Crítica | Videodrome: A Síndrome do Vídeo

Há leituras que são inevitáveis ao adentrarmos na filmografia de David Cronenberg, terreno pantanoso e ao mesmo tempo fértil para discussões extensas que resgatam algumas reflexões acadêmicas, jornalísticas e até mesmo do senso comum ao conferirmos pela primeira vez ou revisarmos um dos exóticos exemplares do diretor em seus primeiros anos de carreira. Marshall McLuhan e as suas considerações sobre os meios de comunicação e a tecnologia como extensões do homem, bem como os tópicos acerca do meio ser a mensagem, são importantes para compreendermos Videodrome – A Síndrome do Vídeo como um filme que vai além do mero entretenimento. Para o comunicólogo, as tecnologias de seu campo de atuação funcionam como uma espécie de projeção do sistema nervoso central dos indivíduos, algo que está como ponto nevrálgico na seara dos conflitos dramáticos do filme. Além dessa extensão, o meio é mensagem, mas também é conteúdo. E, diante disso, de qual conteúdo estamos falando? Saberemos ao adentrar na narrativa. O suporte, no entanto, é a televisão, polêmico meio de comunicação que ainda é tópico de muitos debates na seara das humanidades no contemporâneo.

Antes de continuar, no entanto, devo dizer o que termo exótico, cunhado anteriormente, ganha aqui uma significação sem grandes complexidades. Basicamente, muita coisa foi experimentada no cinema dos anos 1970 e 1980, novas escolas e estilos proliferaram, mas o diretor foi um dos poucos a discutir identidade, ciência e tecnologia de maneira tão peculiar, leia-se, exótica, algo que salta aos olhos diante do que estávamos acostumados a ver no que tange ao processo de hibridez entre o corpo humano e as novas modalidades tecnológicas no bojo de nossa sociedade em assustadoras e profundas transformações. Sucessor de Scanners – Sua Mente Pode Destruir e predecessor de A Mosca, o também ousado Videodrome – A Síndrome do Vídeo, lançado em 1983, trouxe Cronenberg na direção e roteiro da história de Max (James Wood), um produtor de um canal televisivo que normalmente exibe filmes de cunho pornográfico ou com referências ao atos de violência mais comuns aos seres humanos reprimidos dentro de suas existências em nossa civilização.

Certo dia, ele capta o sinal supostamente proibido de uma emissora que descobrirá, produzi clandestinamente material erótico repleto de cenas pesadas de violência e agressividade. Será encenação? Realidade? O que está por detrás desse material curioso. O que saberemos é que na trama, a imagem conduz o personagem a uma experiencia única em sua vida, nunca consciente do que é real ou imaginado. Tudo isso é construído com Max a circular pelos ambientes tomados por uma imersiva atmosfera tecnológica, cuidadosamente edificados pelo trabalho de Carol Spier no design de produção. Contemplado pela direção de fotografia também eficiente de Mark Irwin, o personagem vai além da quieta curiosidade e decide investigar mais profundamente o conteúdo erótico que tem interesse em transformar em produto para exibição. É a prévia do momento em que seu corpo se torna uma conjunção entre humanidade e tecnologia.

Ele recebe as fitas com o conteúdo violento, envolto em cenas de tortura, material intitulado Videodrome. Uma das versões traz, inclusive, uma morte. E a fita pulsa. É como se estivesse assustadoramente viva. Se é verdade ou encenação o que há em seu conteúdo, caberá ao personagem investigar. Mais adiante, saberemos que o tal sinal de transmissão não é oriundo da Malásia, mas vem de bem próximo, de uma locação situada em Pittsburgh. O que acontecerá logo mais é um festival do insólito, mesclado por tons macabros, numa mixagem de realidade e alucinações. A mão de Max se transforma numa arma. Noutro momento, uma fita adentra nas entranhas do personagem, afinal, o que parece é que ele se transformou na própria extensão da tecnologia, parte de seu corpo. A estranheza ainda não acabou: a televisão se comporta de maneira surrealista e o personagem adentra pela tela, numa das cenas mais emblemáticas do cinema moderno, algo que mais adiante ganha novas proporções ao passo que o corpo de Max passa por outras curiosas e alucinantes transformações.

Em seu caminho ele tem Bridey (Julie Klaner), sua dedicada secretária, alguém que não lhe transmite desconfiança. Há ainda Nick (Debbie Harry), entrevistada que divide o palco com Max durante um programa de televisão que discute as celeumas da violência na mídia e os seus impactos numa sociedade que parece clamar por este tipo de material, parte dos delírios freudianos de pessoas que precisam expurgar os seus desejos no consumo destes conteúdos considerados degenerados e tratados como proibidos. As discussões vão desde aos tumores causados pelo Videodrome, uma metáfora para o controle mental das pessoas, população cada vez mais anestesiada pela alienação nossa de cada dia na programação televisiva que se expõe dentro da lógica do complexo filme de Cronenberg, um de seus exercícios filosoficamente importantes, mas menos empolgante enquanto narrativa de entretenimento.

Para permitir que o espectador adentre nesta redoma de horror tecnológico, David Cronenberg contou, mais uma vez, com uma eficiente equipe técnica. Na maquiagem, Rick Baker criou as partes do corpo do personagem de James Woods, manipuladas constantemente em sua zona de alucinação. Howard Shore cumpre o seu trabalho numa textura mais amadurecida e intensa, adequada para o desenvolvimento da narrativa, trabalho musical que ganha maior dimensão com o design de som de Peter Burgess e o com irritante dos zumbidos oriundos dos aparelhos televisivos, um chiado irritante na vida real, mas compreensível e envolvente quando estamos mergulhados, juntamente com o protagonista, nas propostas filosóficas sobre o meio e a mensagem em Videodrome – A Síndrome do Vídeo. De volta ao design de produção assinado por Spier, a cenografia cumpre bem o seu trabalho em deixar o apartamento de Max com uma aparência caótica, tendo em vista exaltar o perfil social e psicológico do personagem.

Ademais, ao longo de seus 87 minutos, o filme apresenta David Cronenberg num instigante ensaio sobre a interatividade da televisão com o público, meio de comunicação que no filme, transmite a ideia de controle social, invólucro da ideologia do consumo e da alienação que se metamorfoseiam no interior dos indivíduos e os transformam em aberrações manipuladas pelo meio e por suas mensagens, verdadeiros zumbis da vida cotidiana. Se o meio é mesmo a mensagem, tal como ficou taxado na teoria de McLuhan até hoje discutida, precisamos entender não apenas o seu conteúdo informativo, mas como essas informações são inseridas no cotidiano das pessoas. Para o senhor Oblivion (Jack Creley), a televisão se tornou a retina da mente humana. Desta maneira, o Videodrome possui como plano subversivo, a conquista da brecha de humanidade que ainda resta nas pessoas, pois essa subversão para o mal pretende estabelecer um cenário onde todas as pessoas evoluam e tenha almas eletrônicas. Antecipação da nossa relação com as mídias eletrônicas atuais. Seria interessante conferir uma análise do cineasta para a era dos smartphones e redes sociais.

Videodrome – A Síndrome do Vídeo (Videodrome) — Canadá, 1983
Direção: David Cronenberg
Roteiro: David Cronenberg
Elenco: James Woods, Deborah Harry, Sonja Smits, Peter Dvorsky, Leslie Carlson, Jack Creley, Lynne Gorman, Julie Khaner, Reiner Schwartz, David Bolt, Lally Cadeau, Henry Gomez, Harvey Chao
Duração: 100 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.