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Crítica | Verão Feliz (1999)

por Kevin Rick
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Takeshi Kitano ganhou reconhecimento global por suas incomuns histórias de gângsteres/Yakuza e o uso impactante da violência (majoritariamente utilizado em seus filmes como um detalhe ou artifício narrativo para debater temas mais profundos em relação a vida e a sociedade). No entanto, longas como O Mar Mais Silencioso Daquele Verão De Volta às Aulas, demonstravam o interesse do cineasta nipônico em histórias menos violentas, colocando em foco a melancolia juvenil e sua eterna jornada de amadurecimento. Verão Feliz, filme que sucede o famoso Fogos de Artifício, faz parte desse lado mais, digamos, pueril ou singelo de Takeshi, que mantém sua sensibilidade com a direção interessada na contemplação da vida, mas por uma óptica infantil.

Assim como acontece em seus longas que abordam a juventude, Verão Feliz ocorre em um período determinado, sendo, como o título alude, o verão (férias) do nosso protagonista Masao (Yusuke Sekiguchi). O menino, que reside com sua avó e perdeu seu pai, decide pegar a estrada para encontrar sua mãe que aparentemente mora distante do rapaz para poder trabalhar. Em sua pequena odisseia, Masao acaba recebendo a companhia do rabugento, mal-educado e oportunista Kikujiro (Takeshi Kitano), um ex-gângster que recebe a tarefa de levar o rapaz ao encontro da sua mãe. Como um típico road movie, a dupla se depara com vários personagens distintos e aventuras com pontuais epifanias e lições morais, transpassando a esperada mensagem de que o trajeto importa mais que o destino. No entanto, apesar da embalagem clichê, Verão Feliz se distingue de ser sua comum história sentimental de amadurecimento e aprendizado por causa da direção “infantil” e essencial de Kitano.

O início da obra nos situa dos dois lados da infância de Masao, no qual Kitano, acompanhado da melodia saltitante e alegre de Joe Hisaishi, nos apresenta o menino se divertindo com as atividades do verão, para logo em seguida mostrá-lo sozinho em um campo de futebol (completamente ausente de som). O cineasta constantemente faz esse jogo imagético e sonoro de acordo com a situação (solidão ou diversão) do menino, utilizando elementos cinematográficos para transpassar o que Masao está vivenciando.

Há o artifício já citado do som, no qual a maioria das sequências trágicas (com exceção do clímax) são amplificadas emocionalmente com o silêncio, assim como as circunstâncias recreativas são auxiliadas por uma melodia jocosa. Contudo, podemos ver isso em toda a mise-en-scène de Kitano. Quando os personagens estão se divertindo, normalmente estamos em um dia ensolarado, com muitas cores e uma direção de arte vibrante, além de um ritmo acelerado. Do lado oposto, quando a parte trágica da história é evidenciada, o diretor nos situa em noites com cenários sombrios ou/e estica o máximo possível da sequência. Por exemplo, quando Masao está sozinho no campo de futebol ou quando Kikujiro sofre uma surra, a direção do cineasta é mantida com uma calma melancólica, lentamente se distanciando dos personagens para um plano aberto dilatar o drama.

Além disso, a montagem do longa, também feita por Takeshi Kitano, exerce um papel importantíssimo em relação à diferença de tom dependendo da emoção em tela. Vemos isso em relação ao ritmo, como citei anteriormente, conforme a edição fica mais veloz se estamos lidando com as várias peripécias da dupla, ou então com poucos e longos cortes quando o estilo contemplativo de Kitano faz uma reflexão da desolação. O cineasta também usa muito bem a montagem para a comédia, em ótimos cortes e timing cômico para as várias sequências humorísticas do longa (existe um bloco de apostas que é simplesmente hilário).

A estrutura de road movie também auxilia o lado cômico do filme, no qual Kitano fragmenta a jornada quase em um corpo de esquetes, com aventuras em ambientes diversos, situações bizarras e indivíduos variados, desde uma dupla de motoqueiros afáveis até um casal de “artistas”. O cineasta também encontra um ótimo equilíbrio na entrega das piadas, algumas irrompendo em tela (até lembrando as abruptas explosões de violência da sua filmografia) especialmente com a edição rápida, enquanto outras são mais sutis – existe uma sequência que ele lentamente se distancia dos personagens brincando em um gramado, para vermos uma placa de “não pise na grama”; até soando boba na explicação, mas o timing dele com a câmera é fantástico.

Dessa forma, Verão Feliz está sempre criando uma experiência cinematográfica essencial e genuína: a construção de um mundo feliz (mas realisticamente trágico) pelos olhos de uma criança, em uma jornada de amadurecimento pontuada perfeitamente pelos dramas infantis de Masao (falta de contato com a mãe, amigos viajando com os pais) e seus momentos de diversão (brincadeiras, festivais, fantasias). No qual Kikujiro funciona como um guia da tristeza até a felicidade, também se autodescobrindo durante a aventura.

Equilibrando a dramaturgia melancólica com seu longa mais burlesco, além de algumas simbologias angelicais e sequências levemente oníricas que ditam um tom fabular, Kitano oferece uma jornada que pode até parecer seu típico road movie, mas como habitual na filmografia do cineasta nipônico, a proposta superficial carrega uma gama de camadas descascadas com a imagem silenciosa e lentamente observacional, indicando o que é fundamental na vida. Subvertendo o trajeto catártico e moral do ponto A ao ponto B visto nesta estrutura de filme, o “desfecho” da aventura acontece quase no meio do longa, abrindo espaço para um longo ato final cheio de brincadeiras, lazer e peripécias para que Masao tenha seu verão feliz.

Verão Feliz (Kikujirō no Natsu, 菊次郎の夏) – Japão, 1999
Direção: Takeshi Kitano
Roteiro: Takeshi Kitano
Elenco: Takeshi Kitano, Kayoko Kishimoto, Yusuke Sekiguchi, Yūko Daike, Kazuko Yoshiyuki, Beat Kiyoshi, Rakkyo Ide, Fumie Hosokawa, Akaji Maro, Daigaku Sekine
Duração: 121 min.

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