica de Tej e Roman, do que necessariamente o que acontece visualmente.

Por fim, Velozes e Furiosos é uma franquia que sempre foi medíocre, com alguns pontos altos de diversão do gênero quando começou a entender seu contexto – eu especialmente gosto do sétimo filme e de Hobbs e Shaw -, mas parece estar encontrando o limite para sua própria abordagem, ou, melhor dizendo, se distanciando dela para se tornar ainda mais tedioso e descartável. Adentrando uma nova evolução de Universo Compartilhado, com vários spin-offs em andamento, Velozes e Furiosos 9 se esquece de todos os detalhes e o comprometimento que tornaram a franquia uma diversão alienada, pois este é o limite dela, e agora soa apenas alienada. Melodrama da pior espécie, Vin Diesel e John Cena demonstrando que não merecem serem veículos estelares, uma montagem juvenil e uma direção preguiçosa resumem a experiência horripilante deste nono filme. Ao final da obra, só pude sentir falta de The Rock e Jason Statham, me perguntar por que não temos um filme só do Tej com o Roman e ainda estar confuso de como continuam convencendo Charlize Theron a participar deste circo.

Velozes e Furiosos 9 (F9: The Fast Saga) — EUA, 2021
Direção:
Justin Lin
Roteiro: Justin Lin, Daniel Cassey, Alfredo Botello (baseado nos personagens criados por Gary Scott Thompson)
Elenco: Vin Diesel, Jordana Brewster, John Cena, Michelle Rodriguez, Tyrese Gibson,  Ludacris, Charlize Theron, Kurt Russell, Nathalie Emmanuel, Finn Cole, Sung Kang, Anna Sawai, Helen Mirren, Lucas Black, Shad Moss, Don Omar, Thue Ersted Rasmussen, Shea Whigam, Vinnie Bennett, JD Pardo, Michael Rooker, Jim Parrack, Jason Tobin, Cardi B
Duração: 145 min.

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