Crítica | Verão do Medo

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Após o lançamento de Aniversário Macabro e Quadrilha de Sádicos, Wes Craven se estabeleceu como uma das promessas do horror no cinema. Independentes dos filmes bons ou ruins, o gênero tornou-se a sua marca, sendo Música do Coração, drama estudantil músico pedagógico uma das poucas narrativas distantes do universo de perversidade e dor perpetuado entre seres humanos, monstros, etc. Em Verão do Medo, produção realizada para a televisão em 1978, o cineasta tem como guia o roteiro de Glenn M. Benest e Max A. Keller, dupla inspirada no livro homônimo de Louis Duncan, a autora que adora mistério e horror em pleno verão, afinal, para quem não sabe, ela também é responsável por Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado.

Ao longo dos 100 minutos de Verão do Medo, o cineasta Wes Craven nos apresenta mais uma família sitiada pelo horror e medo, desta vez, com doses mais amenas de tensão e violência quase nula. O foco do filme é Rachel (Linda Blair). Ela é a pessoa responsável por cuidar dos cavalos que são posse da família, atividade que divide a sua rotina de estudos, encontros com os amigos, namoro, outras formas de entretenimento, etc. Uma situação anormal acomete a sua família. Uma prima, Julia (Lee Purcell), perde os pais num terrível acidente automobilístico. Com isso, vai morar na casa de Rachel, acolhida de maneira bastante afetuosa inicialmente.

Adiante, as duas adentram numa zona de pequenos conflitos, algo que desconfiamos ser típico de garotas adolescentes e seus hormônios efervescentes. Julia é bonita, atraente, chama à atenção não apenas por seu charme, mas também por suas demais habilidades e carisma, prato cheio para preencher a ira de Rachel, personagem que logo descobrirá ser a prima uma espécie de bruxa com planos malditos para todos que gravitam em torno de sua família. Se estabelece, neste ponto, a clássica disputa entre as forças do bem e do mal, acompanhada pela condução musical de Michael Lloyd e John D’Andrea.

A chegada da prima aparentemente maldita traz uma série de infortúnios para a protagonista. Primeiro, ela perde Mike (Jeff McCraken), o “namorado bonitão”, pois o casal briga constantemente. Logo mais, os seus pais começam a implicar com seu comportamento, deixando-a numa caudalosa onda de irritabilidade dentro do próprio lar. Julia, de maneira habilidosa e cínica, coloca os pais da prima em confronto com a filha, toma para si determinadas atenções e ao passo que apronta uma coisa atrás da outra, numa cadeia maldita de acontecimentos, torna-se alvo da investigação de Rachel, preocupada e focada em recuperar sua reputação.

A narrativa, cabe ressaltar, envelheceu. Na época havia todo o imaginário do aterrorizante O Exorcista, afinal, qualquer coisa com Linda Blair era sinônimo de relação com o filme de William Friedkin, inspirado no romance também eficiente de William Peter Blatty. Há, inclusive, uma cena bem pontual no quesito referencial, quando uma imagem extraída do nosso imaginário demoníaco é sobreposta durante o acidente de carro que ceifa a vida dos pais de Julia. Ademais, o clima de loucura estabelecido na trama também nos remete à atmosfera. Mas as comparações ficam apenas nesta seara. Verão do Medo é um filme para exercício diacrônico, isto é, saudosismo ou compreensão do que se produzia numa época. Para “hoje” não funciona.

Com planos que cumprem apenas o que se pede no roteiro, sem ousadias narrativas, a direção de fotografia assinada por William K. Jurgensen cumpre o seu trabalho sem grandes momentos, tal como o design de produção de Joe Aubel, “bem anos 1970”, articulado com as demandas culturais e sociais de sua época, numa narrativa que teve Howard A. Smith na montagem, membro da equipe que poderia, se autorizado pelos produtores e por Wes Craven, ter excluído alguns trechos sem carga dramática, algo que tornaria a narrativa mais ágil e instigante, além do mais, atemporal, isto é, funcional para as plateias frenéticas da contemporaneidade.

Verão do Medo (Summer of Fear/Estados Unidos, 1978)
Direção: Wes Craven
Roteiro: Wes Craven, Glenn M. Benest, Max A. Keller
Elenco: Linda Blair, Lee Purcell, Jeff McCraken, Jeremy Slate, Carol Lawrence, Macdonald Carey, Jeff East, James Jarnigan, Sierra Pecheur, Billy Beck, Frederick Rule
Duração: 100 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.