Home QuadrinhosMinissérie Crítica | Visão e Feiticeira Escarlate (1982)

Crítica | Visão e Feiticeira Escarlate (1982)

por Ritter Fan
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Com o casamento do Visão e da Feiticeira Escarlate em 1974, o casal continuou lutando ao lados dos Vingadores por quase uma década, quando, então, decidiram se aposentar do supergrupo e morar em Leonia, uma cidadezinha em Nova Jersey, como seres humanos normais, basicamente tudo o que eles não são. Essa vida caseira deles foi primeiramente retratada em uma minissérie de apenas quatro edições que foi publicada nos EUA entre o final de 1982 e o começo do ano seguinte, com roteiro de Bill Mantlo e arte de Rick Leonardi, além de finalizações de Ian Akin e Brian Garvey.

Com exceção da primeira edição, que é a única que se passa na nova casa dos dois e que os coloca enfrentando o druida Samhain, em sua aparição original, saindo das páginas de um livro medieval de encantos encontrado pelo Capitão América que o entrega à Wanda por intermédio de Jarvis, o fiel mordomo que ajuda o casal a arrumar a nova moradia, as demais edições têm um tema unificado que aborda família, seja ela a do Visão, seja a da Feiticeira Escarlate, com a “chocante” revelação final de que o pai dela e de seu irmão Pietro é ninguém menos do que Magneto, líder da irmandade dos mutantes que, sem saber do parentesco, havia salvo os gêmeos e os recrutado na maléfica equipe.

A primeira edição, portanto, tenta emprestar um mínimo de ar de “normalidade” para Visão e Wanda como um simples casal morando em um subúrbio americano, ainda que isso seja imediatamente desfeito pela presença do druida, uma ameaça que, aqui, é menor e que Mantlo usa muito mais para aclimatar o leitor ao novo status quo do casal. Não é um início particularmente memorável, mas a história funciona minimamente para seus propósitos, especialmente considerando a pegada mais gótica da arte de Leonardi nos lápis.

É na segunda edição, porém, que a temática da família começa de verdade, com uma história contada de maneira não-linear a partir do cliffhanger da edição anterior que revela a chegada de ninguém menos do que Robert Frank, o Ciclone, herói da era de ouro dos quadrinhos da Marvel Comics (antes de ser Marvel Comics) que foi o “primeiro pai” de Wanda e Pietro. Ele, ignorante de que esse parentesco fora desfeito, pede a ajuda de seus filho para tornar-se o guardião de seu terceiro filho, o perigosíssimo Nuklo, internado em um hospital aos cuidados de um médico que se revela como Isbisa, antigo vilão do Esquadrão Vitorioso. O grande chamariz da história é a forma como Wanda mantém a ilusão – para Frank – de que ele é seu pai, além da forma como a narrativa é conduzida, começando quase em seu final, com o que parece ser momentos depois de uma batalha furiosa no hospital, com o Visão com um de seus braços derretidos. Mantlo trabalha bem a história, criando consequências interessantes, ainda que efêmeras para os heróis, mas não para Ciclone que morre de maneira prosaica: de um ataque cardíaco por usar seus poderes já com idade avançada.

O que vem a seguir é a forma como Wanda e os Vingadores encaram o coma em que o Visão acaba entrando em razão da batalha anterior e a perda de seu braço. A história se passa em dois planos, o onírico, na mente do Visão, em que ele enfrenta seu pai Ultron-5 e lida com seus “elementos formativos” (o corpo do Tocha Humana original e os padrões mentais de Simon Williams) e o real, com o próprio Magnum chegando para fazer uma “transfusão” para seu irmão, o que novamente estabelece a temática de família que cerca a minissérie, algo reiterado pela chegada do Ceifador, irmão do Williams original que quer eliminar o que ele considera como duas cópias baratas. Novamente, a história razoavelmente autocontida chama atenção pela estrutura que Mantlo usa e pela excelente arte de Leonardi que consegue equilibrar muito bem a abordagem dos dois planos e a caracterização dos personagens.

Finalmente, de certa forma revelando a razão da própria existência da minissérie, temos a revelação sobre a identidade do pai de Wanda e Pietro, com um começo enigmático em que um “Peregrino Branco” chega em Wundagore para descobrir por Bova sobre os gêmeos deixados sob sua guarda há tanto tempo. Mantlo tenta manter o segredo pelo maior tempo possível, mas a grande verdade é que, pela natureza dos poderes do ser de branco, já fica evidente quem ele nas primeiras páginas, com o restante da história se passando na Lua, em Nova Attilan, com Wanda e Visão visitando os Inumanos para “consertar” o braço do androide e para visitar Luna, filha de Pietro. Apesar de um certo exagero como o poder de Magneto é caracterizado para justificar sua chegada completamente secreta na cidade e a forma como ele cerca um prédio inteiro com um escudo de força impenetrável – ah, conveniências de roteiro… – o final do embate dele com os super-seres funciona muito bem para reunir a filha separada há décadas. Aliás, esse retcon, apesar de simples, foi inspirado e até hoje eu sinto que o retcon do retcon feito pela editora, que afastou Wanda e Pietro da filiação de Magneto e dos mutantes foi completamente inútil e um desperdício de uma boa e lógica premissa.

Seja como for, a primeira minissérie do Visão e da Feiticeira Escarlate, apesar de não exatamente contar uma história única, o que subverte expectativas, consegue ficar acima da média por Mantlo saber contar histórias tematicamente conectadas de maneiras diferentes, sempre mantendo o frescor da leitura de edição para edição. Teria sido sem dúvida melhor se desde a primeira edição, que não deveria contar uma história solta, o roteirista já tivesse salpicado informações sobre o parentesco dos gêmeos, de maneira a criar uma impressão maior de coesão, mas o resultado, mesmo assim, ficou muito interessante, ainda que não particularmente original ou excitante para além da grande revelação final.

Visão e Feiticeira Escarlate (Vision and the Scarlet Witch – EUA, 1982/3)
Contendo: Vision and the Scarlet Witch #1 a 4
Roteiro: Bill Mantlo
Arte: Rick Leonardi
Arte final: Ian Akin, Brian Garvey
Cores: Bob Sharen, George Roussos
Letras: Joe Rosen, Janice Chiang, Diana Albers
Editoria: Mark Gruenwald, Jim Shooter
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: novembro de 1982 a fevereiro de 1983
Editora no Brasil: Editora Abril (Os Vingadores #1), Panini Comics (Visão e Feiticeira Escarlate: Dia das Bruxas)
Data de publicação no Brasil: março de 1988 (Abril) e janeiro de 2021 (Panini)
Páginas: 94

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