Crítica | Vingança a Sangue Frio

“Você sabe o que é Síndrome de Estocolmo?”

Quando um dos seus muitos personagens morre – e muitos irão morrer -, Vingança a Sangue Frio pontua o acontecimento com uma pequena piada. Pois a cena esvanece, após o acontecido, e mostra o nome daquele que morreu, como uma legenda fúnebre, no entanto, curiosamente cômica. Interrompe-se a obra para que, momentaneamente, o que aparentemente era algo sério, sanguinolento, seja subvertido em uma brincadeira sem muito apego pela vida. É uma marca óbvia do que significa esse mais novo longa-metragem estrelado pelo vingativo em carne, osso e alma: Liam Neeson, agora tendo que ir atrás daqueles que assassinaram seu filho. Muito menos sisudo, sério, do que prenunciou pela escalação desse ator, justamente esse ator, Vingança a Sangue Frio, em contrapartida, é também muito menos genial, nos bastidores e execução, do que pretendeu ser.

O longa americano, por exemplo, já foi feito anteriormente e ao pé da letra, sendo chamado, há alguns anos atrás, de O Cidadão do Ano, produção norueguesa que encaminhou um sucesso mais internacional ao cineasta Hans Petter Moland. Sem ter mais cartas na manga, nem que fosse um roteiro com algumas modificações pontuais, repete-se a narrativa anterior, com uma exatidão de invejar qualquer leitor de livros que são usualmente adaptados para o cinema, embora sem muito apego à fidelidade. Vingança a Sangue Frio é um pouco mais afetado em muitos sentidos do que o outro projeto, sejamos claros, apesar de timidamente. Contudo, o mais entristecedor é que não existe nada de realmente original nessa jocosidade de tom à la Fargo, pelo menos não nessa versão americana do filme dirigido anteriormente pelo mesmo cineasta. O que distingue é o elenco.

Essa refilmagem irá nos contestar, por toda a sua duração, se é realmente um filme de ação movido por uma premissa de vingança, principalmente por conta da presença de Liam Neeson, sem fugir muito do estereótipo que carrega. Dando a entender pelos primeiríssimos minutos do longa-metragem e além, a resposta é afirmativa. O ar pesado que a cinematografia – nova, caso comparada com a original – imprime é um atestado dessa condição inicial da obra, mas que será desconstruída rapidamente, pois apenas a primeira morte é realmente pautada numa sobriedade. Então, o conjunto torna-se inconstantemente engraçado, principalmente em decorrência do quão gratuitas são as ideias de humor. Uma separação existe entre situações naturalmente engraçadas por serem absurdas – como as passagens de Fargo -, daquelas já construídas numa artificialidade.

Os pais olhando o seu filho morto, que demora segundos intermináveis para ser erguido por uma plataforma no necrotério – e um som esquisito -, já incita toda essa maneira gélida com que o cineasta reitera sua visão da morte. De tão patéticas que são as soluções de comédia – e a montagem esquizofrênica com cortes “a troco de nada” -, que o resultado torna-se ironicamente funcional por conta disso. E não dá para esquecer as passagens mais ofensivas até. Pois todos os personagens, mesmo um homem negro que fala errado – e isso aparentemente é engraçado -, são piadas – o vilão está incluso. O único que não é uma piada é justamente o protagonista. Por isso, o remake parece se voltar a essa premissa de uma nota só: Neeson assumindo às rédeas de uma produção que, metalinguisticamente, cabe no seu universo particular de ação na base da vingança.

Quantas vezes a mesma punch-line, até mesmo a do carrinho sendo erguido – reiterada com o morto da comunidade indígena -, consegue funcionar, sendo ainda multiplicada por dois? Petter Moland, se um dia produziu um competente drama com teor cômico ácido, tal obra se chamou O Cidadão do Ano. Esse exemplar de refilmagem injustificada completamente, porém, entre uma das possibilidades para meramente existir, até que pode mostrar um pouco mais o descompromisso do cineasta com as regras e convenções dos gêneros cinematográficos. Mas, por um outro lado, esse é um caso que apenas retoma o quão preguiçosa é Hollywood. E o quão nociva é, para o próprio longa original do diretor, essa refilmagem, que não incentivará ninguém a assistir uma versão idêntica, só que sem Liam Neeson.  Qual a graça em ver tal confusão sem o cidadão e pai do ano?

Vingança a Sangue Frio (Cold Pursuit) – EUA, 2018
Direção: Hans Petter Moland
Roteiro: Frank Baldwin, Kim Fupz Aakeson
Elenco: Liam Neeson, Tom Bateman, Tom Jackson, Emmy Rossum, Laura Dern, Domenick Lombardozzi, Julia Jones, John Doman, William Forsythe, Micheál Richardson
Duração: 118 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.