Crítica | Vidro (2018)

“Primeiro nome: Senhor.

Sobrenome: Vidro.”

Contém plot twists?

Quantas pessoas por ano vão a alguma Comic-Con e encarnam os seus personagens favoritos, assumindo não apenas os seus trajes mas também os seus trejeitos? Os super-heróis já deixaram de ser personagens de quadrinhos há muito tempo. Vidro nos questiona a existência desses super-seres, um pouco improváveis demais para um mundo em que apenas super-vilões parecem ser possíveis. Mas essa é a conclusão da inesperada trilogia de M. Night Shyamalan, iniciada por Corpo Fechado, uma das obras-primas do cineasta, e continuada com Fragmentado – um dos grandes plot twists da carreira do artista é justamente apontar que ambas as obras se passariam em um mesmo universo. Quando supostamente permite super-poderosos serem verdadeiros, porém, dentro de um espaço mais desesperançado como o nosso – em que, misteriosamente, três pessoas e apenas três pessoas em todo o mundo parecem acreditar que são criaturas extraordinárias -, Shyamalan coloca o seu questionamento sobre crenças para encontrar um dos seus auges, revisando se esses enigmas são milagres, erros genéticos ou pseudo-grandiosidades.

Uma contra-argumentação a tudo que havia criado anteriormente – o sobrevivente de um mortal acidente de trem, um monstro que surge do corpo compartilhado por uma horda de lacaios, e o mentor do mal por excelência – promove um M. Night Shyamalan que, primeiramente, é iconoclasta em relação ao que construiu. Os super-heróis e o sub-gênero cinematográfico que os carregou, nos últimos anos, apontando-os para um gosto popular que retirou os personagens do nicho e os trouxeram à tona como nunca antes, são questionados pelo artista. O objetivo com isso é posteriormente impulsionar, com a reconstrução do que fora destruído, qualquer retomada de crença, basicamente uma temática inexorável a filmografia do diretor. Muito inteligente como Shyamalan, em consequência a isso, permite a obra encontrar um poder emocional nesse vai-e-vem de ilusões e desilusões, ganhando um espaço próprio para consolidar os coadjuvantes, um para cada personagem, como essenciais para as possibilidades dramáticas do seu longa-metragem, acertando no seu último ato ao romper e/ou aceitar, corretamente, o sentimentalismo.

A criação do mundo em questão, entrecortando o cotidiano de David Dunn (Bruce Willis) com a monotonia do dia-a-dia de Elijah Price (Samuel L. Jackson) e os assassinatos rotineiros cometidos pela Fera (James McAvoy), esses expostos em jornais mostrados ao espectador, é essencialmente enfocada nesses três personagens principais, sem espaço para uma expansão de universo, ao menos em primeira instância – mais para frente, os coadjuvantes respectivos a cada um deles ganharão uma força impressionante para serem igualmente cruciais para o todo. Uma introdução que antagoniza o super-herói e o super-vilão, aqueles que poderão se enfrentar de igual para igual, é movida, no entanto, por uma montagem errática, mas é paralelamente importante para o estabelecimento de como os personagens agora se comportam. Quando vai um pouco mais além, M. Night Shyamalan, em contrapartida, permanece no campo do genérico, mesmo que uma derradeira criação seja mero pretexto para a conclusão da narrativa. O cineasta não quer transformar um símbolo muito reiterado em algo ainda maior que o que o seu arquétipo presume.

M. Night Shyamalan não é um artista de cinema que torna óbvia as suas sugestões, premeditando os plot twists – em O Sexto Sentido, por exemplo, as insinuações da verdadeira natureza do seu protagonista eram secas, rejeitando a criação de uma tensão ou mistério crescente mais ordinário, ou seja, sugerindo sem sugerir. Já o encerramento da trilogia de super-heróis do cineasta é equivocadamente verborrágico pela maior parte do seu tempo, repetidamente insistindo em uma exposição que resgata os passados dos personagens, mas que partem de um conhecimento que já possuímos na verdade, esquecendo, com isso, de um minimalismo mais comum ao cineasta. M. Night Shyamalan também ignora que essa é a sequência de ambas as obras anteriores – a espontaneidade para a reconstrução de universo, em Guerra Infinita, seria algo interessante se fosse incorporada aqui, justamente como uma continuação de quadrinhos. Querer associar essa característica como inerente a uma associação entre a obra e os quadrinhos, mais expositivos durante suas eras mais antigas, é passar pano para o que Shyamalan termina enfim sacrificando.

O que acontece durante as conversas com Ellie Staple (Sarah Paulson), a psiquiatra que investe seu tempo no “tratamento” do trio, ansiando convencê-los do quão normais são, consideravelmente desmancha o envolvimento dramático do espectador nesse cerne de revisão, porque não é que o cineasta esteja construindo alguma coisa pacientemente, como costuma costruir. O público se estafa porque nada acontece de um quadro para o outro, apesar dos objetivos compreendidos. M. Night Shyamalan, portanto, aparenta estar situado em uma comodidade mais preguiçosa, recorrendo a uma redundância cansativa no prolongamento do núcleo psiquiátrico do seu longa-metragem – movimentado por monólogos e mais monólogos de Sarah Paulson -, apesar de realmente possuir uma intenção maior, a pegadinha do momento, consolidada quase que perfeitamente no seu grande ato final, um esperado showdown de quadrinhos subvertido. O espetáculo comum a obras de super-herói é, consequentemente, negado, contudo, nunca o sub-gênero de super-heróis, porque Vidro ainda é um filme de gênero e assume isso sem vergonha.

M. Night Shyamalan é um cineasta que compreende os gêneros e sub-gêneros que explora, usando-os como parte da narrativa, não um meio supérfluo para conseguir alguma mensagem cheia de pompa sobre os cadáveres dos quadrinistas que criaram, no princípio, essa identidade. James McAvoy ainda precisa retirar sua camisa o tempo todo ou repetir o nome dos seus personagens. Já Bruce Willis continua introspectivo, enquanto o seu filho, interpretado por Spencer Treat Clark, é o sidekick. Uma dificuldade do diretor, por fim, em gravar cenas de ação, muito pouco inspiradas, é evidente, porém, ao mesmo tempo, mostra-se o quanto o artista está interessado em uma experiência muito crua. Um plano, dentro de um van, captura um embate como se fosse uma espécie de documentário. O cineasta está interessado em criar uma exposição, não um retrato desses super-seres. Eis uma história de origem, permitindo um universo preenchido por possíveis, orquestrado magistralmente por Shyamalan – personificado no gigantesco personagem interpretado por Jackson -, ser margeado por uma crença nos impossíveis.

Vidro (Glass) – EUA, 2019
Direção: M. Night Shyamalan
Roteiro: M. Night Shyamalan
Elenco: James McAvoy, Bruce Willis, Samuel L. Jackson, Anya Taylor-Joy, Sarah Paulson, Spencer Treat Clark, Charlayne Woodard, Luke Kirby, Marisa Brown
Duração: 129 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.