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Crítica | Vinyl – 1X01: Pilot

por Ritter Fan
56 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 4,5

Ao longo de suas duas horas, algo raro para pilotos de séries, Martin Scorsese e a HBO nos levam a um passeio frenético – uma verdadeira montanha-russa, na verdade – pelo cenário musical da primeira metade da década de 70 ao nos fazer acompanhar a vida de Richie Finestra (Bobby Cannavale), produtor musical e dono do fictício selo American Century, em três momentos entrecortados: no presente da série (1973), nos cinco dias anteriores e no começo de sua carreira musical. O resultado é uma descarga sensorial energética, fascinante e imperdível, ainda que não sem problemas.

O piloto, pela sua duração e por ter um roteiro redondo, completo, com começo, meio e fim, funciona quase que como um longa-metragem independente, o que só conta pontos para a grande aposta da HBO nessa produção que levou até mesmo ao adiamento do começo da sexta temporada de sua extremamente bem sucedida série Game of Thrones. Mas Vinyl merece mesmo esse destaque todo, não só pela temática fascinante, como, também, pelo cuidadoso trabalho da produção que recriou minuciosamente figurinos, maquiagem e todo o submundo musical novaiorquino da década de 70, aliado à fenomenal atuação de Cannavale, o centro absoluto das atenções. E, claro, o fato de a série ter sido criada por ninguém menos do que Mick Jagger, Martin Scorsese, Rich Cohen (prolífico editor da Variety e Rolling Stone) e Terence Winter (produtor executivo de Família Soprano e produtor executivo e showrunner de Boardwalk Empire, além de roteirista de O Lobo de Wall Street), já é pedigree suficiente para tornar a série obrigatória para qualquer um interessado em música e/ou televisão.

Começando com um Richie Finestra extremamente abalado no claustrofóbico interior de sua Mercedes esportiva em um beco de Nova York sucumbindo ao chamado das drogas que, como veríamos adiante, ele vinha tentando se afastar, Scorsese logo nos dá todas as informações visuais que precisamos sem recorrer a diálogos. Estamos diante de um milionário que veio de baixo, um homem que tem um segredo que o está destruindo, alguém que tem a vida completamente desregrada e carregada de vícios, mas um executivo extremamente antenado com as tendências e que, mesmo diante de seus problemas, não perde a chance de “descobrir” um novo som, um novo grupo despontando no mítico The Mercer Arts Center encapsulado pela apresentação ao vivo do The New York Dolls cantando o hino punk Personality Crisis. Em poucos minutos deste prólogo, entendemos que Richie será o foco dos holofotes de Scorsese, aprendemos muito sobre o personagem e compreendemos que a palavra de ordem pelo menos deste episódio piloto é “excesso” ou talvez até mesmo “caos”.

Mas é um excesso que o diretor faz funcionar graças, claro, à sua inegável habilidade na cadeira de diretor, à sua familiaridade com o cenário da música (poucos grandes diretores se dedicaram tanto a trabalhar obras documentais focadas na música como Scorsese em O Último Concerto de Rock, No Direction Home, Shine a Light George Harrison: Living in the Material World) e ao audacioso roteiro de Winter que pouco diz, mas muito mostra, jamais entregando-se ao didatismo exacerbado e aos caminhos mais fáceis e costurando três momentos temporais diferentes sem facilitar o trabalho para o espectador. Vinyl é uma obra adulta para adultos, uma bem-vinda adição à mais do que fenomenal lista de séries da HBO. E é muito interessante notar como a escolha da época retratada foi perfeita: as grandes bandas de rock estão ainda em destaque – o Led Zeppelin ganha proeminência no episódio -, mas novos movimentos, ritmos e gostos começavam a aparecer, como o pop do ABBA e o próprio punk do The New York Dolls, amplificando e abrindo o leque de ofertas musicais e obrigando o “antigo” a se reinventar. A fotografia desse momento do cenário musical reflete, também, no momento chave de mudança na vida de Richie, já que, devido a problemas financeiros, ele desesperadamente precisa fechar a venda de seu selo para a gigante teuto-holandesa Polygram, o que também permite uma visão de camarote do movimento de concentração das gravadoras e das negociatas sujas que faziam – e… aham… ainda fazem – parte desse jogo.

Contudo, não se enganem. A julgar pelo piloto, o mote da série parece mesmo ser a narração da vida do fictício (pero non troppo) Richie Finestra e não a história do estado da música naquele momento temporal. É mais do que evidente que a música em si será visitada por diversas vezes na medida da progressão da narrativa, mas ela parece ser acessória à vida de Finestra, ainda que essencial para a compreensão sobre quem ele é. Afinal, os flashbacks para seu passado mostram muito bem isso, com seu começo correto e honesto como amante da boa música e sua caça de verdadeiros talentos – que seriam moldados pela indústria – representado pelo cantor de blues Lester Grimes (Ato Essandoh) e sua conversão em alguém que trata seus músicos como meros produtos, como meros álbuns a serem vendidos (ou jogados no rio, claro…) a qualquer preço. Ao redor de Finestra, tudo gira, seja para o benefício do espectador em abordar a corrupção das gravadores, o tamanho e a importância dos jabás das rádios, a manipulação de números, a negociação de contratos que jamais beneficiariam os músicos, seja para o benefício da narrativa que tem uma qualidade caótica interessantíssima, com direito a momentos surreais e lisérgicos como o show imaginário, na festa de aniversário de Richie, de Bo Diddley – The Originator – à beira da piscina. Mas nada é simplesmente gratuito, nem mesmo os momentos surreais, pois Bo Diddley marcou uma era de transição em entre o Blues e o Rock ‘n Roll, com algo semelhante acontecendo no começo da década de 70.

O elenco de suporte – praticamente todos os demais atores – não ganha, aqui, qualquer tipo de desenvolvimento. Os sócios de Richie, Zak Yankovich (Ray Romano), Skip Fontaine (J.C. MacKenzie), Julian “Julie” Silver (Max Casella) e o advogado do selo Scott Leavitt (P.J. Byrne) não são muito mais do que adereços para dar suporte e verossimilhança ao protagonista, o mesmo valendo para Jamie Vine (Juno Temple), uma ambiciosa secretária (e traficante de todo tipo de drogas) da American Century e até mesmo para Devon, a esposa de Richie vivida pela bela Olivia Wilde. No caso de Wilde, sua presença funciona muito mais como um lembrete de que Richie tem também outra vida e que ela, provavelmente uma “mulher-troféu”, tem uma existência isolada como mãe de subúrbio, longe do glamour de seu passado, que a desagrada profundamente. Há, portanto, muito material a ser desenvolvido em capítulos posteriores, ainda que a falta de desenvolvimento deles, aqui, não atrapalhe a história encapsulada pelo piloto.

Mas, como mencionado no início da presente crítica, o esforço de Scorsese e Winter não é sem problemas. O primeiro deles é uma sub-trama envolvendo um assassinato que não se encaixa muito bem no tom do restante da narrativa. Em típico “momento mafioso scorsesano”, vemos uma morte que, ainda que não traga exatamente surpresas e seja razoavelmente bem construída, exagera no grafismo e nos detalhes sórdidos. Sim, é uma série marcada por excessos, sou o primeiro a afirmar, mas, aqui, o diretor carrega nas cores e afasta o espectador do que ele vinha construindo. Resta saber como o assunto afetará o desenvolvimento do restante da temporada.

O segundo problema é o momento catártico-transformativo ao final, envolvendo famoso evento verdadeiro ocorrido no The Mercer Arts Center. Não descreverei aqui para evitar spoilers, mas ainda que a qualidade surreal do episódio seja carregada para a visão de Richie em meio ao show do The New York Dolls (reparem como a fita começa e acaba no mesmo momento em perfeito movimento circular) tornando até difícil a separação entre realidade e ficção, a questão é que o sensacional roteiro que procura fugir do didatismo acaba caindo na armadilha e exagera na metáfora do renascimento, da recriação, da reinvenção, elementos que já haviam ficado sobejamento demonstrados ao longo da projeção. Confesso, porém, que tenho sentimentos antagônicos sobre a sequência, já que ela, sem dúvida alguma, resulta em um explosivo e inesquecível final de episódio.

Vinyl tem o potencial de ser um novo Mad Men, talvez com pitadas, aqui e ali, de Boogie Nights, o que pode ser uma combinação pitoresca. O certo é que, independente do que vier por aí, o episódio piloto da série é televisão de altíssima qualidade que não pode ser ignorado.

P.s.: Pela natureza da obra, consideramos melhor fazer a crítica da temporada completa ao seu final e não por episódio. Portanto, voltaremos à Vinyl logo depois que seu 10º episódio for ao ar, em dia ainda não definido de abril de 2016. 

Vinyl (EUA, 14 de fevereiro de 2016)
Criadores: Mick Jagger, Martin Scorsese, Rich Cohen, Terence Winter
Showrunner: Terence Winter
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Terence Winter, George Mastras (baseado em história de Mick Jagger, Martin Scorsese, Rich Cohen e Terence Winter)
Elenco: Bobby Cannavale, Olivia Wilde, Ray Romano, Ato Essandoh, Max Casella, P. J. Byrne, J. C. MacKenzie, Birgitte Hjort Sørensen, Juno Temple, Jack Quaid, James Jagger, Adelynn Elizabeth O’Brien, Paul Ben-Victor
Duração: 120 min.

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12 comentários

joão 24 de fevereiro de 2016 - 21:02

Eu gostei bastante desse piloto!! Tecnicamente sensacional, gosto do Bobby Cannavale desde a fabulosa Boardwalker Empire e achei ele fantástico aqui. Adorei a resenha e só espero que realmente tenha um maior desenvolvimento do elenco de apoio mas mesmo com esse porém, tenho expectativas de que vá entrar para minha lista de melhores série.

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planocritico 25 de fevereiro de 2016 - 01:18

@disqus_C1Ate1w9Mv:disqus, também achei excelente. Há muito material para ser desenvolvido na temporada. Assim que ela acabar, a crítica sai por aqui.

Abs,
Ritter.

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jcesarfe 17 de fevereiro de 2016 - 15:40

Gostei do episódio, mas não achei grande coisa assim. O ator principal é meio sem sal, mas a história apesar de duvidosa é bem real e como eu conheço um pouco da bagunça que foi aquela época, acho que pode render bons frutos, mas esperava mais. Pelo menos as músicas se encaixaram bem na trama.

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planocritico 17 de fevereiro de 2016 - 18:47

Como mencionei na resposta ao comentário da Iris, acho que gostar do ator principal e de seu personagem é essencial para gostar desse primeiro episódio e isso foi algo arriscado por parte de Scorsese. Afinal, gosto é subjetivo e ele se apoiou demais no ator e personagem. Para mim, funcionou muito bem, mas poderia ter sido ao contrário. Vamos ver se a série diversificará o enfoque ou se realmente manterá as lentes apontadas para Richie.

Abs,
Ritter.

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Helder Zemo 17 de fevereiro de 2016 - 10:19

Pocha Ritter, se nao tiver narração em off, assassinatos a la cosa nostra, o protagonista sendo um viciado maluco, que seu vicio, orgulho e prepotencia o leva a destruir tudo em sua volta, nao é Martin Scorsese (nao sei como nao tem Leonardo Dicaprio ou Joe Pesci fazendo uma ponta so pra falar um f*ck) kkkk a proposito ele sabe bem sobre o mundo da musica, ele dirigiu alem dos documentários sensacionais sobre bandas que voce comentou, aquele clipe Bad do Michael Jackson, acho que tem uma boa premissa, mas é uma serie, nao um filme de duas horas (ou tres no caso dos filmes dele), ele precisa focar mais nos outros personagens se nao fica muito chato, sei que é uma marca dele esse lance de seguir o protagonista do inicio ao fim da historia, dando mais foco a outros personagens quando esse esta por perto, mas numa serie seria bom distribuir isso, nao da pra sustentar uma serie de 10 episodios sob um ponto de vista.

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planocritico 17 de fevereiro de 2016 - 18:55

@disqus_qqVEa4WRHI:disqus, maldade com o Scorsese! Ele é bem mais complexo e completo que isso aí que você descreveu…

Mas sobre Bad, eu tinha me esquecido disso, mas é verdade. Lembro-me de esperar ansiosamente pelo lançamento mundial desse clipe no Fantástico há 150 anos…

Falando sobre a série, acho que fatalmente ela diversificará os pontos de vista. Vamos ver. O próximo episódio já permitirá ter uma ideia boa da estrutura.

Abs,
Ritter.

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Helder Zemo 18 de fevereiro de 2016 - 08:24

Ele realmente é muito complexo, so coloquei umas características de alguns dos filmes dele (especialmente os que envolvem mafia, cartel ou algo parecido enfaticamente, Touro Indomavel e Taxi Driver sao bem diferentes por exemplo), e tipo um filme do tarantino nao ter alguns dialogos longos, litros de sangue e cenas de ação maneiras, é a marca do cara, ja vi quase todos filmes do Scorsese, so falta New York, New York, que comecei a ver era 1 da manha e to pensando em retomar, sobre serie, gostei do que vi, ha outros personagens maneiros alem do Bobby Cannavale (um bom ator, precisa fazer mais filmes e series boas) e que podem ser explorados de uma maneira melhor. Afinal, pra HBO adiar a estreia do seu produto AAA que é Game of Thrones, essa serie deve ser realmente muito boa, na torcida para o pé frio do Mick Jagger nao atrapalhar a serie kkkk

Vlw!

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planocritico 18 de fevereiro de 2016 - 11:38

Pois é, a HBO está apostando pesado nessa série. Tomara que ela faça sucesso!

Abs,
Ritter.

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Iris demetrios fyrigos 16 de fevereiro de 2016 - 21:42

Ritter, você foi bastante otimista, na minha opinião. Para mim, não surpreendeu tanto assim e até me decepcionei, para ser bem sincera. Não consegui ver novidade, e infelizmente o ator principal não me causou simpatia também. De toda maneira, não nego que ao final do episódio e por conta justamente do assassinato, que eu fiquei curiosa para o andamento da série. Respeito bastante suas críticas e acabam me ajudando. Vou tentar mais a partir dos seus comentários. E eu não sabia que a situação do prédio era real. Isso fica mais interessante. Talvez o curioso seja realmente a mistura das coisas que foram reais com a ficção atrelada. Será que o que justamente me decepcionou foi o interesse da série parecer ser para o personagem central, porque na publicidade o que foi vendido é que teríamos uma série sobre a música e aqueles tempos. Assim eu senti. Mas, vou insistir mais um tanto! Ah, com relação a produção toda, sim, perfeita como cinema! Valeu, abraço!

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planocritico 16 de fevereiro de 2016 - 22:04

Olá, @irisdemetriosfyrigos:disqus! Olha, eu realmente gostei do piloto, mas entendo seu ponto perfeitamente e diria que a HBO arriscou bastante ao focar fortemente em apenas um personagem no lugar da música (ainda que ela esteja muito presente). Se o espectador – como aparentemente foi seu caso – não gostar do protagonista ou do ator ou dos dois, a coisa pode realmente desandar seriamente, pois acho que a empatia com Cannavale é essencial. Eu tive a sorte de simpatizar de cara e isso ajudou muito, pois Scorsese dirigiu algo que até pode não trazer novidade, mas que apresenta o assunto de maneira adulta, sóbria e dinâmica, sem explicações exageradas.

Sobre o ocorrido no prédio ser real, é sim. Não aconteceu exatamente como na série e The New York Dolls não estava tocando, mas foi bem assim mesmo. Há fotos internet afora que valem ser conferidas. Além do prédio em si, vários personagens são reais e toda a estrutura artista-gravadora-rádio era assim mesmo e, em grande medida, continua igual. Vale até como uma espécie de aula de história sobre a indústria musical.

Espero que continue assistindo!

Abs,
Ritter.

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Iris demetrios fyrigos 17 de fevereiro de 2016 - 19:52

Verdade, deu para sentir que a estrutura artista-gravadora-rádio que você disse, é muito igual ainda hoje apesar da sacudida com os downloads e tal. Isso foi bacana de ver. Para mim foi o grande lance porque me chocou! Obrigada. Vou ver o próximo para conferir!

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planocritico 18 de fevereiro de 2016 - 11:47

Eu ainda acho que eles pegaram leve nesse assunto e que vem muito mais por aí! Tomara!

Abs,
Ritter.

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