Crítica | Vikings – 5ª Temporada: Parte 2

Irmão lutará contra irmão.

OBS: Não sou o mesmo responsável pelas críticas antecessoras da série aqui no Plano Crítico, portanto os comentários da metade da temporada em si irão ser contextualizados a minha relação com a série como um todo. Por isso, haverá SPOILERS de todas as temporadas.

Foi a partir da morte de Ragnar Lothbrok que se começou a questionar sobre a habilidade do showrunner Michael Hirst, responsável pela criação e durabilidade do fenômeno nórdico. Contudo, grande parcela das críticas mencionadas pelo público já eram observadas (ao menos por mim) desde o início, e nunca foi um real problema, mas uma limitação na qual a série teria uma clara linha de partida e chegada devido à estrutura adotada. Digo mais, o único momento em que Vikings saiu da zona de conforto foi em todo o período dessa jornada final do seu protagonista, ainda que não fugindo exatamente da tal mencionada estrutura. 

Mas, afinal, qual seria ela? Passeando por uma retrospectiva geral, podemos resumi-la no aspecto documental técnico em detrimento da narrativa mainstream. Focando exacerbadamente no seguimento histórico coeso, os ciclos de temporadas baseavam-se em preparações longínquas para um certo objetivo exploratório (que iria dar em guerra), para fechar-se de modo inconclusivo (os líderes não morriam ou o objetivo não era atingido, logo a próxima temporada iria ter vingança ou continuidade a esse tal objetivo). Exemplificando: Ragnar na 3ª Temporada buscou dominar Paris, ao final ele não conseguiu, e a primeira metade da 4ª Temporada seria ele de novo tentando conquistá-la e não conseguindo novamente, em nenhuma das duas diretamente indo para o embate físico mortal contra seu irmão Rollo, o que já tinha histórico. 

Esse mesmo exemplo vale para toda essa temporada, a primeira metade se concentrava em separar os objetivos dos irmãos, para logo após cruzá-los em uma batalha de que nenhum sairia morto, e ter a chance da vingança para a próxima metade, que faz justamente o mesmo processo, de forma diferente somente no ponto de vista histórico, entrando aí um ponto positivo dessa escolha fidedigna que aproveita bem o tempo para desenvolver os personagens. Agora, para que exatamente adianta desenvolvê-los sem uma finalidade? Pôr os questionamentos filosóficos e angústias religiosas em xeque para os personagens não terem fins dignos? Quando esses acontecem, geralmente vêm tardiamente, quando o personagem já perdeu uma oportunidade antes de ter ido com o arco bem amarrado e é segurado, sem sofrer nenhuma transformação posterior cronologicamente correta segundo os contos nos quais foram baseados. 

Nesse ponto, Hirst só foi capaz de dosar bem esse storytelling mais livre do material-fonte com Ragnar, e por isso, ele faz tanta falta, já que seu protagonismo era tão centrado que desviava as atenções dos problemas secundários. No início, ao se livrar dele, pensava em ser a escolha mais correta a fim de livrar esse problema, visto que todos os seus filhos tinham personalidades interessantes e propósitos diversos de legado para seguir com a história para várias direções, e aí sim seguir para algo fora do looping de preparação/objetivo, mas infelizmente com a entrada deles, o problema ficou mais escancarado, principalmente para o público casual. Junte à extensão sofrida a partir da 4ª Temporada, com o acréscimo de 10 episódios, e a série passou a ser assombrada pela síndrome de The Walking Dead, onde estruturalmente cada número de episódios já desenha a linha perfeita de acontecimentos. 

O que não é exatamente ruim, dentro da proposta e limitações do roteiro é entregue aquilo que se espera, tecnicamente um universo viking excepcionalmente rico, mas emocionalmente beirando o genérico. Só não é de fato porque existe o desenvolvimento, e principalmente, a distribuição de forma igualitária para uma gama maior de personagens, levando em consideração a falta de uma figura central que chame mais a atenção. Claro, Ivar faz um pouco desse papel pela performance mais emotiva do ator e pelas características imprevisíveis de seu personagem, que o tornam um belo vilão, mas todos os irmãos são tão interessantes quanto. Quem fica sem ter o que fazer nessa teia de intrigas sobre legado são os já recorrentes, um pouco desviados da linha principal da narrativa, apesar de queridos, Floki e Lagertha ficam sem ter muito o que fazer na trama.

Acho que o grande problema da 5ª Temporada foram os 20 episódios, que a transformaram em duas temporadas iguais dentro de uma só. Se voltasse com a estrutura tradicional de apenas 10 episódios para organizar a casa, e mais 10 para fechar todo o arco da série, o fator cíclico poderia não ser tão incômodo como foi. Mesmo diante desses problemas, cada parte, e essa principalmente, ainda tem seus momentos e entrega bem o momento decisivo, como foi a execução primorosa da épica batalha de retomada a Kattegat. Virtude suficiente para gerar boas expectativas para o gran finale, esperar que nele o showrunner esteja ciente de que não terá mais para onde estender.

Vikings – 5ª Temporada – Parte 2 (Canadá/ Irlanda, 2018 – 2019)
Direção: Ciarán Donnelly, Steve Saint Leger, Helen Shaver, David Wellington.
Roteiro: Michael Hirst
Elenco: Katheryn Winnick, Gustaf Skarsgård, Alexander Ludwig, Jonathan Rhys Meyers, Moe Dunford, Georgia Hirst, Jennie Jacques, Alex Høgh Andersen, Jordan Patrick Smith, Marco Ilso, Ida Nielsen, Peter Franzén, Jasper Pääkkönen, Josefin Asplund, Ferdia Walsh-Peelo
Duração: 43min. por episódio

IANN JELIEL . . . Um aspirante a jornalista que acabou descobrindo no cinema um refúgio para sair da engrenagem robótica da sociedade, como em "Matrix", onde tudo segue uma rotina protocolar implantada na mente. Olho a sétima arte como um quebrador desses paradigmas, capaz de nos fazer refletir sobre qualquer espectro existencialista da humanidade, e ao mesmo tempo nos encantar e entreter com suas milhares de histórias transcendentais em corpo e alma. Por isso, escrevo sobre ela, pois foi nos textos críticos que aprendi a olhá-la dessa forma libertadora, e espero libertar muitos da mesma forma.