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Crítica | Vida (2017)

por Leonardo Campos
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Grupo de pesquisadores encontra uma estranha forma de vida extraterrestre e após o despertar da força desconhecida, o caos se estabelece, levando a todos para o cerne de um questionamento que não é de hoje: há limites para a ciência? Equilibrado entre debates científicos contundentes e um ritmo narrativo próprio para atender aos anseios da atual cultura do entretenimento, Vida, dirigido por Daniel Espinosa, cineasta que toma como base para direcionamento, o roteiro de Rhett Reese e Paul Wernick. É uma trama e estrutura que já conhecemos, haja vista a quantidade de abordagens da temática na indústria hollywoodiana. O interesse nesta abordagem, lançada em 2017, é a forma como o elenco, os elementos estéticos, o texto e a orquestração das imagens trabalham em simbiose para nos entregar um espetáculo tenso, divertido, apavorante em vários momentos, sem deixar de lado o seu tom reflexivo. Num desenrolar que traz figuras ficcionais na arte pela sobrevivência, nos questionamos sobre limites. Numa pesquisa com materiais perigosos, alegoria constante na aventura em questão, até quando devemos parar? Ser ético é algo menos intenso do que a descoberta em si? Não somos apressados demais diante das novidades que despertam a habitual curiosidade de uma existência inquieta? Quando, em nome da ciência, mexemos em espécimes e a retiramos de seu ambiente natural, quais as consequências de atitudes deste tipo? Conseguimos assumi-las?

Em Vida, temos como mote a trajetória de uma equipe de seis astronautas de uma Estação Espacial Internacional, grupo que descobre a já mencionada forma de vida inteligente em Marte. Eles iniciam uma investigação em torno do microrganismo que desperta o fascínio e a curiosidade em todos, inclusive nas pessoas que contemplam a descoberta em terra firme, ser apelidado de Calvin por um grupo de crianças de uma escola. Saltitantes, os espectadores flertam com o achado de maneira orgulhosa, pois é mais um item para a coleção de uma nação conhecida por sua postura imperialista e de bravura, acostumada em colonizar e conquistar o território alheio. A equipe é multicultural, internacionalizada, mas o foco central, óbvio, é estadunidense. O centro de todas as coisas que mais uma vez, terá de enfrentar as consequências de sua missão com resultados nada favoráveis para todos os envolvidos nesta trama sem o aclamado e esperado final feliz, com destruição dos males externos e garantia de salvação para os terráqueos.

Sem perder muito tempo com explicações excessivas e voltas em torno dos diálogos para transformar Vida num roteiro demasiadamente sofisticado, o filme engrena na ação logo em sua primeira parte, distribuindo inteligência ao passo que as coisas vão avançando. Primeiro eles capturam uma sonda que supostamente carrega uma forma de vida extraterrestre, descoberta científica que mudará para sempre a história de todos os envolvidos na expedição. É garantia de fama, sucesso, dentre outros privilégios e prestígios. O exobiologista Hugh Derry (Ariyon Bakare) atua nos primeiros passos do processo e revive uma célula dormente da amostra que rapidamente, desperta e se transforma no organismo multicelular batizado de Calvin. Num incidente inesperado, o ser hiberna novamente, sendo revivido posteriormente por meio de choques elétricos de baixa tensão, responsáveis por provocar a reanimação, seguida de um comportamento hostil e perigoso, pondo todos os tripulantes em situação de emergência.

Ao longo dos 110 minutos de Vida, Calvin devora um rato de laboratório, esmaga a mão de Hugh, aumenta de tamanho a cada ataque e se mostra inteligente, sagaz e perigoso. Em sua empreitada, a narrativa nos faz vibrar de emoção por dar um ritmo intenso ao que é apresentado, mas também suscita debates sobre como determinados avanços da ciência podem ser perigosos demais quando manipulados inadequadamente. Após o primeiro ataque de Calvin, Rory Adams (Ryan Reynolds), engenheiro de sistemas, entra para ajudar, mas acaba se tornando mais um refém da inimaginável força da criatura que também desafia o médico David Jordan (Jake Gyllenhaal), há 400 dias fora da órbita, bem como Katerina Golovkina (Olga Dihovichnaya) e Miranda North (Rebecca Ferguson), esta última, comandante da missão. Como soma para o grupo de vítimas, temos Sho Murakami (Hiyoyuki Sanada), piloto da estação internacional que assiste, emocionado, ao parto de sua esposa, geração de uma criança que a depender de como termine a saga com Calvin, nunca conhecerá o seu pai.

Entre cenas de tensão e perseguição, estabelecimento de teorias (a falta de ar respirável pode ter sido o que manteve o organismo inativo até então) e alegorias para os avanços inacreditáveis da ciência, Vida dialoga com muitos elementos de Alien, O Oitavo Passageiro, de Ridley Scott, clássico que popularizou o terror mesclado aos traços narrativos da ficção científica no cinema, remodelado, reinventado constantemente em filmes que geralmente se parecem muito, alguns ruins, outros poucos bons, como esse exemplar comandado por Daniel Espinosa. No caos, com uma unidade espacial que perdeu a comunicação com a Terra e mergulhados no profundo de terror ao saber que esta pode ser a última movimentação de suas vidas, os tripulantes da estação lutam o quanto podem pela sobrevivência, contemplados pela eficiente direção de fotografia de Seamus McGarvey, luxuosa e bastante contemplativa dos espaços erguidos pelo design de produção de Nigel Phelps, fidedigno na concepção dos ambientes inspirados em estações espaciais da realidade, cenários erguidos com base em orientações da NASA.

Com efeitos visuais supervisionados pela equipe de Mark Barkowiski, Vida nos apresenta uma criatura não estática que evolui assustadoramente. Calvin, criado pela equipe juntamente com a orientação do Dr. Adam Rutherford, geneticista, teve como inspiração, o ameboide dictyostelium, ser que possui um ciclo de evolução utilizado como material para a produção do microscópico ser transformado em monstro ao passo que digladia com os humanos e ganha maior dimensão. Destaque ainda para os figurinos adequados de Jenny Beavan, também inspirados em muitas pesquisas com base na realidade, orientadas por consultorias constantes nos bastidores. Para tornar a narrativa ainda mais interessante, temos a condução musical de Jon Skstrand, textura percussiva que é um dos grandes elementos narrativos responsáveis pela atmosfera que mescla medo, opressão e muitas incertezas. Com geneticistas, engenheiros e outros consultores importantes na condução dos processos de construção da visualidade e da movimentação dos atores em cena, o filme é fruto de uma realidade que na época de Alien e seus semelhantes, tínhamos que imaginar para criar, algo que agora é parte da vida dos humanos que exploram constantemente o nosso sistema em suas empreitadas de investigação política e científica. Num ambiente onde não existem as mesmas noções que temos sobre direção por aqui, em terra firme, os personagens driblam a gravidade, enfrentam os impactos de suas próprias descobertas e manipulações e entregam para o espectador um compacto de emoções em ritmo vertiginoso.

Vida (Life) — EUA, 2017
Direção: Daniel Espinosa
Roteiro: Rhett Reese e Paul Wernick
Elenco: Jake Gyllenhaal, Rebecca Ferguson, Ryan Reynolds, Ariyon Bakare, Hiroyuki Sanada, Olga Dihovichnaya
Duração: 104 min

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