Crítica | Videoclipes de Martin Scorsese

O ano de 1987 foi curioso para Martin Scorsese, já que ele não se envolveu em qualquer outra produção audiovisual que não fossem dois videoclipes musicais no auge da MTV, um extremamente esperado e de alto orçamento e outro inesperado e de baixo orçamento, mas ambos marcando o retorno de dois nomes famosos (em graus diferentes, claro) na música: a super-estrela pop Michael Jackson e o componente do The Band, Robbie Robertson. Também curiosamente, apesar de Scorsese ter mantido seu interesse musical aceso com sucessivos documentários musicais, ele, até o momento de publicação da presente crítica, jamais retornou as videoclipes.

Leiam, abaixo, nossas críticas de cada um de seus vídeos, lembrando que o foco é no audiovisual e não nas canções em si.

Michael Jackson: Bad (1987)

Bad foi o sétimo álbum de estúdio de Michael Jackson, lançado cinco anos depois do mega-sucesso Thriller (20X disco de platina!) e, portanto, esperado com ansiedade extrema por fãs. “Bad”, a canção, foi o segundo single do álbum (o primeiro foi a balada “I Just Can’t Stop Loving You”) e o que ganhou o tratamento completo de videoclipe na forma de um curta de alto orçamento e qualidade cinematográfica, exatamente como “Thriller” ganhara (com direção de John Landis e ao custo de um milhão de dólares). “Bad”, porém, foi prestigiado com a contratação de ninguém menos do que Martin Scorsese para a direção e Richard Price (A Cor do Dinheiro) no roteiro, com um orçamento de nada menos do que 2,2 milhões de dólares gastos ao longo de nada menos do que seis semanas de filmagens (tem muito longa-metragem que não leva esse tempo na fotografia principal).

Ainda que o resultado não tenha a mesma importância revolucionária que “Thriller” teve, o videoclipe de “Bad” tornou-se um fenômeno cultural e um dos mais importantes da história do videoclipe, ganhando um sem-número de prêmios e literalmente refazendo a imagem de Jackson como um bad boy. No curta de 18 minutos, acompanhamos Darryl (Jackson) um jovem que estuda em escola de elite e que volta para casa no final do ano. As sequências pré-música foram capturadas em preto-e-branco com um belíssimo filtro azulado que empresta um ar de melancolia à obra, especialmente na medida em que vemos Darryl no processo de retorno, saindo de um ambiente rico para a miséria do lugar em que vive, onde tem que enfrentar seus amigos, liderados por Mini Max (Wesley Snipes em seu primeiro papel relevante no audiovisual) que não tiveram a mesma chance que ele e que percebem que ele, agora, não é mais “bad”, sendo desafiado a mostrar que ele não mudou. Ao tentar, Darryl percebe que realmente sofreu uma transformação e, em um corte brusco, Scorsese estabelece a transição para cores e a mudança completa de figurino de Jackson, que aparece usando a hoje icônica roupa de couro preta com detalhes prateados e iniciando o show.

Scorsese nunca havia filmado videoclipes antes (Landis também não, vale lembrar), mas em todo o preâmbulo, da escola até a estação do metrô no Brooklyn, o que vemos é Scorsese em seu meio: cenários urbanos degradados e uma pegada melancólica, ainda que Jackson como ator seja muito fraco. Quando a canção e a dança começam, o efeito é justamente o oposto e a conexão de tudo o que vemos com o “estilo Scorsese”, por mais que ele já tivesse se embrenhado em um musical antes (New York, New York) e no documentário O Último Concerto de Rock, desaparece quase que por completo, mas sem que o diretor perca controle sobre sua arte que, claro, fica em segundo plano se comparado com Jackson à vontade fazendo o que sabe fazer de melhor, com uma coreografia impecável e uma música empolgante.

Usando movimentos de câmera simples, cortes secos e mantendo o foco em Jackson e nos dançarinos, Scorsese entrega um clipe poderoso, muito bem filmado, mas que, curiosamente, é mais difícil de entender aonde o orçamento vultoso foi empregado em comparação ao clipe de “Thriller”. A resposta para essa questão muito provavelmente repousa no perfeccionismo de Michael Jackson, principal razão para a demora de seis semanas nas filmagens, algo completamente incompatível com o tipo de obra sendo criada. Seja como for, “Bad” não tem nada de bad  e sim de very good.

Michael Jackson: Bad (Idem, EUA, 1987)
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Richard Price
Elenco: Michael Jackson, Adam Nathan, Pedro Sanchez, Wesley Snipes, Gregory Holtz Sr., Jaime Perry, Paul Calderon, Alberto Alejandrino, Horace Bailey, Marvin Foster, Roberta Flack, Dennis Price
Duração: 18 min.

Robbie Robertson: Somewhere Down the Crazy River (1987)

Depois que Robbie Robertson, compositor e guitarrista do The Band saiu do grupo em 1977, tendo produzido a captura em vídeo da última performance do grupo em sua formação original com Martin Scorsese em O Último Concerto de Rock, ele migrou de vez para Hollywood, onde começou a estabelecer-se como produtor musical de filmes, muito com a ajuda do próprio Scorsese, continuando até hoje com grande sucesso (ele produziu a trilha sonora e compôs a bela música tema de O Irlandês). No entanto, apesar de ele nunca ter voltado ao The Band, Robertson não abandonou a carreira musical pura, voltando em carreira solo pela Geffen Records em 1987, com um álbum que leva seu nome.

Coincidência ou não, uma das músicas do álbum, Somewhere Down the Crazy River recebeu o tratamento de videoclipe e Martin Scorsese, no mesmo ano que debutava na área com Bad, de Michael Jackson, foi contratado como diretor, em uma parceria que, em razão do histórico dos dois, fazia todo o sentido. Mas o clipe é o exato oposto do de Jackson. Baixíssimo orçamento, nenhuma dança e uma música muito mais falada do que cantada. Em termos de produção, o vídeo é simples, com o uso de cores fortes, especialmente azul e vermelho que Scorsese adora, em contra-luz, criando muito efeito prático de silhueta que empresta uma camada “sexy” à obra, algo que combina com a voz mais grave que o normal usada por Robertson.

Com câmera parada, o resultado é burocrático e lento como a canção, sem nenhum tipo de arroubo criativo em transições ou em fotografia. Scorsese dirigiu certamente no automático, preso à premissa da composição de Robertson e ao orçamento claramente apertado, resultando em uma obra que não tem sequer um resquício da personalidade do diretor, mas que acaba cumprindo sua função básica.

Robbie Robertson: Somewhere Down the Crazy River (Idem, EUA, 1987)
Direção: Martin Scorsese
Elenco: Robbie Robertson, Maria McKee, Sam Llanas (Sammy BoDean)
Duração: 5 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.