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Crítica | “Villains” – Queens Of The Stone Age

por Handerson Ornelas
117 views (a partir de agosto de 2020)

“Save me from the villains of circumstance”.

No dia 14 de junho a página do Queens Of Stone Age postou um bem humorado vídeo de anúncio de seu novo álbum, Villains, sequência do aclamado …Like A Clockwork. Nele, Josh Homme, vocalista e a grande mente por trás do grupo, é submetido a um teste de polígrafo e suas mentiras vão confirmando os detalhes a respeito do lançamento. Eis que a última pergunta do teste chama atenção: “Você gosta de dançar?”, pergunta o examinador, seguido de um “Wow, sim, eu gosto”, dito com precisão por Josh que, em divertido tom cômico, dá uma piscadela para a câmera. É justamente essa pergunta que dividirá os fãs da banda no novo trabalho. Afinal, como diria Drax em Guardiões da Galáxia Vol. 2, existem dois tipos de seres no universo, os que dançam e os que não dançam.

Produzido por Mark Ronson – responsável por produzir Amy Winehouse, Adele, Bruno Mars, entre outros – o sétimo álbum da banda sabe gerar sonoridades completamente vintages sem precisar viver na sombra do passado. É óbvio que Ronson incorpora elementos sessentistas aqui, mas o frescor que o produto final oferece é extremamente moderno e autêntico (algo que costuma não acontecer quando o produtor trabalha com nomes como Bruno Mars). A partir do primeiro momento que o riff entorpecente de Feet Don’t Fail Me entra em cena ele gruda na consciência do ouvinte e de lá não sai. É viciante. Temos aqui o que eu definiria como um exemplar perfeito do que precisa ser o rock no cenário musical atual. Uma música que saiba confrontar o propósito do pop sem perder a essência do que é rock n’ roll. Basicamente, que tenha culhões pra usar a bateria soando como beats e as guitarras quase como sintetizadores.

Enquanto The Way You Used To Do – primeiro single – era curto, direto e pop, bastante voltado para o mercado, o segundo, The Evil Has Landed, vem para acalmar os fãs mais exigentes. Temos aqui uma canção entoada com toda a atitude necessária a um bom rock n’ roll, pegando influências de Led Zeppelin em riffs flamejantes de Troy Van Leeuwen que não cansam de surpreender, chegando a vezes flertar com o progressivo durante seus 6:30 minutos. “Come Close” – Homme pede ao ouvinte para se aproximar sem medo e se deixar imergir em uma catártica construção musical. Embora os riffs roubem a cena guiando o ouvinte por um arranjo que não cansa de tomar esquinas inesperadas (compararia tal composição até a Bohemian Rhapsody), quem constrói mesmo os passos de dança é Jon Theodore, que aqui arrebenta na bateria.

Através de apenas 9 faixas o grupo vai montando uma obra extremamente coesa, sem se prender a fórmulas. Cada canção tem voz própria, ainda que siga um selo “Villains” bem característico. Veja Domesticated Animals, por exemplo, que carrega uma peculiaridade enorme comparada a outras canções: a faixa é construída basicamente em cima de um único e simplista riff, mas o que a banda extrai dela é um groove assustador e uma energia incomparável, impedindo que a monotonia sequer arrisque se aproximar. É difícil falar de evolução de músicos com tanto tempo de carreira, mas é notório o desenvolvimento de cada membro aqui. Provavelmente a que mais será percebida será a respeito do vocal de Josh Homme, que segue melhor do que nunca, merecendo destaque para sua interpretação riquíssima de tons e faces em Un-Reborn Again.

Head Like A Haunted House é o que seria uma reformulação perfeita da rockabilly para os tempos atuais. Não há economia nos riffs, que fazem questão de construir uma canção agitada, urgente e assustadoramente dançante e visceral. Tudo isso graças não somente às guitarras, mas ao groove bem pontuado do baixo de Michael Shuman e, principalmente, novamente a bateria frenética e enlouquecida de Jon Theodore. E Mark Ronson tem papel fundamental nisso tudo: a bateria soa diferente do som padrão do instrumento e deixa o som quase como o de um maquinário enfurecido (tudo a preço de um melhor rítmo propício a dança), além de requintes muito bem incorporados ao arranjo, como um discreto teremim e brilhantes backing vocals.

Mas não se deixe enganar, por baixo da abordagem aparentemente “pop” de Villains há questionamentos bastante contemplativos nas excelentes letras de Homme. Veja, por exemplo, as belíssimas baladas Fortress e Hideaway. A primeira discursando sobre amadurecimento de forma brilhante, debatendo sobre a queda das “fortalezas” e “máscaras” construídas ao longo da vida, que terminam derrubadas uma vez alcançada a completa aceitação pessoal. Já a segunda, embora possa aparentar uma canção romântica, facilmente poderia ser interpretada como uma metáfora sobre as faces de predador e presa escondidas dentro do autor, que questiona a qual dar atenção.

O fantástico encerramento do disco, com a intimista Villains Of Circumstance, corrobora mais uma vez o afirmado no parágrafo anterior. Se trata de, basicamente, um poema que discursa a imprevisibilidade da vida, o envelhecimento, as perdas ao longo do tempo e vários outros “vilões da circunstância” através de uma honestidade emocionante na voz de Josh Homme. Destaque para a instigante e arrebatadora transição dos versos para o refrão, de estrutura muito semelhante a The Vampyre Of Time And Memory, presente em …Like A Clockwork. Um lindo ato final para uma obra sólida e bem construída.

Toda banda deve se reinventar a fim de se manter relevante. Esqueça Rated R, Songs For The Deaf ou qualquer resquício stoner dos tempos de Kyuss, o QOSA aqui segue a discografia sem olhar para trás, visando cada vez mais traçar caminhos corajosos e inspirados. Nenhuma outra banda no atual cenário “rockeiro” tem conseguido se desprender do passado e se renovar com tanta perfeição quanto a trupe de Josh Homme, completando um processo iniciado em …Like A Clockwork (talvez um dos poucos álbuns influentes do gênero nessa década). Villains tem como objetivo um ponto um tanto vilanesco para os rockeiros mais “durões” e conservadores: fazer dançar. Josh Homme provou que, em plena era de sintetizadores e DJs, também é possível dançar ao som de guitarras distorcidas.

Aumenta!: The Evil Has Landed
Diminui!:

Villains
Artista: Queens Of Stone Age
País: Estados Unidos
Lançamento: 25 de agosto de 2017
Gravadora: Matador
Estilo: Rock Alternativo

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15 comentários

Vitor Emanuel 26 de novembro de 2018 - 00:49

Não é o melhor da banda,mas tbm não deixa a desejar,perto do que eu esperava que fosse…ele é acima da média. (Destaque para Un-Reborn Again) (Gostei da referência sobre Guardiões da Galáxia kkkkkkkk bora salvar o Mundo dançando? ahfgag to precisando achar uma garota patética igual a mim também.) kkkkkkkkkkkkk

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Robertt Alves 16 de maio de 2018 - 20:28

Sei que a crítica é antiga,mas espero que leia eu gostaria muito que aqui no site,houvessem críticas do primeiro ao último disco do Foo Fighters, só isso que gostaria que houvesse, ótimo trabalho, adoro o site👌

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Cristiano de Andrade 12 de setembro de 2017 - 09:17

Esse cd é maravilhoso do inicio ao fim!

Não consigo parar de ouvir The Evil Has Landed!

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márcio xavier 28 de agosto de 2017 - 14:21

Álbum que eu mais esperava no ano até agora.
Não..teve do linkin park que foi uma decepção exatamente por ser muito “dancante” mas sem peso algum.

como já disseram aí, estou ouvindo em loop infinito (ele e o novo do far from alaska)..

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Handerson Ornelas. 30 de agosto de 2017 - 18:48

O do Linkin Park foi a coisa mais horrenda que escutei esse ano, impressionante o quanto o álbum é ruim. O do QOSA também foi um dos álbuns que mais esperava esse ano. Muitos desses que aguardava achei que deixaram a desejar, o que não foi o caso de Villains.
Abraço!

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Thiago Menezes 28 de agosto de 2017 - 11:36

Muito boa critica. Disseca bem o álbum sem ficar no clichê enfadonho de comparar com discos anteriores. Música nunca foi competição/comparação e é importantíssimo abrir a mente sempre pra escutar novas explorações musicais, coisa que o Queens of the Stone Age sempre fez. Estranho é aquele que não percebeu isso.

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Handerson Ornelas. 30 de agosto de 2017 - 18:50

Exatamente, concordo integralmente. Obrigado, grande abraço!

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Carlos Faria 27 de agosto de 2017 - 15:37

Só eu que achei a base de Domesticated Animals “influenciada” por Aquarela do Brasil?

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Handerson Ornelas. 30 de agosto de 2017 - 18:53

Rapaz, não percebi não Hahahahah mas as vezes foi uma sequência de notas que te deu essa impressão

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Carlos Faria 27 de agosto de 2017 - 14:26

Não ouvi o novo do Foo Fighters, mas as duas lançadas recolocam a banda nesse caminho (incrível, pois parecia que iam se acomodar num lugar confortável de seu som e carreira). Falam que ano que vem as duas vem para o Brasil juntas. Se isso acontecer não perco por nada!

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Handerson Ornelas. 30 de agosto de 2017 - 18:49

Se eles virem ao Brasil mesmo, eu vou de qualquer jeito!

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Rodrigo Ferreira 27 de agosto de 2017 - 02:20

Tô ouvindo em loop infinito esse álbum! ^^

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Handerson Ornelas. 27 de agosto de 2017 - 13:08

É viciante! O disco é extremamente bem construído.

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Anthonio Delbon 26 de agosto de 2017 - 00:18

Drax! Hahahaha Cara, que puta texto! Excelente análise, sem exagero. No fim é isso mesmo, mostrar que tirar esse som com guitarra distorcida não é pra qualquer um. Cada música continua crescendo em mim. Fortress tem um riffzinho hipnotizante que se reinventa o tempo todo. Aliás, como você disse, cada música tem tanta esquina que é um deleite ser conduzido por elas.

E cara, que arte é essa? Tão linda e provocante quanto o álbum! Bela obra e bela crítica!

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Handerson Ornelas. 27 de agosto de 2017 - 13:14

Hahahahaha obrigado, mano! O álbum não para de crescer, definitivamente!

O ilustrador da capa é o mesmo do “…Like A Clockwork”, ele é conhecido como Boneface. Vale a pena ver outras ilustrações dele, o cara é sensacional!

http://www.boneface.co.uk/index.php?/2015/

Abração!

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