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Crítica | Vice (2018)

por Ritter Fan
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Adam McKay, egresso de sua prolífica pareceria com Will Ferrell, partiu para o drama satírico com o excelente A Grande Aposta, talvez a melhor obra de ficção sobre a crise de 2008. No filme de elenco estelar, ele usou toda suas lentes cômicas para apresentar os terríveis acontecimentos de não muito tempo atrás de maneira sagaz, convertendo os complicados meandros técnicos de uma história que poderia ser de outra forma ininteligível para os não-iniciados no economês em um deleite repleto de artifícios – inclusive Margot Robbie em uma banheira definindo subprime! – que tornaram os textos expositivos facilmente digeríveis.

O diretor e roteirista, então, depois de levar seu Oscar de roteiro adaptado (que dividiu com Charles Randolph) e ter seu filme laureado com outras quatro indicações, dentre elas a principal, partiu para trazer para as telonas a cinebiografia do controverso – só para usar um eufemismo – vice-presidente dos EUA Dick Cheney. Para isso, recrutou dois atores de sua premiada obra anterior, Christian Bale, que literalmente transformou-se no silencioso e poderoso segundo-em-comando dos Estados Unidos no governo de George W. Bush e Steve Carell, que encarna Donald Rumsfeld, o político que inspirou Cheney, duas escolhas sem dúvida inspiradas e que ganha a adição de Amy Adams como Lynne Cheney, esposa de Dick, e Sam Rockwell como o hilário Bushzinho fechando a quadra principal.

McKay não esconde nem por um segundo seu mais absoluto desgosto por Cheney e por toda a máquina do Partido Republicano por trás dele, deixando evidente que sua tentativa de fazer uma cinebiografia carregará nas cores de seu posicionamento político do começo ao fim, o que é perfeitamente justo e, francamente, mais do que esperado. Recorrendo ao mesmo tom farsesco e satírico de A Grande Aposta, seu roteiro pinta Cheney como o diabo em pessoa em um filme que vai, de forma não completamente cronológica, de sua juventude até o fim da presidência de Bush, com Bale sumindo completamente em seu papel e mais uma vez demonstrando sua assombrosa capacidade camaleônica. Aliás, é o ator que, quase que sozinho, carrega o filme nas costas, fazendo-nos por vezes achar que o que estamos assistindo é um documentário e que o Cheney que vemos é o de verdade. Mesmo reconhecendo a qualidade do trabalho dos demais nomes do elenco, Bale está a anos-luz na frente aqui ao ponto de seus pares quase que funcionarem como a âncora que lembra o espectador que ele está vendo uma abordagem ficcional, já que Adams, Carell e Rockwell não se fundem de maneira comparável a seus respectivos personagens.

Estruturalmente, a progressão narrativa por vezes lembra os esquetes do Saturday Night Live, programa que, não coincidentemente, marcou o começo da carreira de McKay nas artes. Imaginem o já citado A Grande Aposta, só que mais recortado, mais episódico, com elipses um tanto quanto mal resolvidas na biografia de Cheney que só tornam mais evidente a natureza capitular que acompanha o filme quase que integralmente. O diretor, em sua defesa, já prepara o espectador para algo assim com a explicação inicial de que a fita se baseia em fatos reais o tanto quanto possível, já que a vida de Cheney é um grande mistério. Sim, esse aviso faz sentido, mas Vice não é um documentário e, portanto, o roteiro poderia ter se beneficiado de preenchimentos ficcionais e liberdades autorais para minimizar a natureza de esquete da obra. Da mesma forma, o espectador teria se beneficiado de um olhar mais “calmo” para o biografado, já que McKay passa correndo pelos anos formativos do futuro vice-presidente que não iluminam de verdade suas motivações, sua fome por poder e toda a vilania que é mostrada com sangue nos olhos pelo cineasta.

Mesmo com esse incômodo narrativo causado por uma espécie de vazio histórico, McKay sabe divertir o espectador pegando aterrorizantes momentos-chave na história americana do período e extraindo sua comicidade inerente e fazendo-nos rir de maneira desconcertante dos absurdos da super-vice-presidência de Cheney. De certa forma, exatamente por essas situações vergonhosas, é que a estrutura de esquete por vezes funciona muito bem, abrindo espaço para o diretor fazer suas bem boladas brincadeiras cinematográficas (não tem Robbie na banheira, mas há momentos tão inspirados quanto). Mas não é algo sustentável completamente ao longo das mais de duas horas de projeção exatamente porque falta substância para dar estofo às ações de Cheney, além de um pouco menos de sofreguidão que acaba atropelando momentos importantes como a interpretação enviesada da cláusula constitucional sobre os poderes do presidente (e, claro, por vias transversas, do vice-presidente), que acaba ficando jogada e, de certa forma, perdida na confusão.

Vice, apesar de seus tropeços, é mais um bom drama satírico de McKay, mas que, dessa vez, prende mais pela curiosidade inerente sobre o recluso Dick Cheney e pela assustadora atuação de Christian Bale com ajuda de um soberbo trabalho de cabelo e maquiagem do que pela capacidade do diretor e roteirista em conduzir uma história hipnotizante. A Grande Aposta segue imbatível na filmografia do cineasta, mas Vice está longe de fazer feio mesmo que a figura histórica retratada seja para lá de horrível, agora sem eufemismos.

Vice (Idem, EUA – 2018)
Direção: Adam McKay
Roteiro: Adam McKay
Elenco: Christian Bale, Alex MacNicoll, Aidan Gail, Amy Adams, Cailee Spaeny, Steve Carell, Sam Rockwell, Alison Pill, Colyse Harger, Lily Rabe, Violet Hicks, Tyler Perry, Jesse Plemons, Justin Kirk, Don McManus, LisaGay Hamilton, Stephen Adly Guirgis, Matthew Jacobs, Shea Whigham, Eddie Marsan, Stefania LaVie Owen, Adam Bartley, Kirk Bovill, Jillian Armenante, Bill Camp, Fay Masterson, Alfred Molina, Naomi Watts, Joseph Beck, Paul Perri
Duração: 132 min.

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22 comentários

Marcus Prado 4 de abril de 2019 - 18:44

Taí um filme dirigido explicitamente com certo viés (contrário ao meu) que eu gostei. Bale é realmente incrível. Imagino o que esse cara ainda vai aprontar. Acho que quando envelhecermos mais, olharemos para alguns caras dessa geração como alguns relembram do DeNiro, do Pacino, etc.

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planocritico 6 de abril de 2019 - 19:56

Para mim, Bale JÁ É um DeNiro ou Pacino da vida em termos de ator transformativo!

Abs,
Ritter.

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cristian 8 de fevereiro de 2019 - 15:01

Calcado quase inteiramente na atuação de Bale o filme/documentário me lembrou muito o tom impresso por Michel Moore em seus filmes. O que dificulta a aproximação com os personagens é também seu maior diferencial, a forma episódica de esquetes cômicos. O quanto cada um “compra” desses personagens é o que resultara a avaliação pessoal do filme. Eu fiquei em cima do muro e achei a critica do Ritter bem certa, o diretor tem uma pegada diferente e sempre é legal ver coisas novas, o que não quer dizer que sejas exatamente brilhantes. Logo mais Mckay terá que mudar essa formula sob o risco de se tornar repetitivo e enfadonho.

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planocritico 8 de fevereiro de 2019 - 15:08

@disqus_3giNDWryIu:disqus , é uma boa comparação. Os filmes do McKay e os documentários de Moore têm muita coisa semelhante. Eles meio que se aproximam de um meio-termo, com McKay fazendo a ficção aproximar-se de um documentário e Moore fazendo o oposto.

E concordo totalmente que o McKay terá que mudar seu estilo, senão vai ficar que nem o Shyamalan e os “twists” dele. Aliás, a Amazon lançará em breve uma série documental produzida e dirigida pelo o McKay que, pelo trailer, parece seguir essa mesma fórmula dele. Vamos ver se dá certo lá ainda.

Abs,
Ritter.

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Junior Oliveira 8 de fevereiro de 2019 - 14:08

Fui assistir ontem, numa sessão com outras cinco idosas e um senhor escondido nas sombras da última fileira. E olha, a visão do McKay me assustou e muito! Não senti essa narrativa fragmentada que você citou, Ritter. Realmente o vai e vem no tempo me deixou momentaneamente perdido, mas no geral, achei bem coesa. Há, sim, alguns furos, principalmente a maneira como os anos oitenta de Ronald Reagan foram retratados (ou deixaram de ser). Numa época tão rica para os republicanos, imaginei que ele se concentraria um pouco mais nesses anos.

Mas as sequências do 11/09 foram absurdas, a maneira como o cara agiu, sem hesitar, tomando as rédeas da situação, cara… Fiquei apenas com a imagem do Bush Filho sentado lá no colégio, em silêncio, vendo o circo, literalmente, pegar fogo. Coincidentemente eu assisti ao documentário da netflix “Get Me Roger Stone” uns dias antes de ir ao cinema e as eleições contra o Al Gore, cara… Que porra foi aquela, uma puta armação com o dedo (ou as mãos) do Cheney… Uma farsa, simples assim. Tudo era uma farsa e o McKay entende isso tão bem que só rindo para não ter uma ataque histérico.

Agora um pouco de spoilers: a sequência que ele “fisga” o Bushzinho, o filme terminando no meio da projeção, o sorriso maroto do Nixon, são detalhes pequenos, mas que enriqueceram a narração.

Valeu, Ritter!

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planocritico 8 de fevereiro de 2019 - 15:08

“Um senhor escondido nas sombras da última fileira”… Eita!!! Deu medo, hein? HAHAHAHAHAHAHAHAAH

Cheney não era flor que se cheire, sem dúvida alguma, com ou sem filme sobre ele. Mas eu achei que o McKay se empolgou demais com suas “brincadeiras” narrativas – que eu até gosto, mas tem limite – e aí o filme acabou, para mim, sendo quebrado em pedacinhos, em literais esquetes como coloquei no texto.

Abs,
Ritter.

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Linti Faiad 2 de fevereiro de 2019 - 13:53

Salve Ritter, a democracia é uma benção! Ainda bem que vc não tem a teoria executiva unitária (na real vc tem, basta nao aceitar ou responder hahaha)…
Sobre A Grande Aposta, infelizmente discordo sobre ser um filme digerível facilmente. Sempre coloco para os alunos, poucos são os que acompanham o ritmo.
E acho que o mesmo ocorreu com o filme desta crítica. A falta de linearidade no roteiro causa desconforto. Naquele, parece que os roteiristas se sentiram a vontade para ser mais incisivo nas críticas. Neste, tlz pelas questões políticas concretas, o filme foi menos didático em alguns aspectos, o que pode ter gerado ainda mais desconforto.
A atuação do Bale é incrível, mesmo nível da feita na Grande Aposta.
O filme fornece substância para as ações do Cheney, mas acho que por receio de consequencias (processos etc) não se permite ser claro. Quem acompanhou minimamente a história recente da política americana, e consequentemente mundial, saca cm o filme é incisivo, sem no entanto nada acrescentar ao que já se sabia.

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planocritico 2 de fevereiro de 2019 - 16:33

Sério que poucos alunos seus acompanham A Grande Aposta? Qual é a idade deles? Eu acho um filme agradabilíssimo e fácil de se assistir, mesmo abordando assunto tão grave. E olha que eu não passo nem longe de ser algo semelhante a economista…

Sobre ser incisivo nas críticas, eu acho que McKay pintou Cheney como o verdadeiro demônio. Não deixou margens para dúvidas. Enquanto que em A Grande Aposta o vilão era “difuso”, em Vice ele é um só e o filme descasca o sujeito.

Dito isso, porém, não acho que o filme forneça substância para as ações de Cheney. Ao contrário, como mencionei na crítica, o filme é episódico e, especialmente na juventude dele, não entrega o estofo que um dia faria dele o que ele foi.

Mas eu não entendi direito se você gostou ou não de Vice. Diga aí, por favor!

Abs,
Ritter.

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Linti Faiad 2 de fevereiro de 2019 - 20:30

Você, pelo que percebo, tem “base geral de vida” haha. E isso ajuda a compreender a maioria das coisas da vida . Boa parte dos alunos universitários não tem tal característica.
Sobre o Cheney, realmente a parte da juventude parece que foi feita “só para constar”. Não obstante a importância da esposa durante toda as fases da vida, em algms momentos pareceu até que “ela que mandava na porra toda msm”, achei a fase da juventude a mais fraca.
Sobre pintar como vilão, acho que o filme tenta, em certa medida, humanizar o cara especialmente em relação a filha mais nova. Mesmo que no final, qnd o futuro do sobrenome está em risco, ele taca o “foda-se” e “sacrifica” a caçula. Na essência, o filme é feito por um liberal americano (aqui no brasil ele seria chamado de esquerda) e mostra alguns dos principais erros e as consequencias destes para o mundo dos atos da presidencia do Bush filho. Ou seja, os caras são os vilões do mundo mesmo, e não tem cm justificar…
Eu gostei muito do filme. Mas entendo que nem todo mundo goste.
Sobre o Oscar, ainda não vi todos os indicados, mas acho que ele fica atrás de Roma e Infiltrado no KKK, pelo menos. Sobre o Bale e a direção, acho dificil eles ganharem em face dos aspectos políticos. Acho o diretor muito bom. Em 2016, achei A Grande Aposta bem superior a Spotlight, mas acho que a academia preferiu não dar tanto holofote para qm criticava tão severamente qm coloca o almoço na mesa…

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planocritico 3 de fevereiro de 2019 - 14:20

Talvez seja minha idade! He, he, he…

Eu gostei de Vice, mas prefiro bem mais A Grande Aposta que, por sua vez, também gostei bem mais que Spotlight.

Abs,
Ritter.

Responder
Rene Had 1 de fevereiro de 2019 - 13:19

Esse filme é lixo Ritter. affe

Responder
planocritico 1 de fevereiro de 2019 - 13:39

Lixo? Não acho mesmo. Nem de longe. O que você não gostou?

Abs,
Ritter.

Responder
Rene Had 1 de fevereiro de 2019 - 21:50

É ruim sim. Um dos piores filmes já indicados ao Oscar de melhor filme, De jeito nenhum que merecia 7 indicações, Eu tive a mesma impressão de Tiago Belotti, que também achou bem ruim. O roteiro do filme é uma bagunça. Parece uma colcha de retalhos. Só tendo muito mal gosto para gostar dessa bomba

Responder
planocritico 1 de fevereiro de 2019 - 21:57

Hummm, obrigado pela parte que me toca…

Mas o roteiro não é uma bagunça não. Ele só não é rico. E isso sem contar com a atuação incrível de Bale, que você não pode simplesmente descartar.

E não, não é um dos piores filmes já indicados ao Oscar. Não é nem o pior dos oito de 2019…

Mas, cada um com seu cada um, como já diria o sábio…

Abs,
Ritter.

Responder
Armando Ribeiro 12 de maio de 2019 - 17:11

Fala Rene! Eu ate concordo em parte… mas pegou pesado com o “mal (sic) gosto….” eu por exemplo odiei o filme ” A Chegada” uma ( a meu ver) bomba onde NADA acontece….Mas não dá pra taxar o resto do mundo de gente com gosto duvidoso. O certo é que o diretor tem o samba de uma nota só e que foi cansativo o filme foi.. abraço!!

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planocritico 12 de maio de 2019 - 18:29

Eu nem me importo muito com o “samba de uma nota só” (que é verdade), pois foi apenas o segundo filme dele usando esse samba. O problema é que a execução aqui deixou a desejar, ainda que eu discorde muito do outro leitor que tem uma visão mais radical sobre a obra.

Abs,
Ritter.

Mera Rainha de Atlântida 30 de janeiro de 2019 - 20:50

Não gostei do filme, ele tem um série de elementos de roteiro que prejudicam o andamento e impactam no ritmo da historia. A tentativa de emular a fórmula verborragica de A Grande Aposta não funcionou pra mim. As atuações são interessantes, mas os personagens não possuem um desenvolvimento sustentável que permita o espectador sentir empatia. A curiosidade a respeito do Dick Cheney me motivou a continuar assistindo.O tom paródia funciona em alguns momentos inspirados, mas acho que faltou uma sutileza nas exposições.

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planocritico 30 de janeiro de 2019 - 21:24

Acho que seu comentário está em linha com minha abordagem no texto, já que eu acho que o prejuízo no andamento da narrativa veio em razão de um vazio para a formação do protagonista e a quebra da história em pequenos esquetes. No entanto, eu gostei do filme, já que as atuações são excelentes, notadamente Bale, e há vários momentos inspirados em meio ao vazio.

Abs,
Ritter.

Responder
Mera Rainha de Atlântida 30 de janeiro de 2019 - 21:30

A atuação do Bale está formidável, como você pontuou, ele está infinitamente melhor que os outros atores. Torço pra que ele leve o Oscar de Melhor Ator.

Responder
planocritico 30 de janeiro de 2019 - 22:31

Receio que o Malek leve a estatueta, o que seria uma grande injustiça.

Abs,
Ritter.

Responder
Mera Rainha de Atlântida 30 de janeiro de 2019 - 22:47

Caso isso aconteça, a Academia estaria “esfregando na cara” das pessoas que o lobby e a audiência são mais importantes do que o talento.

planocritico 30 de janeiro de 2019 - 23:17

A Academia tem caminhado perigosamente nessa linha para reverter a queda de audiência da cerimônia… Lembre-se quando no ano passado eles anunciaram a categoria de Melhor Filme Popular e, depois, deram para trás (pelo momento)…

Abs,
Ritter.

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