Crítica | Viagem ao Princípio do Mundo

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Filmado em 1996, quando Manoel de Oliveira já tinha 89 anos de idade, Viagem ao Princípio do Mundo é um filme de vivências, uma busca pela memória a partir de premissas particulares, misturadas com a vontade de fazer cinema e partilhar o passado com mais alguém. O filme foi o canto do cisne de Marcello Mastroianni, que viria a falecer em dezembro de 1996, quase cinco meses antes da estreia do filme. Na obra, o ator interpreta um personagem chamado Manoel, que é o próprio Oliveira terceirizado, partilhando a busca de um ator francês descendente de portugueses, e também fazendo as suas próprias confissões e reencontros ao longo do caminho.

O ator francês é Afonso (Jean-Yves Gautier), que trabalha em um longa-metragem cujas filmagens ocorrem em Portugal. O fato de ter um pai português, que migrou para a França antes da 2ª Guerra Mundial, faz com que Afonso tenha interesse em conhecer a vila de seus antepassados. Para acompanhá-lo nesta viagem, ele chama o diretor do filme (Manoel-Mastroianni) e outros dois colegas de elenco (interpretados pelos já muito conhecidos atores do time de Oliveira: Leonor Silveira e Diogo Dória).

A câmera em Viagem ao Princípio do Mundo é uma espécie de máquina do tempo, agindo da maneira menos óbvia possível. O carro avançando por estradas e cidades, a passagem de casas e estátuas e o compartilhamento de lembranças do passado criam um modelo bastante incomum de recordação. Nesta viagem, vários núcleos da vida desabrocham e são problematizados e rememorados sob os mais diversos sentimentos, tando de quem narra, quanto de quem ouve e reponde. Às vezes, um assunto vem à tona com uma alegria quase infantil; outras, com uma dor, uma saudade que parece aumentar toda vez que se fala da pessoa, do evento ou do lugar que um dia foi.

A memória, as viagens e os personagens em busca de referências ou em conflito com o passado foram temas recorrentes no cinema de Oliveira, aparecendo cada vez mais fortes à medida que o cineasta envelhecia, culminando em um verdadeiro exercício onde se misturam memória, viagem e legado de uma pessoa em seus últimos filmes, O Velho do ResteloUm Século de Energia, realizados quando o diretor tinha 106 anos de idade. Nesta viagem, porém, ele adota uma visão mais calorosa, quase romântica em relação à vida e ao tempo. Com uma abordagem metalinguística, vemos o cineasta falar de si e, ao mesmo tempo, criar uma aventura real, onde conversas sobre os tempos de Colégio, visita a prédios e monumentos icônicos ou reencontro com parentes há muito separados fazem parte do programa.

O filme é bastante simples, com as melhores composições de planos e a melhor atuação da fotografia nas tomadas internas, especialmente no ato final, quando Afonso chega à casa de sua velha tia. Aí se dá uma longa conversa, onde a mulher não se conforma que o sobrinho (de quem desconfia) não saiba falar português, apenas francês. O roteiro aí tem a sua camada cômica e isso funciona muito bem em toda a sequência, fazendo também o papel de cruzamento de linhas e vidas que inicialmente têm dificuldade para se conectar, mas logo encontram o caminho e os laços invisíveis, enfim, se atam.

Tenho problemas com o ritmo da obra em toda a primeira parte e não sou particularmente fã do único modelo utilizado no trajeto de carro — com os amigos conversando, sempre no mesmo plano e sempre com a mesma troca para contrapor um interlocutor. Todavia, estes são pontos que, a despeito de trazerem problemas, não interferem de maneira colossal na qualidade da fita. Viagem ao Princípio do Mundo é um bom filme sobre vivências e sobre o quê, de tudo o que experimentamos na vida, permanecem em nós, até a nossa morte.

Viagem ao Princípio do Mundo (1997)
Direção: Manoel de Oliveira
Roteiro: Manoel de Oliveira, Jacques Parsi
Elenco: Marcello Mastroianni, Jean-Yves Gautier, Leonor Silveira, Diogo Dória, Isabel de Castro, Cécile Sanz de Alba, José Pinto, Adelaide Teixeira, Isabel Ruth, José Maria Vaz da Silva, Fernando Bento, Mário Moutinho, Jorge Mota, Sara Alves
Duração: 95 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.