Crítica | Vingadores: Ultimato (Com Spoilers)

“Essa é a batalha de nossas vidas.”

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“Para onde nós vamos, agora que eles se foram?”, estampa um cartaz pendurado no cenário de uma das cenas mais emblemáticas do primeiro ato de Vingadores: Ultimato, que, por sua vez, é o último de uma saga. Esse momento, simples e marcante ao mesmo tempo por possuir um olhar mais sóbrio do enredo e sua proposta sobre si mesmos, cresce em significado por ter um dos diretores do longa-metragem, Joe Russo, em um cameo. O cineasta em pessoa, que juntamente ao seu irmão Anthony comanda Ultimato, é aconselhado pelo Capitão América (Chris Evans), personagem, porém, ainda em negação pelo que aconteceu em Guerra Infinita, a seguir em frente, caminhar. Mas se os outros, esses civis, precisam seguir em frente, por que não os heróis, aqueles que supostamente deveriam ter impedido o que aconteceu, o extermínio de metade da população do universo por Thanos (Josh Brolin), de acontecer? Joe pode seguir em frente, entretanto, o seu personagem não, sem garras para prosseguir enquanto o seu instinto heroico pensar em chances. Mais que uma adaptação de quadrinhos ou um longa com heróis em seu enredo, Ultimato, assim como demais projetos desta franquia, pensa nuances do gênero, revendo conceitos originais aos personagens, quem são, por quem lutam e o que os movem, como pessoas –. e como Vingadores.

O vasto campo onde o aposentado Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), no momento do estalar de dedos, encontrava-se com os seus entes queridos é rapidamente substituído por um ambiente de desnorte completo, com o personagem correndo sem direção ao perceber os sumiços. Esse é um dos auges no comando majoritariamente competente dos Irmãos Russo, procurando compreender o impacto da inexistência de propósito aos seus heróis – vale uma nota à excelente interpretação de Renner, que retorna à saga em participações marcantes e carregadas. Pois o que é ser um super-herói contemporâneo, que também possui a oportunidade de casar, manter uma casa no campo e ser, por vezes, ordinário? Como sua assinatura, a Marvel Comics sempre trouxe, ao invés de deuses intocáveis e mitos utópicos, personagens poderosos, mas essencialmente “humanos”. O que é perder, portanto, quando coisas tão próximas, os sustentáculos que nos movem, encontram-se também em jogo e, consequentemente, acabam sumindo em cinzas, em vãoE quando todos perderam, menos você, acaso que o obrigará, portanto, a arriscar uma oportunidade pessoal, uma segunda chance na vida, pelo bem que é maior? Os verdadeiros heróis, em seus cores, mostram-se assim ao sacrificarem-se, em meio ao equilíbrio entre o ser como ser com o ser enquanto super.

O mito do super-herói contemporâneo aqui move-se pensando em grupo, não importando para a Marvel personagens que enfrentam impasses apenas externos. Família é essencial, em suas várias formas, para movimentar até mesmo essas grandes pessoas. Quando o Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), por pouco tempo dos minutos iniciais da obra, está à deriva no espaço, os seus pensamentos moram com Pepper Potts (Gwyneth Paltrow), sua querida esposa. Mas ao chegar na Terra, alguns instantes depois, Tony é recebido calorosamente pela amada, com quem termina construindo um lar e tendo uma garotinha – ou seja, prosseguindo. Nessa mesma cena, Rocket Racoon (Bradley Cooper), por outro lado, percebe não ter mais ninguém dos Guardiões, sendo consolado por Nebulosa (Karen Gillian, bem). É um momento simples, porém, que contrasta os personagens e o que estará em jogo consequentemente, quando as esperanças já estiverem mesmo esgotadas e Thanos, já morto – o que acontece em quinze minutos -, ser uma amargurada lembrança do passado. Vingar não é suficiente para quem perdeu tudo, pouco, ou, como o Capitão América e a Viúva Negra (Scarlett Johansson), só possuíam os Vingadores em suas essências. Rogers até comentará para Natasha:. “eu digo para as pessoas seguirem em frente, mas não nós”.

“Mas não nós.”

Os personagens possuem camadas, monstros e vazios próprios, à acrescentarem no projeto em si, que é uma amarração de vários arcos narrativos, os sustentos de uma obra catártica de três horas. Ultimato vê na troca entre as pessoas, entre nós, um objetivo pessoal, os reais propósitos, embora não suficientes para heróis serem. As exceções desse estudo mais profundo são Rhodes, o Máquina de Combate (Don Cheadle), e Carol, a Capitã Marvel (Brie Larson). Uma manivela ao roteiro que preenche vácuos narrativos, a Capitã aparecer pouco incomoda mais que a não-exploração de Rhodey, por ser inconstante ao roteiro, que ainda assim é muito bom, coeso e criativo. Quando o Homem-Formiga (Paul Rudd) é retornado ao tempo presente, agora já cinco anos após o experimento que estava realizando com os Pym na Zona Quântica começar – cena pós-créditos de Homem-Formiga e a Vespa -, os eventos consequentes são tão importantes que simplesmente não justifica-se Danvers não ter sido chamada urgentemente pelos Vingadores. Como Rhodey, mesmo que vivido pelo ótimo Don Cheadle, cumpre uma função mais burocrática que outros personagens, o caso de Rocket por exemplo, que ao menos carrega consigo, além da comédia, um peso crucial para cenas da obra, Danvers poderia o substituir nesta viagem no tempo.

Mesmo assim, a obra permanece contendo mais unidade que qualquer outra empreitada da saga. O trágico Guerra Infinita possuía personagens cumprindo contrato e aparecendo, mas sem serem essenciais a um cerne. O Capitão era mais uma mera manivela narrativa que um personagem por si só. Já Ultimato presta serviço aos protagonistas, ao passo que aproveita o Thanos previamente construído para reafirmar as suas intenções, no entanto, mais do que isso, impulsionar o senso de ameaça que traz consigo. Com o retorno do Homem-Formiga ao presente distópico, as esperanças reacendem e as chances precisam ser aproveitadas. Os primeiros quinze minutos investem em uma vingança e a consumação do fracasso: uma introdução. Já as próximas sequências, que compõem um primeiro ato particular, mais melancólico, embora vigoroso em reapresentação de personagens e renovação dos status quo anteriores, possuem ênfase no íntimo, justamente o que movimenta Ultimato enquanto experiência: um grande espetáculo em escala colossal, mas que se importa com uma dança, um sentimento, um coração, uma família. Os seus personagens sempre se pautam em questões humanas, como a aceitação paterna e o alcoolismo. O enredo caminha paralelamente, .mostrando os personagens tentando continuar,. precisando crer nos mitos que são.

Cada super-herói apresentado – e reapresentado – reside em uma situação particular, o que não permite os muitos personagens explorados de serem vistos como repetitivos tematicamente, redundantes. Perguntas surgem: o Capitão América seguiu a sua vida, encontrou alguma coisa além dos Vingadores e da sua necessidade, pautada na sua origem, por ser um super-herói? Como Rogers pode encontrar algo quando é no passado que ele mora, um passado já sacrificado? Outro caso que marca é o da Viúva Negra, que conseguiu construir uma vida no interior dos Vingadores e apenas com eles, não tendo nem um passado para chamar de seu – uma passagem pequena, em que o pai de Nat é nomeado, é o que precisamos para compreender a sinceridade nessa característica da personagem. O seu núcleo com Clint Barton é o mais sombrio. E é muito interessante, no mais, como os Russo respeitam o que Joss Whedon criou com a Viúva em Era de Ultron, unindo-a romanticamente com Bruce Banner, interpretado por Mark Ruffalo. Contudo, assim como Thor (Chris Hemsworth) e Jane Foster (Natalie Portman, em cameo) não funcionaram, esse casal também não. Mas um carinho mútuo é exemplificado com a sua morte, o seu sacrífico – em que ser heroína é parte de sua conexão familiar -,. e o triste sentimento que Mark expressa no pós.

“Isso vai dar certo, Steve.”

Vingadores: Ultimato é um projeto permeado por pequenos segmentos cheios de significados – com referências ou não -, que enaltecem um ótimo roteiro escrito por Christopher Markus e Stephen McFeely, assim como a compreensão dos Russo do legado que mora em suas mãos. Os roteiristas entendem os seus personagens e organizam, no segundo ato – a viagem no tempo -, um enredo em várias camadas, importantes para a narrativa em seu estado puro, mas igualmente para o valor emocional compartilhado e os arcos. Inclusive, a exposição científica e de conceitos é usada com moderação e sempre em paralelo com algum humor, construindo clima, e/ou prosseguimento narrativo, mantendo-se um ritmo. O que os personagens vivem no passado é muito rico, por conta da pluralidade de vieses, que pensam tanto na missão em questão – recuperar as Joias do passado, destruídas no presente, para reverter o estalo -, quanto em estabelecer a mensagem do longa e a sua veia mais dramática. Rogers possui um vislumbre de sua amada Peggy Carter (Hayley Atwell), seu sacrifício, nos anos 70. Já Tony, que está arriscando uma segunda chance no mundo, complementa o relacionamento entre ele e o seu pai, interpretado por um John Slattery rejuvenescido.. Essa conversa é, novamente, catártica, concluindo-se pontas.

O pensamento em torno dos laços humanos, um cerne profundo dessa obra que visa atingir em cheio os seus espectadores, estará sendo construído ao mesmo passo que os arcos heroicos dos personagens e que a trama em si, sobre viagem no tempo: simples, um tanto objetiva, ora confusa, entretanto, não menos imaginativa. O tempo duradouro é usado muito bem. Quando o roteiro, por exemplo, optar por colocar Barton em uma sessão-teste da viagem no tempo, a escolha será para que, ao passo que a narrativa use a cena porque quer impulsionar veracidade ao método científico em questão, explore-se o drama em paralelo. Lá, a urgência de Clint em ver alguém origina outra grande cena. Já a apresentação do Sr. Hulk, uma versão do personagem que une o cientista e o monstro – e permite Mark causar graça por causa de uma ótima captura de performance – também movimenta-se por intenções múltiplas que se complementam. Traja-se um peso no humor, mas também no olhar sobre o arco do herói. O personagem, no caso, conseguiu encontrar um apoio em si mesmo, seu outro eu. E a transformação, mesmo que não apareça, consolida-se quando Banner do presente vê a sua versão passada, mais monstruosa. Essa costura possui um agente também na montagem de Ultimato, que entrecortará as cenas, nesse segundo ato, com muita organicidade.

O longa nunca é raso, portanto, coisa que costuma ser confundida com as pessoas ao observarem a comicidade como uma ofensa ao drama, em contramão à existência de uma comédia que consiga pensar arcos sinceros por meio da jocosidade, que vai surgindo com espontaneidade. Pois o Thor, que perdeu tanto em sua caminhada – irmão, pai, mãe, uma terra e metade do povo sobrevivente ao Ragnarok -, é um dos mais trágicos desses personagens – menos que o Gavião Arqueiro -, ao mesmo tempo que é o mais cômico. Esse O Grande Lebowski, vivido com uma devoção de Hemsworth ao clássico personagem de Jeff Bridges, tornou-se um alcoólatra completo, que perdeu sua dignidade e precisa a reconquistar no passado. O seu adequado arco possui excelentes cenas, principalmente a que Thor encaminha-se à Asgard com Rocket e reencontra a sua mãe, Frigga (Rene Russo). O “guaxinim” também perdeu tudo, porém, preferiu continuar a caminhar. Um olhar eufórico de Hemsworth quando o seu personagem percebe ainda ser digno de empunhar o Mjolnir é muito sincero. Esse é outro personagem que está à serviço de uma conclusão à sua jornada. Mesmo que continue vivo, juntando-se aos “Asgardianos da Galáxia”, a sua desistência do trono da Nova Asgard cai como uma luva enquanto desfecho – muito merecido.

“Eu sou o Homem de Ferro.”

Os Russo, embora não sejam os mais completos artistas a comandar algum dos vinte-e-dois longas apresentados pela Marvel Studios, são os que souberam melhor coordenar os personagens da saga em uniformidade narrativa e discursiva, conciliando escalas épicas, as maiores já vistas, com um intimidade respeitosa. Os auges, porém, não são tão bem intensificados pelos cineastas como poderiam, embora exista um senso de ritmo narrativo muito gostoso e contínuo. Evans, no caso, teria um espaço enorme para uma cena só sua lamentando o passado, mas uma serenidade, que o engrandece em outros momentos, é a constante. Entre os prós e contras: quando o Capitão ergue o Mjolnir, a cena é seca, enquanto o “Avante, Vingadores” não. Mas mesmo que às vezes não aproveitem completamente meandros emocionais, conseguindo os atingir apenas por uma comoção enraizada, nota-se o anseio dos cineastas por aproximarem-nos aos seus personagens através de planos mais fechados. O laço criado entre o público e tais histórias ganha harmonia. E é dessa necessidade por laços, quer seja sanguíneos, quer seja apenas espirituais, incluindo até mesmo os artísticos, entre a obra e o seu público, que Vingadores: Ultimato se consolida como a grande catarse da cultura popular, o desfecho dos sonhos de gerações que assistiram a tais filmes.

Quanto atinge o clímax, o longa-metragem prova-se como uma experiência grandiloquente, mas ainda pessoal e reconfortante. Os Russo preenchem a tela com muitos personagens e computação gráfica, enquanto a Manopla do Infinito, usada para restaurar a vida dos que morreram, é passada de mão e mão para longe de Thanos. O Homem-Aranha (Tom Holland) prende-se ao objeto e não larga-o. Hulk ergue escombros e prova o seu valor ao suportar as Joias. Gamora (Zoe Saldana) une-se a sua irmã e combate a versão antiga de Nebulosa. Mas é com o sacrifício de Tony que tudo culmina, em uma cena milimetricamente calculada para não ser vista como trágica, porém, como bela em sua completude: o arco encerrado com o descanso de um homem que, anos atrás, vivia os impasses de ser workaholic. O respaldo mora no passado, contudo, a jornada concretiza-se no presente, na aceitação de um homem como herói, o que se sacrifica, e do herói como homem, o que também vive. Enquanto o “egoísta”, que possuiu uma vida com mais de três mil alegrias, sacrifica-se, o herói que personifica o sacrifício, sem tempo para viver, resgata o super-heroísmo que reside em cumprir uma mera promessa e dançar uma dança. Pessoas morrem, sacrifícios existem, mas as resoluções de Ultimato são das mais belas que blockbusters já tiveram.

Ultimato comove por estar constantemente associando-se, em outra instância, ao que o espectador consegue compartilhar consigo, que é a noção de família e grupo, basicamente o cerne que move a complexidade do conceito do super-herói e até mesmo representatividade em um ambiente tão humanista e com pés no chão quanto o da Marvel Comics. Esse sentimento de causa, de missão, de objetivo e unidade é muito importante, por evidenciar algo a que devemos celebrar e lutar por, acreditar como o nosso super-heroísmo do cotidiano. Uma das cenas de Ultimato, aumentando assim como o longa aumenta todas as suas vertentes, também expande o girl power de Guerra Infinita, agora com – quase – todas as personagens femininas do MCU. Eis a mistura entre a grandiosidade de um “evento” com as menores escalas que importam. Os arcos de personagens aclamados são concluídos enquanto os cineastas Joe e Anthony repensam o mito do super-herói em uma obra amarrada coerentemente ao redor de uma temática ímpar e muito bem discorrida, apresentada por um roteiro que consegue pincelar instantes pequenos e os condensar a outros em uma energética potência dramática que impressiona – e que conversará mais objetivamente com quem tiver acompanhado esta saga que perdura. Uma prova de que a Marvel Studios tem coração.

  • Cameo do Stan Lee: O último cameo de Stan Lee, que morreu ano passado, apresenta uma versão jovem do icônico quadrinista, nos anos 70 e celebrando o amor, não a guerra. Como o longa-metragem que o apresenta, esse também é um encerramento belo, embora engraçado, às participações especiais de Lee, porque o permitiu passar por um dos processos visuais mais interessantes do MCU, rejuvenescendo-o e consagrando-o como eterno.
  • Passagem do Manto: Como não consegui conciliar isso ao texto, porque quis discorrer acerca da catarse na experiência e não dos símbolos americanos, optei por comentar aqui sobre a cena que encerra Ultimato. Quando Steve passa o escudo para o Falcão, existe uma mensagem muito interessante sobre o Tempo e a América. Bucky também é um norte-americano do passado, personagem que se aproximaria ao clássico Capitão América em conceito, repetindo o manto e o escudo enquanto alegorias a um Estados Unidos anacrônico. Já Wilson corresponde ao que impera hoje no presente – e nas recentes produções da Marvel Studios: uma revisão dos arquétipos, dos significados da bandeira e do que realmente foi o nascimento dessa nação.

Vingadores: Ultimato (Avengers: Endgame) — EUA, 2019
Direção: Anthony Russo, Joe Russo
Roteiro: Christopher Markus, Stephen McFeely
Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Don Cheadle, Paul Rudd, Brie Larson, Karen Gillan, Bradley Cooper, Josh Brolin, Gwyneth Paltrow, Danai Gurira, Tessa Thompson, Benedict Wong, Jon Favreau, Benedict Cumberbatch, Tom Holland, Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista, Pom Klementieff, Vin Diesel, Elizabeth Olsen, Evangeline Lilly, Chadwick Boseman, Anthony Mackie, Sebastian Stan, Tom Hiddleston, Taika Waititi, Hayley Atwell, Rene Russo, Tilda Swinton, Frank Grillo, John Slattery, Robert Redford, Michael Douglas, Samuel L. Jackson
Duração: 181 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.