Home TVTemporadas Crítica | Vikings – 6ª Temporada: Parte 2

Crítica | Vikings – 6ª Temporada: Parte 2

por Iann Jeliel
13316 views (a partir de agosto de 2020)
Nota da parte da temporada e da temporada completa.

  • SPOILERS! Leia aqui a crítica da primeira metade da temporada.

Metade final da última temporada, já tinha passado da hora de encerar certos ciclos, principalmente esse de guerrilhas entre os irmãos de Ragnar que já havia se desgastado há muito tempo na série. A mid season finale ainda tinha deixado em aberto a morte de Bjorn, o que me preocupou bastante quando o início do primeiro episódio desta nova parte, intitulado King of Kings, não deu continuidade aos eventos da que parecia ser a última batalha. Em minha cabeça, isso era sinônimo de que teríamos mais 10 episódios para reorganizar o tabuleiro e montar uma nova, e de fato, última batalha entre os irmãos, e a série se encerraria dessa forma, o que honestamente seria um balde imenso de água fria. Felizmente, acabei sendo pego desprevenido por uma resolução imediata desse conflito já no primeiro capítulo, que se demonstrou como um dos episódios mais marcantes da série, dando o desfecho verdadeiramente épico que Bjorn merecia em um dos pouquíssimos momentos em que a série realmente abriu mão da fidedignidade histórica e abraçou o caráter mitológico de suas figuras.

A montagem desse episódio foi um show à parte, porque ela é realmente pensada para enganar, no bom sentido, claro. Seja esse flerte com um novo recomeço que desanima o espectador (para surpreendê-lo depois), seja com a transição desse flerte que parece que vai se concluir com uma morte anticlimática do personagem (confirmando o desânimo anterior), que pensando no histórico da série, seria o mais provável de acontecer. Eis que o último respiro de uma narração até brega sobre sua memória é intercalado pela montagem com sua chegada sozinho a cavalo e gravemente ferido, em frente a todo o exército de Ivar, o episódio já dava como certo para acabar de vez com Kattegat. Só isso já daria sentido ao sentimentalismo da narração, mas a montagem vai além e se revela no momento certo como o funeral do personagem, que ganha a devida significância por estar sincronizado perfeitamente ao seu movimento emblemático com a espada, tão imageticamente poderoso que ganha a guerra ali, encerra aquele ciclo ali, mesmo que na prática, não exatamente, uma vez que Ivar, Hvitserk e o príncipe Oleg sobrevivem.

Uma sobrevivência que gera ao restante da temporada, ao menos nos cinco episódios subsequentes, a tarefa de renunciar a aliança dos três por meio de uma crise interna, cessando de uma vez por todas esse ciclo de batalhas com Kattegat. Não é lá das tramas mais interessantes que Vikings apresentou, mas é no mínimo bem efetiva em termos conclusivos, uma vez que se livra do príncipe por meio de um drama com seu filho, que se relaciona com Ivar e o transforma em alguém menos… “Psicótico”? Logo, também resolve seu conflito com Hvitserk, mesmo que de uma forma que praticamente anula a motivação de sua existência anterior. Toda aquela paranoia de Hvitserk atormentado com Ivar se tornou meio que inútil quando os dois se aliaram para um bem maior, porque eles estavam aliados de qualquer forma, só que agora também foi uma aliança mais sentimental para dar um maior impacto à morte de Ivar no último capítulo em seus braços.

Foi um arco bem manjado, mas que funcionou por ter sido pensado em conjunto à representatividade simbólica que ambos como filhos de Ragnar queriam passar como legado. O ato de Bjorn refletiu na mudança de caminhos meio abrupta (embora conduzida por vários episódios para não parecer tão rápida) da dupla de irmãos, que voltam a Kattegat nesse sentido de buscar também seu ato simbólico para serem lembrados como eles próprios, e não somente como filhos de Ragnar. A solução de levá-los junto a Harold que se torna rei de Kattegat meio que contra a própria vontade, a tentativa de novo de conquistar a Inglaterra, local onde Ragnar morreu, parecia o único caminho possível para o final ser realmente coerente com a fidedignidade histórica que o showrunner Michael Hisrt tanto preza. Aí entram de novo as limitações da série, e o final parece nem ter tesão de criar o mínimo de dúvida ou empolgação para esse último movimento viking; parece entregar de bandeja já tudo que vai acontecer, só se preocupando em fazer isso de forma certinha.

Isso fica muito claro no arco de Ubbe na temporada, que gasta bastante tempo no alto-mar, mas nunca se levanta a dúvida de que seu destino não será morrer ali. Era mais do que óbvio que a primeira investida da série em um drama geográfico – ao menos não lembro de nenhuma vez em que a locomoção de um lugar para outro, mesmo que para um novo, foi um problema aos personagens – resultaria em consequências banais. Então fica uma grande enrolação ali até os últimos capítulos, quando eles descobrem um novo local, uma nova cultura em que coincidentemente Floki também foi parar. Porque, claro, ele não iria ficar sem aparecer mais na série. É chato porque a Islândia acabou não só sendo pouquíssimo explorada como se tornou inútil para a narrativa principal, uma vez que o berço da transformação final da cultura viking foi escolhido em outro ambiente.

Mas é aquilo, o final é muito certinho nessa ideia de encerrar ciclos com o fechamento de perspectivas desbravadoras vikings. Floki e Ubbe não são donos do novo território e nem teria mão de obra para eles encerrarem ali aceitando se misturar à cultura indígena em que a perspectiva é outra, tanto que a série termina esse arco com Ubbe assassinando o último remanescente viking que tenta fazer as coisas à moda antiga. Hvitserk, por nunca ter tido um senso de grandiosidade tal como os irmãos e o pai, converteu-se ao cristianismo e renegou todo seu passado porque no fim das contas não havia glória para se contar dele, embora seu lado renegado também se espelhasse no pai que tinha essa admiração questionadora ao catolicismo com sua amizade com Athelstan, e olha se não é o filho dele que converte Hvitserk no final. Kattegat se encerra com Ingrid governando sem perspectivas de desbravamento para além de sua vontade de deter o poder, mas a ideia de ter uma mulher governando nesse universo, unicamente e sem intervenção masculina, também ajuda o fechamento de progresso para o fim da civilização viking.

No fim das contas, a sexta temporada possui esses méritos de bons encerramentos, algo que a série a meu ver sempre teve dificuldade em fazer, sempre construindo, construindo e construindo muito bem para no final não concluir nada. Aqui se conclui tudo, até porque não tinha mais jeito, em compensação o desenvolvimento que anteriormente empolgava mais se torna protocolar tal como os encerramentos pouco pragmáticos das temporadas anteriores, justamente para promover um encerramento justo. E de fato é, Vikings nunca se reinventou, mas também nunca saiu da boa regularidade que sempre conseguiu fazer. Assim, seu fim é condizente com o percurso, que infelizmente poderia ter sido “mais” mais vezes.

Vikings – 6ª Temporada: Parte 2 | Canadá – Irlanda, 2020
Criação: Michael Hirst
Direção: Daniel Grou, David Frazee, Helen Shaver, Paddy Breathnach, Steve Saint Leger
Roteiro: Michael Hirst
Elenco: Alexander Ludwig, Alex Høgh Andersen, Marco Ilsø, Jordan Patrick Smith, Ragga Ragnars, Eric Johnson, Danila Kozlovsky, Peter Franzén, Ray Stevenson, Adam Copeland, Steven Berkoff, Lucy Martin, Kelly Campbell, Georgia Hirst, John Kavanagh, Scott Graham, Gustaf Skarsgård
Duração: 10 episódios – 43 minutos em média cada episódio (20 episódios totais, da temporada)

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