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Crítica | Vidas Amargas

por Luiz Santiago
246 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 4,5

Vidas Amargas, adaptação para o cinema da épica obra de John Steinbeck (parceiro de Kazan em Viva Zapata!), é um filme importantíssimo para a definição do ídolo precoce que se tornaria James Dean – aqui, em seu primeiro papel de destaque no cinema – e para o impulso que a juventude rebelde ganharia nas grandes telas a partir do final da década de 1950.

O roteiro, escrito por Paul Osborn (Virtude Selvagem, Sayonara, No Sul do Pacífico), traz apenas uma parte do romance, o momento da 1ª Guerra Mundial. Na trama, vemos uma conhecida história bíblica retrabalhada com cores sociais e filosóficas. Adam (o patriarca Adão) é um religioso fervoroso que foi abandonado pela esposa e segue com sua vida no rancho da família, em Salinas, Califórnia. Seus filhos Cal (leia-se Caim) e Aaron (leia-se Abel) são jovens de personalidades diferentes que, no decorrer do filme, passam por grandes mudanças psicológicas.

Erguido em três grandes colunas temáticas (livre-arbítrio, dever cívico/social, disfunção familiar), o roteiro apresenta uma cativante trama que se encaixa em três momentos diferentes, mostrando a oposição entre o “bom” e o “mal”– no início, com o amor e o respeito entre os dois irmãos, algo que desaparece na reta final da película –; os acasos e eventos do tempo que empurrariam os jovens para caminhos distintos, e, por fim, o ponto trágico, onde a morte é sugerida de um lado e moralmente decretada de outro.

Como se passa em um rancho, espaço que na primeira parte da obra é plenamente explorado pelo fotógrafo Ted D. McCord (O Tesouro da Sierra Madre, A Noviça Rebelde), Vidas Amargas tem a cor verde e os elementos naturais como destaques no desenho de produção e na direção de fotografia. De forma dramática – ampla e negativamente criticada por muitos críticos e cinéfilos –, o verde imperante é posto como um anúncio de polaridade pelo seu próprio significado: o verde do broto e do mofo, a vida e a morte representadas pelos dois irmãos, uma relação que até o meio do filme, embora complexa, mostrava-se dentro de padrões humanizados.

A chegada da Grande Guerra e a exploração do núcleo dramático centrado na atriz Jo Van Fleet (que por sua interpretação aqui receberia o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante), faz vir à tona a qualidade de “crônica da depressão” típica da literatura de Steinbeck. O triângulo amoroso insinuado no início se torna fato, servindo de motor para a primeira grande briga entre os dois irmãos e dando início ao melhor momento da atriz Julie Harris no filme. Sua participação se tornará mais convencional na reta final, e também o desfecho caloroso ao lado do personagem de James Dean carregará o ranço negativo do “final feliz”, porém, nada assim tão grave e nada que diminua a sua importância e boa figuração no miolo da fita.

Não sendo Elia Kazan um diretor de acurado trabalho estético, é impressionante observarmos a atenção que ele dá a determinadas sequências de Vidas Amargas, como as tomadas dentro do bar em Monterey (a “casa” de Kate, a mãe que fugiu e se tornou prostituta) e, principalmente, toda a sequência do parque de diversões estendendo-se até a briga em frente à casa do sapateiro alemão acossado pelos ex amigos (a trama desse personagem, curiosamente, nos lembra a do barbeiro judeu em O Grande Ditador). As cores quentes que aos poucos ganham tonalidades frias, o controlado uso da trilha sonora de Leonard Rosenman (De Volta ao Planeta dos Macacos, Barry Lyndon), a montagem em ritmo de suspense, todo o esforço técnico funciona bem nesse ponto da obra.

Infelizmente a música não segue a mesma exposição em todo o filme, cometendo alguns exageros, principalmente nos pontos mais densos do roteiro. A mesma crítica vai para os planos diagonais que Kazan utilizou para explorar o desvio moral ou as dificuldades na relação entre Adam e Cal. Em 1955 este já era um recurso ultrapassado – afinal, existia em amplo uso desde os filmes vanguardistas do final dos anos 1910! – mas Elia Kazan parece ter gostado bastante de sua aparência na tela, repetindo-o algumas desnecessárias vezes.

Mas se o brilhantismo técnico do diretor é apenas localizado, seu alto controle dos atores e condução da história (exceção à calmaria um tanto destoante do roteiro, na reta final) são inesquecíveis. Seguindo o mesmo estilo de trabalho com os elencos de Uma Rua Chamada Pecado e Sindicato de Ladrões, o diretor se aproveitou de todas as condições particulares e cênicas possíveis para tornar seus protagonistas aceitáveis e perfeitamente entendíveis pelo público – é curioso que mesmo não simpatizando com James Dean o diretor o escalou porque via nele “a cara e o jeito perfeitos para o papel”, provando o quanto seu olhar dramatúrgico era livre e disposto a riscos.

Digam o que disserem das caras e bocas, da gagueira, da “artificialidade” e do “jeito nada à vontade” de James Dean, mas ele é o verdadeiro destaque do elenco de Vidas Amargas, e faz total jus à fama que recebeu, especialmente após a sua morte, seis meses depois da estreia do filme. Geralmente quem o critica de forma negativa não leva em conta o modelo de trabalho do Actors Studio. Para entendê-lo, basta contextualizar o caráter divisório entre o teatro e a naturalidade e então olhar para o personagem de Dean em Vidas Amargas e ver que sua interpretação não nega o propósito do personagem e traz uma enorme riqueza para as suas relações em cena.

O título em português, Vidas Amargas, perde o caráter bíblico do original, que se baseia em um trecho do Capítulo 4 do Gênesis, a conclusão para o que acontece com o primeiro homicida após matar seu irmão Abel: Então Caim afastou-se da presença do Senhor e foi viver na terra de Node, a leste do Éden.

Desolador, cativante e com maravilhoso trabalho cênico (no sentido amplo), Vidas Amargas é um dos mais interessantes filmes baseados na obra de John Steinbeck (Vinhas da Ira e Ratos e Homens são as outras duas), um filme que, mesmo não sendo perfeito, garante um bom lugar na filmografia de Elia Kazan e, pelo menos para a maioria dos espectadores, uma boa e lancinante sessão.

Vidas Amargas (East of Eden) – EUA, 1955
Direção: Elia Kazan
Roteiro: Paul Osborn (baseado na obra de John Steinbeck)
Elenco: Julie Harris, James Dean, Raymond Massey, Burl Ives, Richard Davalos, Jo Van Fleet, Albert Dekker, Lois Smith, Harold Gordon, Nick Dennis
Duração: 115 min.

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8 comentários

Brunno Hard 🎈 29 de junho de 2019 - 15:09

Assisti “East of Eden” algumas vezes ao lado do meu saudoso pai, em Seattle, WA lá pelos primórdios anos 90. Hoje, parece bastante surpreendente que um ator que por somente aparecer em três filmes e ainda ter um impacto tão profundo mais de sessenta anos depois. James Dean, em seu primeiro grande papel em uma grande história, leva você ao mundo dele como o selvagem, misterioso e mal-humorado Cal Trask, um jovem que está desesperadamente tentando ganhar o amor e o afeto de seu pai, apesar do fato d’ele parecer se importar mais com seu irmão, Aron. Em termos de estilo, James Dean pode parecer um pouco melodramático e até ao ponto de histeria em algumas cenas. No entanto, ele é capaz de ficar completamente sob a pele deste personagem rasgado e complexo tão ricamente fornecido por John Steinbeck, cujo romance foi a base para este “East of Eden”. É incrível ver James Dean literalmente se jogar no papel, mantendo você na ponta dos pés imaginando o que ele poderia fazer em seguida.

Quanto ao elenco de apoio, é uma boa com Julie Harris absolutamente brilhante como Arba, a garota de Cal e Aron, bem como Raymond Massey interpretando uma figura paterna muito desagradável. Jo Van Fleet também dá uma performance bastante original que a levou ao Oscar. Na cabeça de todo esse talento e estrelato está Elia Kazan, o grande diretor americano que acabou com uma vitória no Oscar por “On The Waterfront” de 1954. Aqui, ele ataca o material controverso de Steinbeck e cria um movimento e interpretação surpreendente de pessoas em um período que estava apenas começando a insinuar-se moderno e o tumulto e tristeza que pode quebrar uma família disfuncional ainda mais no meio.

É realmente uma pena que James Dean tenha sido submetido a uma morte prematura. Seu talento era monstruoso. Mesmo assim, este e os outros dois papéis mostram-no como o jovem ator inspirador e incrível que ele foi, para sempre imortalizado em nossas mentes como o símbolo de um homem em busca do que iria completá-lo e sua jornada para encontrar a paz e a verdade.

Parabéns pela crítica, Luiz Santiago. Merecidamente 4,5 estrelas.

Abraço,
Brunno Hard

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Acepipe Santi🐂GADO, O PARCIAL 29 de junho de 2019 - 15:30

Obrigado, @brunno_hard:disqus! Este filme tem muito a alma do James Dean e a gente mergulha muito rápido nele por causa dessa presença. Há uma força muito grande na construção do papel dele e o roteiro investe pesado nesse núcleo, dando ao filme, como um todo, essa importância que tem, muito bem guiada pela ótima direção do Elia Kazan.

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Antonio Rocha 2 de maio de 2016 - 17:29

Discordo do analista sobre Vidas Amargas (East Of Eden 1954). Tudo neste filme é soberbo. Grandes interpretações de todo o elenco. Podemos destacar Jo Van Fleet, Raymond Massey e a presença marcante de James Dean em sua estréia. Burl Ives também brilha numa pequena participação. A trilha sonora composta por Leonard Rosenman é envolvente e sublinha com brilhantismo toda a narrativa. A direção de Elia Kazan como de outras vezes leva o espectador para mais uma experiência contundente e impactante. Vidas Amargas é na realidade o melhor filme de todos os tempos.

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Luiz Santiago 3 de maio de 2016 - 01:11

Mas se for ver direitinho, não há quase o que discordar, não é mesmo? O filme é soberbo sim, mas não é perfeito, tem um ponto que, em minha análise, não funcionou bem. Isso não tira do mérito da obra ou da direção do Kazan, algo que se pode ver no texto e na nota.
Sobre este ser “o melhor filme de todos os tempos”, como sempre, nesse tipo de caso apaixonado de declaração, é só uma questão de opinião, não é mesmo? Obrigado por compartilhar a sua!

Responder
Luiz Santiago 3 de maio de 2016 - 01:11

Mas se for ver direitinho, não há quase o que discordar, não é mesmo? O filme é soberbo sim, mas não é perfeito, tem um ponto que, em minha análise, não funcionou bem. Isso não tira do mérito da obra ou da direção do Kazan, algo que se pode ver no texto e na nota.
Sobre este ser “o melhor filme de todos os tempos”, como sempre, nesse tipo de caso apaixonado de declaração, é só uma questão de opinião, não é mesmo? Obrigado por compartilhar a sua!

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Antonio Rocha 2 de maio de 2016 - 17:29

Discordo do analista sobre Vidas Amargas (East Of Eden 1954). Tudo neste filme é soberbo. Grandes interpretações de todo o elenco. Podemos destacar Jo Van Fleet, Raymond Massey e a presença marcante de James Dean em sua estréia. Burl Ives também brilha numa pequena participação. A trilha sonora composta por Leonard Rosenman é envolvente e sublinha com brilhantismo toda a narrativa. A direção de Elia Kazan como de outras vezes leva o espectador para mais uma experiência contundente e impactante. Vidas Amargas é na realidade o melhor filme de todos os tempos.

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Pedro Duzzi 17 de novembro de 2014 - 12:27

Esse vai para a minha lista. Ainda não tive tempo de pegar todos os do Fassbinder que as críticas estão saindo! Mas tá na lista!

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Luiz Santiago 17 de novembro de 2014 - 13:49

Vidas Amargas é um baita filme! Pode priorizar na sua lista, você vai gostar bastante, tenho certeza!

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