Crítica | Vikings – 6ª Temporada: Parte 1

  • SPOILERS!

Você é um grande homem, mas até grandes homens cometem erros.

Pela proposta quase documental, o fim de Vikings não teria muito como fugir do destino previamente estabelecido historicamente de ascensão, conquistas e quedas das figuras nórdicas escolhidas a serem narradas. Há de se questionar somente a periodicidade do termo do meio, uma vez que o pós-morte de Ragnar Lothbrok abria um potencial imenso de expansão de universo, visto o maior leque de personagens interessantes para evoluir a suas próprias maneiras. Infelizmente, esse potencial foi parcialmente desperdiçado pela escolha fundamentalmente realista que a série adotou em sua estrutura, levando todos a se encontrarem nos mesmos fins, a batalha pelo legado do pai e um ciclo vicioso de vinganças que fizeram da 5ª Temporada um gigantesco acerto de contas inconclusivo, já prejudicando essa seguinte no que diz respeito a objetivos, porque teria que repetir e concluir um arco que já tinha sido bem trabalhado anteriormente. Não matar Ivar na batalha de Kattegat só significava uma coisa: na próxima temporada ele voltaria mais forte e querendo vingança, e de novo, teríamos mais uma luta entre os irmãos.

Pensando nesse como o arco da primeira metade, até pela proximidade do fim, o showrunner Michael Hirst precisava somente queimar essa limitação ou falta de coragem de afunilamento, afinal, não restaria mais tempo de expandir tanto o universo para além de elementos que levariam ao fim de alguns personagens. Ainda que essa covardia esteja presente novamente em alguns desfechos, ele se sai melhor do que a última temporada. Pensando na construção em si, a série nunca teve problema com isso, embora tenha ficado tão manjado que quase sempre dá para prever o tamanho dos acontecimentos somente pelo número de episódios. De qualquer forma o texto de Hirst é organizado, sabendo dosar e distribuir os núcleos de forma íntegra e crescente conforme o objetivo do arco principal em questão, numa sucessão de desdobramentos surgidos pela decisão de alguns personagens e quais consequências elas acarretam para aqueles ao seu redor, nesse caso, essas consequências só precisavam, finalmente, se desdobrar em suas quedas.

Felizmente isso aconteceu nessa temporada, tardiamente, mas aconteceu, nos dois focos principais de jornada traçados em grandes decisões, no caso, Bjorn e Lagertha, que deram seu adeus (ao menos um deles, com certeza) com dignidade e devidamente entrelaçados. A primeira grande atitude de Bjorn foi poupar a vida dos aliados de Ivar em Kattegat, em paralelo à lendária escudeira que depois de tantas batalhas cansou daquela vida, e com a chance de paz, escolheria uma vida reclusa das políticas da cidade e moraria sozinha em sua fazenda. Acontece que pouco tempo depois novas escolhas surgiram para ambos, quando a honra os faria ouvir o clamor das pessoas que os pediriam socorro. No caso de Bjorn, uma dívida com Rei Harald, preso após os eventos da batalha contra Ivar, e de Lagertha, uma série de mulheres nos arredores de suas fazendas que estavam sendo atacadas por vários ladrões, mais à frente revelados como aqueles aliados de Ivar que Bjorn expulsou.

Lamento somente, que tudo precisou ser amarrado com um terceiro elemento não tão interessante para concretizar o fim de ambos, no caso, Hvitserk atormentado psicologicamente por Ivar de forma um tanto incoerente, principalmente levando em consideração que o “destino” os aliaria, ficou a sensação de uma senhora conveniência de roteiro. Teria sido mais prático e emblemático (embora óbvio) se a morte de Lagertha viesse da batalha contra os ladrões, que por sinal é um dos grandes momentos da metade da temporada, quando a personagem ganha a dimensão poderosa que a série a colocou, levando as camponesas inexperientes em poucos dias a serem capazes de se defender contra os invasores, subtrama que pela primeira vez escancara o girl power já intrinsecamente estabelecido naquele universo. O desfecho dela então é segurado para que em um de seus devaneios Hvitserk, sem querer, confunda-a com Ivar, matando-a sangue frio, futuramente visando uma separação com Bjorn e o sentimento de falha de responsabilidade em Ubbe, desviado estrategicamente antes dos momentos decisivos por um outro arco secundário na Islândia a fim de ser desenvolvido na segunda metade.

Ainda assim, principalmente por vir num episódio de meio, a morte e principalmente o enterro da personagem foram satisfatórios e consequentemente abriram fragilidades em Bjorn, perdendo não só a mãe como um dos filhos e a votação a rei geral da Escandinávia para Harald, a quem ele arriscou tudo para ir salvar, sendo que se ele escolhesse ficar, possivelmente nenhuma de suas perdas teria acontecido, e Harald nem estaria vivo para a proposta de Olaf de unir o povo. No pressuposto de storytelling foi interessante essa reviravolta de favoritismo, no sentindo de propor o fim da experiência Viking constatando o desejo de conquista de novos mundos, sentimento esse que parecia ser designado a Bjorn quando ele no planejamento iria abrir Kattegat para o comércio geral e acabou indo para o surgimento espontâneo democrático em meio à época de monarquia. Obviamente, enquanto Bjorn cavava sua cova, Ivar vivia sua jornada própria em território russo, descobrindo Oleg, o Profeta, e se intrometendo em suas intrigas para forjar uma aliança poderosa em destino a tal vingança.

Por mais que essas suas desventuras tenham sido mais do mesmo, elas não ocupam tanto em densidade temporal nos episódios, roteiristicamente práticas no intuito de didatizar o tamanho da ameaça final e de sua vantagem com relação a Bjorn perdendo tudo ao seu redor. Como dito, só faltava a coragem de fornecer o desfecho, e ele, mesmo que de maneira incerta (provavelmente Bjorn morreu, mas ainda fica o benefício da dúvida) e não tão bem orquestrada em visual (a grande batalha em si fica bastante a dever das demais batalhas da série), veio e fatalmente deixou resoluções finais bem incertas. Imagino que fique em Ubbe, sua conquista a terras desconhecidas no plano montado na Islândia (que deve fornecer um desfecho para Floki também, que não apareceu na temporada) seja a última cartada de batalha tirar Ivar do poder, com uma possível redenção de Hvitserk no meio de tudo. Enfim, se aquele foi o final de Bjorn, mesmo não tendo sido grande coisa em termos visuais, narrativamente segundo a construção dos 10 episódios, foi satisfatório, e a segunda metade, olhando como desfecho, potencialmente falando parece que seguirá o mesmo caminho.

Vikings – 6ª Temporada – Parte 1 (Canadá/ Irlanda, 2019 – 2020)
Direção: David Frazee, Steve Saint Leger, Katheryn Winnick, Daniel Grou
Roteiro: Michael Hirst
Elenco: Katheryn Winnick, Alexander Ludwig, Alex Høgh Andersen, Marco Ilsø, Jordan Patrick, Danila Kozlovsky, John Kavanagh, Peter Franzén, Eric Johnson, Georgia Hirst, Ragga Ragnars, Ray Stevenson.
Duração: 43min por episódio

IANN JELIEL . . . Um aspirante a jornalista que acabou descobrindo no cinema um refúgio para sair da engrenagem robótica da sociedade, como em "Matrix", onde tudo segue uma rotina protocolar implantada na mente. Olho a sétima arte como um quebrador desses paradigmas, capaz de nos fazer refletir sobre qualquer espectro existencialista da humanidade, e ao mesmo tempo nos encantar e entreter com suas milhares de histórias transcendentais em corpo e alma. Por isso, escrevo sobre ela, pois foi nos textos críticos que aprendi a olhá-la dessa forma libertadora, e espero libertar muitos da mesma forma.