Crítica | Vírus (2009)

A maioria dos filmes sobre pandemias são voltados ao pânico generalizado diante de uma sociedade que busca resolver o problema e mudar o cenário caótico. Vírus, lançado em 2009, aparentemente inspirado pela histeria midiática em torno do H1N1 tem a proeza de pegar um segmento cinematográfico bem estabelecido e com estrutura surrada e transformar numa proposta cheia de ressignificações. Se há a busca pela vacina, a contenção do caos e os embates entre forças institucionais e sociedade civil nas produções do tipo, na trama dirigida pelos irmãos Alex e David Pastor, dupla de cineastas espanhóis que também assumem o roteiro, o ponto nevrálgico de reflexão é a mudança estrutural nos relacionamentos humanos, regidos por leis e que em situações como esta, tornam-se problemáticos.

Sem um juiz, uma policial ou alguém que seja mediador numa determinada situação, o que me impede de tentar salvar a minha vida ao tomar o carro de outra família e deixa-los à beira da estrada? O que me incapacita de saquear os alimentos de um grupo para alimentar as pessoas que estão do meu lado da história? A palavra-chave de Vírus é a ética da sobrevivência em momentos pandêmicos como o apresentado pelo filme, produção que após mais de uma década de lançada, ganhou projeção com a busca incansável de algumas pessoas por filmes que reflitam de maneira alegórica, a quarentena global de 2020, período de contágio e disseminação do chamado corona vírus (covid-19), micro-organismo que sacudiu campos de interação humana, tais como a economia, a saúde, a política, etc.

Da civilização à barbárie, acompanhamos ao longo dos 84 minutos de duração, a trajetória de dois irmãos e seus respectivos interesses amorosos. Temos Brian (Chris Pine) e Danny (Lou Taylor Pucci), jovem que sabemos, perderam os seus pais diante do cenário em questão e agora só possuem um carro, alguns mantimentos e a companhia de Kate (Emily VanCamp) e Bobby (Piper Perabo), num grupo que também vai atravessar uma terrível crise depois que a ameaça se tornar mais próxima. Eles atravessam uma estrada deserta e achamos que o caos ainda vai se estabelecer, mas na verdade o problema já está estabelecido. Acostumados com o padrão, a narrativa faz uma curva sinuosa. O clima de road-movie se transforma.

O desespero, a falta de recursos e os infectados ganham espaço visual, apesar de já se manter tecido na malha social de onde os personagens emergem. O primeiro embate que se desdobra em uma parceria é com Frank (Christopher Meloni) e sua filha Jodie (Kiernan Shipka), muito debilitada por causa do vírus misterioso que vai sendo explicitado, sem muitos pormenores científicos, ao passo que a narrativa avança e a morte triunfa. Há várias cenas memoráveis, mas deixo como destaque a condensação do vírus numa breve passagem entre Bobby e Kate no banco de trás do carro, a partida de Frank e Jodie, ele ciente de que o caminho percorrido já não tem mais volta e ela na sua inocente postura de criança, sem entender direito as coisas que acontecem à sua volta. É desolador e angustiante.

Juntos, eles nos permitem o entretenimento reflexivo que levanta questões de vários tipos: e o segmento religioso? Como fica numa era de pandemia? E a família? Sem punição, como as pessoas reagirão na sensação de que podem tudo, sem refletir consequências? E os bens materiais? Qual o significado de um colar de ouro numa situação do tipo? Faz lembrar Despertar dos Mortos, do mestre George A. Romero, salvaguardadas as devidas proporções. E permite também uma leitura marxista em torno do que discute sobre o “fetiche da mercadoria”, pois o as relações sociais mediadas por coisas ganham novos significados num contexto semelhante ao apresentado em Vírus, atmosfera desoladora reforçada pela direção de fotografia ensolarada de Benoit Debie, eficiente também na captação das cenas no interior do carro e noutros momentos de carga dramática exaltada pelos conflitos dos personagens.

Importante reforçar que apesar da exaltação, o filme não recorre aos clichês recorrentes em filmes do tipo. A música nunca é alta demais, numa condução sonora mais clean de Peter Nashel. A maquiagem de Andy Clement colabora com a atenuação de que somos espectadores de um vírus invisível, mas que se torna exposto na forma como se manifesta pelo corpo humano, tomado por manchas avermelhadas e outras erupções, além do sangue expelido pelo corpo através da tosse. Não há, no entanto, um clima gore. Vírus não apela para o excesso. O sangue é utilizado cautelosamente, apenas nas cenas realmente necessárias. Os figurinos de Jill Newell expõem a simplicidade de pessoas com seus trajes urbanos, mediados pela realidade que os cerca, e o design de produção de Clark Hunter trabalha com firmeza no sépia para reforçar o clima de abandono dos espaços cênicos da narrativa.

Sem buscar no didatismo uma alternativa para encerrar os ganchos narrativos desenvolvidos desde o início, Vírus é uma produção pessimista do ponto de vista narrativo, pois reforça o tom circular do horror sem fim vivenciado pelos personagens. Ficar vivo, como exposto, talvez seja a pior forma de morrer. É, no entanto, juntamente com a proposta de entretenimento, um filme para discussão sobre valores ligados à vida em sociedade. Até onde posso ir sem ferir a dignidade e desrespeitar a vontade do outro? Ao levantar perguntas e deixar as respostas em aberto para os seus espectadores, o filme subverte o gênero que utilizou como base dramática e se desassocia das convenções do “cinema pandêmico”. É um acerto e tanto, mais profundo em sua simplicidade que muitas propostas hollywoodianas pomposas.

Vírus (Carriers) — Estados Unidos, 2009
Direção: Àlex Pastor, David Pastor
Roteiro: Àlex Pastor, David Pastor
Elenco: Chris Pine, Christopher Meloni, Dale Malley, Emily VanCamp, Josh Berry, Kiernan Shipka, Lou Taylor Pucci, Mark Moses, Piper Perabo, Ron McClary
Duração: 84 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.