Crítica | Vingadores das Terras Desoladas

  • spoilers das séries anteriores a essa.

É da natureza da Indústria de Entretenimento sangrar uma ideia até não poder mais. Se todo filme de sucesso gera pelo menos uma continuação e, depois de um tempo, provavelmente um reboot, o mesmo vale para os quadrinhos. Basta um personagem destacar-se para ele ganhar diversas versões e até um mini-universo próprio. Mark Millar e Steve McNiven interromperam a publicação mensal do título solo de Wolverine em 2008 e criaram um futuro distópico para o personagem em que ele era um dos únicos super-heróis sobreviventes de uma chacina perpetrada pelos super-vilões em um país agora desolado e dividido e feudos vilanescos. O arco O Velho Logan foi um sucesso absoluto.

Para o mérito da Marvel Comics, a editora até que demorou bastante para voltar ao conceito do Wolverine mais trágico e envelhecido e só em 2015, com sua nova saga Guerras Secretas, é que o personagem ganhou um ótimo tie-in que teve como função primordial trazê-lo para a Terra-616 para temporariamente substituir sua contraparte original que morrera na minissérie A Morte de Wolverine. Com isso, o Velho Logan ganhou uma publicação mensal que durou 50 edições e cuja história foi encerrada – até agora, pelo menos – na maxissérie O Defunto Logan. Com a porteira devidamente aberta, a editora não pestanejou em retornar com vontade para esse futuro alternativo, trazendo o prelúdio O Velho Gavião Arqueiro em 2018 e a continuação (de certa forma) Old Man Quill em 2019, também como maxisséries.

E, partindo mais especificamente de O Defunto Logan e Old Man Quill, eis que a Marvel Comics investiu no inevitável: uma nova formação dos Vingadores nesse futuro distópico. Batizado de Vingadores das Terras Desoladas, a minissérie em cinco edições escrita por Ed Brisson, autor da segunda metade da mensal O Velho Logan e também de O Defunto Logan, começa sua história dois anos depois dos eventos da maxissérie com o Wolverine mais velho de volta às Terras Desoladas para encerrar seu arco, com Danielle Cage, filha de Jessica Jones e de Luke Cage que ergueu Mjölnir e tornou-se a nova encarnação de Thor, vivendo em paz com o mini-Hulk – o bebê salvo por Logan – em uma comunidade pacífica que logo é perturbada pela chegada de Dwight Barrett, sobrinho de Tucão, que agora é o novo Homem-Formiga, com o Doutor Destino e seus minions ao seu encalço depois de um ataque mortal à fortaleza de Forge que ele tentara reconstruir para também viver em paz.

O que segue daí é a velha história que já esperamos: uma espécie de road movie que leva nossos heróis a diversos obstáculos do passado da Marvel até seu encontro final com Destino na Nova Latvéria. Entre uma coisa e outra, novos heróis se juntam a eles e há as boas e velhas desconfianças e traições para apimentar as relações, mas nada terrivelmente elaborado ou complexo, apenas o suficiente para ocupar de maneira homogênea o espaço da aventura que consegue ser eficiente em solidificar Dani como líder nata de um grupo razoavelmente hesitante em realmente existir de maneira homogênea e cujas diferenças Brisson explora muito bem, especialmente nos momentos finais.

Considerando o relativo amadorismo da equipe, Brisson exagera nas conveniências para fazê-la derrotar os mais diversos vilões clássicos, incluindo uma gigantesca horda de vampiros comandada pelo Barão Sangue. Tudo é, talvez, muito fácil demais, sem que o autor consiga imprimir um tom de urgência e perigo pela narrativa, algo que é amplificado por um certo exagero nas atitudes de um Doutor Destino para lá de ganancioso em seus planos de dominação desses EUA destruídos. No entanto, algo assim é razoavelmente compreensível, pois essa é possível a primeira história passada nesse futuro que tenha um olhar positivo, de reunião e de reconstrução, obviamente com a intenção de continuar a infinita exploração do conceito pela editora. Mas, mesmo que isso não aconteça (o que sabemos ser improvável), há, também, uma impressão boa de finitude para o que se poderia classificar de mega-saga alternativa iniciada em 2008 e aproveitada com um bom grau de consistência ao longo dos anos.

A arte ficou ao encargo do alemão Jonas Scharf em seu primeiro trabalho para a Marvel e que já demonstra excelente domínio da distribuição espacial de personagens em sequências razoavelmente complexas, além de uma ótima visão para recriar as Terras Desoladas e seus respectivos personagens com um toque próprio que, porém, em nenhum momento desconstrói o que já havia sido estabelecido antes. Ele tem algum dificuldade em abrir espaço para os balões de fala de Brisson – que, por sua vez, é verborrágico demais para uma história tão simples -, mas, no geral, seu trabalho é harmônico com esse futuro alternativo e distópico da editora.

Vingadores das Terras Desoladas funciona como o fim de uma ideia plantada há muito tempo em um dos arcos mais memoráveis da história recente da Marvel da mesma forma que funciona como um novo começo. Não tenho muitas dúvidas de que esse futuro distópico continuará a ser explorado de todas as maneiras possíveis, algo que nem consigo ver com maus olhos já que o que foi feito até agora mantém um surpreendente e harmônico grau de qualidade.

Vingadores das Terras Desoladas (Avengers of the Wastelands, EUA – 2020)
Contendo: Avengers of the Wastelands #1 a 5
Roteiro: Ed Brisson
Arte: Jonas Scharf
Cores: Neeraj Menon
Letras: Cory Petit
Editoria: C.B. Cebulski, Mark Basso, Shannon Andrews Ballesteros, Martin Biro
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: janeiro a junho de 2020
Páginas: 114

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.