Crítica | Velvet Buzzsaw

“Sem originalidade. Sem coragem. Minha opinião.”

Dan Gilroy já havia se interessado em mundos contraditórios anteriormente, durante a execução do sensacional O Abutre. O morno recebimento de Roman J. Israel, Esq, posteriormente, escondeu o seu nome por um tempo. Mas agora na Netflix, um ambiente muito mais favorável para riscos, Jake Gyllenhaal retorna aos braços do cineasta e encarna um crítico de arte, com questões amorosas para resolver e quadros para investigar. Quer criatura mais agressiva possível, que cirurgicamente renega a imobilidade de uma obra artística e coloca-a para movimentar-se como uma ideia, um acerto ou um erro? O mais curioso é que o posicionamento do cineasta não ocupa apenas o espaço da crítica – e muito menos a crítica em si, mas suas conturbações -, porque a parte artística é muito mais importante. Acerca de uma arte que se torna objeto, que se torna item pessoal, que se transforma em algo que não seja mais arte ou apreciação de arte, contudo, movimentação inescrupulosa de dinheiro. Mesmo mortas, as pinturas tornam-se cruéis assassinas.

Surge o mundo da arte como a contradição, portanto. Após começarmos a enxergar esse universo como câmbio monetário, a pureza some. A exemplo, uma passagem que menciona pinturas rupestres marca isso. Por que consumirmos essas artes do passado, “primitivas”, senão no seu espaço natural? E o roteiro, que fora escrito pelo próprio Gilroy, compreende muitos dos personagens como pessoas cobertas de hipocrisias, mostrando aos poucos esses equívocos em seus caráteres. Uma quantidade grande de coadjuvantes, surpassando o âmbito de seu presumido protagonista, então envolvem-se com um artista recém-descoberto e recém-morto. Vetril Dease é tanto “disease” quanto “deceased” – um morto que ainda contamina – e suas obras deveriam ter sido todas queimadas. Contudo, acabam penduradas em galerias brancas, quartos luxuosos e ricas salas de estar. Uma arte que não quer ser vista tem que ser vista? Será que a contemplação da dor, pois esses são quadros que carregam um passado muito perturbador, deve ser castigada?

O grande porém dessa construção de personagens, entretanto, acaba sendo um ritmo problemático para a apresentação enfim do horror enquanto gênero despontar. O longa-metragem, em muitos momentos, parece estar se engasgando em arcos paralelos que, em contrapartida, são essenciais para a construção da proposta do cineasta. Dan Gilroy quer propor artes que se distanciam das que costumamos consumir. Uma arte que pode até mesmo se incendiar, como se urgisse pela sua efemeridade, pelo seu estado de arte como emancipação do próprio espírito e não de mais ninguém. John Malkovich, no final das contas, interpretando um personagem um tanto quanto perdido no meio disso tudo, recria uma intervenção à natureza que irá durar instantes, até ser enfim apagada pela água do mar. Se existe a coesão temática e o apreço por uma ordem, ao menos no que comporta a intenção de Gilroy, narrativamente tudo mostra não possuir um conjunto. A ascensão de Josephine (Zawe Ashton) e seu caso com Morf, o protagonista, não são concretos.

Com esse seu conteúdo, Velvet Buzzsaw quer – e conseguiria – ser um grande projeto imaginativo de horror. O excêntrico mix entre uma veia cômica e um mistério que poderia comprometer mais a nossa sanidade. Uma rasa sátira com pinturas matando pessoas relacionados à arte, no entanto, é a única coisa que emerge. Não é por algum motivo aleatório que os afortunados, na conclusão, são justamente aqueles que acabam saindo da esfera adoecida que é o mundo supostamente artístico proposto. O que acontece com o personagem de Daveed Diggs tem a ver com essa questão, só que pessimamente conduzida, com mudanças comportamentais pouco orgânicas. A unidade debuta tarde demais, e Dan Gilroy, até chegar a isso, não consegue expor uma competente condução de horror, reiterando as mesmas construções de tensão, apesar da criatividade inerente aos casos. O que se sobressai é realmente a premissa – e, curiosamente, a apresentação da casa de Dease, um ambiente que consegue ser assustador sem nenhuma pintura emergir por inteiro.

Velvet Buzzsaw – EUA, 2019
Direção: Dan Gilroy
Roteiro: Dan Gilroy
Elenco: Jake Gyllenhaal, Natalia Dyer, Toni Collette, Rene Russo, Peter Gadiot, Zawe Ashton, Tom Sturridge
Duração: 113 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.