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Crítica | Vício Inerente, de Thomas Pynchon

por Pedro Pinho
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Eis aqui uma história de detetive. Mas cuidado, vá com calma, você não está lendo Agatha Christie, nem Conan Doyle. Aliás, relaxe, Pynchon vai te dar muito menos trabalho do que as mirabolantes deduções de Sherlock Holmes e do detetive Poirot, basta que você abrace a ideia. Eu disse… a ideia? Talvez fosse melhor que houvesse dito: a paranoia! Muahahaha.

Voltando ao ethos de romances como V. e O Leilão do Lote 49, Thomas Pynchon nos apresenta ao detetive particular Doc Sportello, que em uma serena noite na praia toma conhecimento, a partir de sua ex-namorada Shasta, sobre um complô armado contra Mikey Wolfmann, um riquíssimo especulador do ramo imobiliário – e o atual companheiro de Shasta. Em uma miríade de telefonemas, encrencas com a polícia e com os federais e sob dúvidas constantes a respeito da intimidadora e misteriosa organização Golden Fang, cada pista da investigação parece abrir uma infinidade de novas possibilidades. Doc terá que lidar com a dimensão cada vez maior de seu caso e com as memórias de um passado que volta para assombra-lo.

A despeito da confessa homenagem aos romances policiais de Chandler e Hammet, a tradicional investigação de detetive se limita a uma pequena parte do livro. A princípio uma coisa pequena, feita para um detetive particular barato como Doc, cada curva do complô contra Wolfmann revela uma profundidade maior de corrupção. O desenvolvimento da investigação de Sportello transforma o caso irrisório numa grande conspiração, e nisso Vício Inerente se aproxima das histórias mais famosas do gênero, como o Chinatown de Polanski. Mas em lugar de uma detalhada conspiração, revelada a partir das deduções do protagonista, o elemento que cresce exponencialmente em Pynchon não são as ligações racionais – abolidas à medida que a trama caminha. O elemento que cresce exponencialmente é a paranoia.

O ponto central dessa diferença é Doc: espécie de Sam Spade depois de uma maratona de LSD e maconha. Mais do que uma brincadeira de contextualização – o arquétipo do detetive racional na pele de um hipponga viciado – as ligações paranoicas feitas por Doc parecem ser o resultado orgânico das histórias tradicionais de detetive. Ainda que Sherlock Holmes persista apelando para muitos leitores de hoje, suas raízes positivistas do século XIX e a pretensão de entender totalmente a realidade a partir de causas e efeitos parece completamente obsoleta já há algum tempo. A obsessão de explicar a realidade minuciosamente é muito bem taxada hoje em dia como comportamento paranoico. No divã, Sherlock não passa de um psicótico. Elementar, meu caro Freud.

Mas Doc vai além da sátira. É também o símbolo para o deslocamento e para a fragmentação da realidade transformada em paranoia. Encontramos Doc após o fim dos anos 60, após os assassinatos da família Manson, que despertaram uma desconfiança de toda a sociedade em relação aos hippies e à contracultura. Despertaram, aliás, mais do que uma simples desconfiança – o final dos anos 60 anunciou o despertar das forças contrasubversivas, que se uniram para reagir àquele movimento suis generis. Mais do que zombaria, a confusão de Doc, entremeado em conspirações estapafúrdias e sem sentido, é o presente estado da cultura. Em entrevista, Paul Thomas Anderson, o diretor que adaptou Vício Inerente para o cinema, afirma como “já não se trata de conspiração nenhuma que a CIA foi cúmplice do tráfico de drogas no sudeste da Ásia”. Sherlock Holmes só conseguiria respirar os ares do século XX na pele de Doc Sportello, isto é, procurando lógica onde só é possível encontrar paranoia, desconfiança e conspiração. E, é claro, fumando uma quantidade obscena de maconha.

Bigfoot Bjornsen, o FIB, a LAPD, são as forças contrasubversivas que tentarão sepultar a contracultura em definitivo. No meio disso tudo, Mikey Wolfmann, um bilionário que ultimamente anda flertando com a ideia de doar sua fortuna e construir uma comuna no deserto, é raptado misteriosamente. Será que Doc Sportello, o último bastião dos hippongas, vai conseguir salvar a contracultura? Para Pynchon, que escreveu esse livro já em 2009, bem como para nós, a resposta parece óbvia e, aliás, decepcionante. Vício Inerente, de maneira subjacente à sua trama policial e a seu comentário político e social, é um manifesto da melancolia e da nostalgia, dos tempos que mudam e das coisas que ficam pelo caminho, escrito por alguém que viu nascer, e morrer, a esperança de subversão.

Vício Inerente (Inherent Vice) – Estados Unidos, 2009
Autor: Thomas Pynchon
Editora: Companhia das Letras
Tradutor: Caetano Galindo
Páginas: 455.

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