Crítica | Vingadores: A Guerra Kree-Skrull

Já vi gente feia antes… Mas, cara, cê ganha de longe!
– Jones, Rick (para a Inteligência Suprema)

Quando releio arcos clássicos das duas grandes editoras mainstream é batata: sou tomado por uma onda de nostalgia de uma era pré-mega-sagas, que começou em 1984, com Guerras Secretas para a Marvel, e em 1985 com Crise nas Infinitas Terras para a DC, e nunca mais parou desde então. Antes dessas fatídicas datas oitentistas, o espiríto marketeiro das editoras ainda era razoavelmente controlado e as histórias que viriam a se tornar sagas eram abordadas como arcos narrativos dentro das publicações normais, às vezes com crossovers discretos, mas não muito mais do que isso.

Talvez o primeiro grande arco com contornos de saga, pela Marvel Comics, tenha sido A Guerra Kree-Skrull, publicada ao longo das edições #89 a 97 do volume 1 de Os Vingadores, entre junho de 1971 e março de 1972. Escrita por Roy Thomas e começando de maneira muito discreta, sem as proporções cósmicas que tomaria nas duas últimas edições (que, aliás, são as únicas que diretamente lidam com a referida guerra), o arco é bem mais importante pelo legado para o futuro das histórias da editora do que pela história em si.

Afinal de contas, muitos elementos que ganhariam desenvolvimento profundo nas décadas seguintes, literalmente até hoje em dia, estão presentes aqui. Para começar, a própria rivalidade entre os Kree e os Skrull é estabelecida no arco, mesmo que as duas raças alienígenas já fossem conhecidas dos leitores graças principalmente às histórias do Quarteto Fantástico (a primeira aparição das raças se deram na edição #2 para os Skrull e #65 para os Kree) e também, claro, à publicação solo do Capitão Marvel original (em relação aos Kree somente). Mas o planeta Terra como ao mesmo tempo ponto de inveja, cobiça e estratégia pelo universo, que literalmente faz com que esse pequeno ponto azul onde vivemos seja o foco de tanto interesse ao longo de centenas (milhares?) de histórias lidando com poderes e impérios intergaláticos vem primordialmente também do arco, já que Ronan, o Acusador, depois de um golpe de estado que derruba a Suprema Inteligência da cadeira máxima de Hala, planeta-natal Kree, passa a lidar com o que a humanidade pode representar ao seu projeto de dominação caso ela continue a desenvolver-se no passo em que vem se desenvolvendo.

A concentração de meta-humanos na Terra sempre foi uma preocupação interessante da editora e esse é um assunto que ganha muito desenvolvimento no arco sob análise, ainda que de maneira comparativamente tímida, se levarmos em consideração o que viria bem mais para a frente em sagas modernas como Infinito. Essa semente narrativa, como se pode ver, já deu e continua dando belos frutos, sem sinal de que parará de germinar.

Mas não é só em escala universal que A Guerra Kree-Skrull trouxe novidades que se tornariam parte da infraestrutura narrativa da Marvel Comics. Aspectos “menores”, lidando com a intimidade dos personagens também surgiriam aqui, como, por exemplo, a primeira debandada oficial dos Vingadores (ares de Os Vingadores: A Queda), depois que o grupo da ativa, Visão, Mercúrio, Feiticeira Escarlate e Golias (Clint Barton, após o abandono de sua persona de Gavião Arqueiro), é literalmente demitido pelos membros-fundadores, Capitão América, Thor e Homem de Ferro, quando eles discordam da decisão dos primeiros em dar guarida para o Capitão Marvel após a instalação da versão alienígena da caça às bruxas de Joseph McCarthy, que ganha sua versão da Nona Arte em H. Warren Craddock, um burocrata que, depois dos eventos de Vingadores #89 e 90, em que Ronan quase faz a humanidade reverter à pré-história, passa a advogar o controle (e potencial expulsão) de qualquer não-terráqueo. A crítica social e política é forte e direta, sem quaisquer firulas, mas, se puxarmos pela memória, podemos inclusive estabelecer a ponte entre essa narrativa de Thomas com o controle governamental direto que os Vingadores passariam a ter no começo dos anos 80 e até mesmo com a saga Guerra Civil, de 2006.

(1) a armada Skrull e (2) o deus ex machina mais nostálgico do mundo.

E, como se isso não bastasse, é nesse arco que vemos o começo do relacionamento amoroso – ainda que com extrema hesitação – entre o Visão e a Feiticeira Escarlate, o literal empoderamento de Rick Jones com a Força do Destino (nome vindo somente depois, em retcon) em que seria usado mais tarde em Vingadores Eternamente, a saída de Hank e Janet Pym do grupo e assim por diante. Se formos realmente procurar, A Guerra Kree-Skrull é como um manual de instruções de como se estabelecer fortemente um universo de super-heróis.

Mas seu crítico de meia-tigela, não vai falar sobre o arco em si não, só vai ficar listando sua importância para o Universo Marvel?

Calma, jovem Padawan. Às vezes, abordar o legado de uma história é mais importante do que abordar a história em si. Afinal, como deixei entrever no início da presente crítica, o arco não é lá nenhuma maravilha. É como Crise nas Infinitas Terras: muito interessante, mas muito cansativa também. E com um agravante: o estilo narrativo dos anos 70 era extremamente verborrágico e, por mais que Roy Thomas tenha tido boas ideias, seus textos são longos, auto-descritivos e, como o proverbial cachorro e seu rabo, corre em círculos. O roteirista, especialmente ao longo de sua colaboração com Neal Adams na arte, foi definidor para a Marvel, mas isso não quer dizer que tudo o que ele escreve é para ser reverenciado sem reservas. A Guerra Kree-Skull é uma baita história, mas bem longe de ser uma obra-prima bem estruturada como viria a ser, por exemplo, a saga Vingadores vs Thanos, de Jim Starlin, já em 1974.

O ponto é que, apesar das nove edições que classicamente formam o arco, sete delas não são muito mais do que preâmbulos que abordam o golpe de Ronan e sua tentativa de fazer a humanidade involuir com medo do que ela pode representar para seus planos, algo abordado nas duas primeiras edições, passando pela criação da versão alienígena do Comitê de Atividades Antiamericanas que já abordei, o que coloca os Vingadores na berlinda sob o olhar do público. São belas ideias e belas histórias quando vistas de maneira separada, mas que, em um arco narrativo em tese coeso, parecem soltas demais. Sim, todo os eventos acabam ganhando uma explicação vinda da Inteligência Suprema, como parte de seu plano-mestre, mas é algo que, mesmo com muita boa-vontade, parece forçado demais, dependente de uma miríade de fatores externos para ter alguma chance de funcionar de verdade. Em outras palavras, Thomas exige uma dose cavalar de suspensão da descrença.

Mas, nesse “desenrolar enrolado”, há momentos brilhantes como, por exemplo, a versão Marvel do clássico sessentista Viagem Fantástico, com Hank Pym como Homem-Formiga (quase que completamente do nada como Homem-Formiga novamente, já que sua identidade, àquela época, era de Jaqueta Amarela) entrando no Visão para salvá-lo da morte e enfrentando seus anti-corpos que curiosamente não são apenas tecnológicos, como também biológicos (edição #93), com direito a ótimas citações a Fritz Lang e Clark Kent em uma frase só (!!!). Além disso, a presença constante do Capitão Marvel é bem trabalhada, mesmo que ele, mesmo separado de Rick Jones, curiosamente fique mais nos bastidores do que na linha de frente.

Aliás, o eterno sidekick Rick Jones é, diria, a grande estrela do arco, pois é literalmente com ele que a história começa e acaba. Particularmente, sempre gostei do personagem e sua fanboyzice dos super-heróis em geral é um elemento de grande importância para o desfecho da guerra. É verdade que temos que aceitar um deus ex machina extremamente conveniente (diria “safado” mesmo), que é o tal poder que ele ganha da Inteligência Suprema, a Força do Destino, que lhe permite fazer literalmente o que quiser, quase como o Beyonder (dá até arrepios pensar nesse personagem, foi mal…), mas o que ele acaba fazendo com ela, trazendo os heróis da Era de Ouro da Marvel é de uma sagacidade incrível de Roy Thomas. Vemos pular para as páginas não só os óbvios Capitão América e Namor, como também os mais do que desconhecidos Tocha Humana original (o androide Jim Hammond), Visão original, Caveira Flamejante, Barbatana e o Anjo original em divertidos momentos de mergulho profundo no baú de tesouros da editora.

No entanto, os momentos inspiradíssimos de Thomas são esparsos e seu arco é poluído demais não só de texto como de eventos salpicados como parte de um grande todo que não funciona de verdade, mesmo que tudo siga uma lógica, ainda que BEM elástica. O que realmente retira o arco do lugar-comum narrativo (pois ele está já no panteão das obra mais importantes da editora) são as artes de Sal Buscema, John Buscema e de Neal Adams. Os trabalhos dos três perante os mais variados heróis durante anos na Marvel Comics também é definidor para a editora e eles não desapontam neste arco. Apesar de não se beneficiarem de grandes splash pages, até porque não era muito o estilo da época, a arte dos três – com destaque para Sal Buscema e Neal Adams, que desenharam o grosso da história – é um colírio para os olhos. Cada sequência de ação parece um balé e as expressões dos personagens, especialmente as explosões de raiva e frustração são pequenas pérolas artísticas. Tenho particular preferência pelo estilo marcante e detalhista de Neal Adams, com quadros que enriquecem cada diálogo, mas o conjunto das edições é próximo do perfeito.

A Guerra Kree-Skrull é um dos alicerces da Marvel Comics, uma verdadeira riqueza de ideias e conceitos que até hoje continuam sendo utilizados e expandidos, tornando o arco mais do que obrigatório para os apreciadores de quadrinhos. As grandes sagas da editora viriam pouco mais de 10 anos depois, alterando todo o cenário editorial, mas nem mesmo elas germinariam se não fossem as sementes tão brilhantemente plantadas aqui.

Vingadores: A Guerra Kree-Skrull (The Avengers: the Kree-Skrull War, EUA – 1971/2)
Contendo: The Avengers (Vol. 1) #89 a 97
Roteiro: Roy Thomas
Arte: Sal Buscema, Neal Adams, John Buscema
Arte-final: Sal Busceman, Sam Grainger, Tom Palmer, Alan Weiss
Letras: Sam Rosen, Mike Stevens, Artie Simek, George Roussos
Editoria: Stan Lee
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: junho de 1971 a março de 1972
Editora no Brasil: Editora Abril, Panini Comics, Editora Salvat
Datas originais de publicação: 
– Editora Abril: Heróis da TV #44 (02/1983) e 47 a 50 (05/1983 a 08/1983)
– Panini Comics: Os Maiores Clássicos dos Vingadores # 1 (08/2006); Coleção Histórica Marvel: Os Vingadores # 3 (09/2014)
– Editora Salvat: A Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel – Clássicos #XX (01/2017)
Páginas: 216 (encadernado Salvat)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.