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Crítica | Vermes da Areia de Duna, de Brian Herbert e Kevin J. Anderson

por Ritter Fan
466 views (a partir de agosto de 2020)

  • spoilers (afinal, trata-se do oitavo e último volume da linha narrativa principal de uma franquia literária).

Mesmo que Brian HerbertKevin J. Anderson fossem grandes e consolidados escritores com décadas de experiência, encerrar a saga Duna iniciada por Frank Herbert em 1969 já seria uma tarefa extremamente complexa, mesmo que, segundo eles, as ideias gerais tenham saído de duas páginas escritas pelo autor original antes de falecer. Mas os dois estão longe de ter toda essa qualidade, mesmo que tenham que ser aplaudidos por terem começado esse ambicioso projeto com o lançamento de seis livros prelúdio entre 1999 e 2004 para testar as águas de um lado e para chamar atenção para a hexalogia clássica de outro.

Afinal, contar o que veio antes dos Atreides se mudarem para Arrakis sem dúvida não só era mais “fácil”, como teria menos chance de atrair a ira de leitores fieis do tipo “me recuso a ler Duna que não seja por Frank Herbert” como era meu caso até comprometer-me a ler o final por Brian e Kevin. Com o sucesso da empreitada, a dupla então arregaçou as mangas na redação do fim da história principal multiplicando por nada menos do que 650 as duas páginas rascunhadas por Frank Herbert, com as 1.300 resultantes sendo divididas em dois volumes, Caçadores de Duna (Hunters of Dune), lançado em 2006, e Vermes da Areia de Duna (Sandworms of Dune), lançado no ano seguinte e que é objeto da presente crítica.

Não tenho a menor intenção de criticar negativamente as escolhas de história que a dupla fez, primeiro porque é impossível saber o quanto foi realmente desenvolvido a partir de Frank Herbert e, segundo, porque simplesmente não se deve esperar que um gênio literário do naipe de Herbert pai ganhe ecos genéticos em seu filho ou mesmo em Anderson, este já então razoavelmente consolidado como escritor de obras derivadas de franquias famosas. Se eles elegeram revelar como o Inimigo como sendo Omnius e Erasmus, inteligências artificiais autônomas catalisadoras do Jihad Butleriano (o evento que levou ao extermínio de trilhões e que proibiu a fabricação de máquinas inteligentes) que, depois de 15 mil anos, voltaram para eliminar a Humanidade de uma vez por todas, não tenho muito o que falar. Posso não gostar da escolha, pois ela remete não às criações de Frank, mas sim aos prelúdios de Brian e Kevin, mas é uma escolha que faz sentido circular. 

No entanto, posso criticar e efetivamente criticarei a forma como os dois contaram o encerramento do épico, pois há muitos problemas aí e que não eram tão salientes em Caçadores de Duna. Tudo bem que o volume anterior foi muito mais uma forma que os autores encontraram para fazer a fusão do universo de Frank Herbert com o universo de seus prelúdios e tudo bem que o livro inteiro não seja mais do que uma longa e detalhada (demais) arrumação de tabuleiro para o grande conflito final, com a narrativa em terceira pessoa onisciente trabalhando cada núcleo separadamente, com muito pouco – ou quase nenhum – tangenciamento entre eles, mas havia uma cadência interessante que mantinha a atenção constante em cada um dos principais personagens, Duncan Idaho, Sheeana, Miles Teg, Murbella, Waff, Scytale e até mesmo os misteriosos “velhinhos” que volta e meia apareciam como as ameaças.

Infelizmente, porém, Vermes da Areia de Duna (Sandworms of Dune) não justifica sua existência. Não só tudo o que é acrescentado à história – os gholas de personagens históricos dos primeiros livros, a infiltração dos Dançarinos Faciais, a subtrama de Waff e sua devoção ao Imperador-Deus e até mesmo toda a preparação da Madre Comandante Murbella para enfrentar a invasão das inteligências artificiais no Antigo Império – parece muito mais em epílogo do que uma história completa, como a própria repetição da estrutura dos quase exatamente os mesmos núcleos separados cansa demais o leitor para que tudo então seja resolvido com velocidade de dobra nas 150 páginas finais e mesmo assim de maneira razoavelmente insatisfatória.

Talvez o maior exemplo do problema crônico do oitavo livro da série principal seja o núcleo dos residentes da não-nave Ithaca. Lá estão os mais importantes personagens desta parte final da saga e quase todos os gholas de personagens clássicos em suas versões crianças nas mais diferentes idades. Somos levados a crer que há, ali entre eles, um novo Kwisatz Haderach e que esse novo messias é, mais uma vez, Paul Atreides. O texto aponta para isso e os dois seres robóticos apontam para isso, inclusive fabricando até mesmo a versão sombria de Paul, ridiculamente batizada de Paolo. Mas tudo é feito na base da mão pesada, o que evidencia, da pior maneira possível, que obviamente que o Kwisatz Haderach não é nenhum dos dois, mas sim, por alguma razão jogada de qualquer jeito pelos autores ao final, o próprio Duncan Idaho, o homem das mil vidas (e mortes).

A questão, porém, é que, apesar de todas as 1.300 páginas para Brian e Kevin fazerem os leitores criarem empatia por esses personagens, eles falham miseravelmente. Os dois Paul Atreides tem tanto desenvolvimento quanto dois desenhos feitos em cartolina por uma criança de oito anos de idade. Duncan Idaho, por seu turno, apesar de ter sido muito bem trabalhado por Frank Herbert especialmente em Imperador-Deus de Duna, em que ele é construído como um personagem trágico, assassinado centenas de vezes por quem jurou servir e, no final das contas, tornando-se o inevitável assassino de seu protegido, não é muito mais do que um “alarme de furto” em Vermes da Areia de Duna, acionando os motores de dobra da Ithaca toda vez que a “rede” de táquions do Inimigo, que só ele enxerga, ameaça a não-nave.

Pior do que isso é que Brian e Kevin investem páginas e páginas – pelo menos duas centenas – na existência de traidores na tripulação da Ithaca, um clichê narrativo bom, mas que é muito mal utilizado por eles, já que há todo um desenvolvimento elaborado para estabelecer quem eles são, com uma boa lógica interna, mas que é defenestrada não pelos vilões mudarem de identidade repentinamente, pois não mudam, mas sim por todos os acontecimentos subsequentes transformarem Idaho, Miles Teg, a Madre Superiora Sheeana e os gholas, acordados ou não para suas vidas anteriores, em perfeitos idiotas. Tanta inteligência e experiência reunidas, inteligência e experiência essas que os autores fazem questão de reiterar dezenas de vezes, e todo mundo é pego de surpresa quando os traidores são revelados, dando-lhes tempo de causar gigantescos estragos na nave, permitindo sua captura.

E notem que abordei apenas um núcleo. Não falei detalhadamente dos gigantescos esforços de guerra da Madre Comandante Murbella que, no frigir dos ovos, não servem para muita coisa, já que ela é ajudada pelo deus ex machina chamado de Oráculo do Tempo – personagem que ganha duas linhas aqui e ali ao longo dos dois livros, mas que, de repente, é a coisa mais importante e poderosa do universo – o que esvazia completamente todos os sacrifícios feitos. Waff, o último Tleilaxu Perdido, apesar de ser responsável por desenvolver os gholas do Barão Harkonnen e de Paul Atreides para os vilões, algo que, aliás, demora uma eternidade, depois passa pelo processo de desenvolver vermes da água e, depois, vermes blindados para repovoar Duna que, se pararmos bem para pensar, em nada – absolutamente nada – servem para avançar a trama. E os gholas que são trazidos de volta para “cumprirem missões” misteriosas? Chega a ser patético ver que Leto II torna-se “um” com os vermes da areia da Ithaca, ensaiando um ataque triunfal à cidade dos robôs, apenas para ser relegado a um terceiro plano narrativo em que ele se transforma, para o leitor, em “barulhos” vindos lá de fora do quartel-general de Omnius.

Em outras palavras, Brian Herbert e Kevin J. Anderson quiseram emular Frank Herbert no escopo épico do final e acabaram criando uma história tumultuada e mal desenvolvida que faz um desserviço ao que eles próprios haviam construídos em Caçadores de Duna. O grande apocalipse desse universo – o Kralizec – torna-se uma luta dispersa que nunca chega às vias de fato, com personagens importantíssimos trazidos de volta à vida para cumprir funções rasteiras e com Duncan Idaho – o grande Dunca Idaho! – sendo elevado ao super-poderoso status de “último Kwisatz Haderach” que se funde a Erasmus para trazer paz ao universo, em uma correria final que extrai todo a contemplação e todo o lirismo que essa conclusão à la Metrópolis tinha o potencial de ser.

Duna, infelizmente, acaba em uma nota negativa apesar de todo o esforço de Brian Herbert e Kevin J. Anderson em entregar algo digno de destaque.  Tudo o que havia de bom em Caçadores de Duna, tornou-se ou uma repetição ou desconstrução ruim em Vermes da Areia de Duna, o que acaba, no agregado, prejudicando os dois volumes finais da dupla. Eu poderia encerrar dizendo que Frank Herbert merecia mais, mas a grande verdade é que menos teria, potencialmente, um efeito melhor para o encerramento da saga. Menos ambição, menos contradição, menos enrolação e, portanto, menos páginas poderiam ter produzido no mínimo algo que fizesse o leitor sair com aquela sensação gostosa de que o dever foi cumprido se não brilhantemente, pelo menos a contento, o que já seria muito considerando a complexidade da tarefa.

Vermes da Areia de Duna (Sandworms of Dune – EUA, 2007)
Autores: Brian Herbert, Kevin J. Anderson (baseado em obras de Frank Herbert)
Editora: Tor Books
Data de lançamento: 07 de agosto de 2007
Páginas: 628

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3 comentários

Luiz Santiago 26 de fevereiro de 2021 - 20:54

Livro de 600 páginas sobre uma minhoca de Chernobyl…

Responder
WAGNER ANDERSON SOARES 27 de fevereiro de 2021 - 00:28

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk Morri

Responder
planocritico 27 de fevereiro de 2021 - 00:28

E que palita os dentes com Perry Rhodan e seus amiguinhos…

Abs,
Ritter, o Minhocão.

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