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Crítica | Viúva Negra: Beijar ou Matar

por Davi Lima
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Num padrão de dificuldade para roteiristas criarem boas histórias sobre a icônica Viúva Negra, ao menos em seu nome e sua moda de espionagem da década de 70, a tentativa é partir para romances de suspense, perseguições ou sequestros com muita ação. Nesse arco Viúva Negra: Beijar ou Matar a protagonista vira um ato de ação sem conjugação, com uma voz mental de recordatórios, em vista de sua característica de poucas palavras, mas que não se torna em prática efetiva sobre sua personalidade viva. Numa maneira de colocar a personagem em tramas “mais contemporâneas” de morais americanas, jornalistas investigativos e missões impossíveis, que na verdade não sincronizam tempo nenhum, Natasha Romanoff vira uma coadjuvante visual na nona arte nos quesitos dramáticos de impacto, criando apenas uma boneca sexualizada nos traços de Manuel Garcia em um campo ágil de uma leitura comercial.

Com um começo bastante frenético, com diagramação simples, mas com uma força na ilustração de Manuel Garcia para cenas de ação violentas, a história desse arco se torna intrigante pelo excesso de informações em tempos distintos, o clássico ritmo de descascar ovos cozidos. Mais uma vez tratando do estereótipo de Viúva Negra, o jogo sexual de extorsão conceituado na mitológica espionagem da HQ, e também como um recurso narrativo de filmes americanos, chamado Badger Game (quando os espiões sensualizam suas vítimas para arrancar segredos de cargos poderosos de algum estado ou empresa) é a grande armadilha para a protagonista e o fermento da história. Com Natasha participando de uma briga de banheiro e tendo um disfarce de homem bem elaborado, parece bastante com as inspirações de Missão Impossível, em que Natasha se apresenta em seu recordatório para público após já entrar em ação com uma missão retroalimentada por diálogos rápidos e uma antagonista russa vestindo um collant vermelho como Viúva veste seu preto. 

É um arco focado na dinâmica de ação por revelar informações, além de denotar Natasha como analista, detalhando em seus recordatórios os movimentos, sentimentos, no mais alto nível de espionagem. Claramente um voto para uma narrativa de mais fácil acompanhamento que o veterano escritor Duane Swierczynski propõe para o tal título Beijar ou Matar, como um exemplo de produção quadrinesca envolta de um conceito (Badger Game) que determine uma protagonista subserviente ao seu modelo, o que ajuda a história justificar o conflito de alguém imitar Natasha para matar presidenciáveis e governantes americanos. 

Nesse sentido, o segundo ato da história expõe ainda mais esse caráter da escrita de Duane, quando engrena ainda mais questões políticas, como prisões americanas na Polônia, sequestro, mudança de identidade, na básica compreensão da cultura de espionagem do senso comum para aplicar o diferencial temporal que ele curte para a narrativa. A brincadeira recorrente em utilizar os pensamentos de Viúva Negra para contar suas histórias entre os roteiristas de HQ, como Nathan Edmondson fez bem em 2014 com um bom começo lúdico por fora do contexto Vingadores, sempre acaba em tirar a personagem título do centro narrativo. 

Então, mesmo que Duane tenha boas pretensões em analisar tudo espertamente, com comentários, planos B de Natasha e material informativo para o leitor se manter preso, junto com o sexista ângulo de Manuel Garcia, que fica ainda mais constrangedor, tirando qualquer acusação primária para Daniel Acuña quanto a isso em O Nome da Rosa; a conceituação vira contexto, o inverso do que a escritora Marjorie Liu fez em seu arco com Acuña. O discurso de Natasha em recordatórios parece sobrepor a história, como se ela tivesse tudo sobre controle para isso criar imprevisibilidades e interesse do leitor para entender as ordens da narrativa que começa na Polônia para ilustração inicial do segundo capítulo do arco, quando o segundo ato começa mesmo na Virgínia nos Estados Unidos. No entanto, vai se anestesiando o papel de protagonismo da Viúva relegada às definições do jornalista sequestrado chamado Nick. A história vai sendo mais sobre ele para angariar, provavelmente, o público masculino apaixonado pelas curvas de Natasha, assim como Nick sempre parece querer se declarar a ela. Acaba sendo um grande impasse de uma obra bem ritmada, mas em essência é constrangedora quando parece mais interessante para os alívios da HQ é perceber como as nomeações das armas de Viúva Negra são ações orais, como morder e beijar. 

E prevendo cancelamento do Volume 4 de Viúva Negra, o arco Beijar ou Matar só escancara que Nick é o verdadeiro protagonista da história, que finalmente entende que seu pai vice-presidente não é um bom homem, entre outras desconstruções morais digna de um americanismo encarnado, para assim elogiar a espiã russa. Mal se termina a história do arco de Viúva, apenas se joga a trama como uma conexão para um trabalho de Garth Ennis em sua passagem pela linha de quadrinhos do personagem Justiceiro e o selo Max da Marvel no período de lançamento da HQ. Duane, estranhamente, é extremamente competente em desvanecer o título da Viúva Negra para isso. Mercadologicamente esse arco é a prova que a personagem tem dificuldade de se manter com título solo que ultrapasse 18 edições mensais, como aconteceu em 1978. Beijar ou Matar, sendo a finalização do volume 4 de Viúva Negra com 8 edições, é ainda mais pessimista com a figura da espiã russa ao propor uma história que não é sobre ela, e nem mesmo terminar com ela. 

Logo, entre as viagens para variados países, com algumas boas cenas de ação e criatividade do ilustrador Manuel Garcia, especialmente no traço de Dínamo Escarlate, vilão russo e clássico do Homem de Ferro, que junto com a Fantasma aparece apenas para dá um ânimo na missão, uma medida de juntar Fatale e Viúva Negra contra a fonte do jornalista Nick; em verdade, não há muito propósito narrativo, apenas um valete de uma leitura não cansativa. Faz-se uma narrativa cíclica para Fatale e Viúva trabalharem juntas, além de visualizar ângulos machistas junto com as boas colorizações de Jim Charalampidis. Não há o que ler, apenas folhear uma aventura com o título Viúva Negra sem ser de fato sobre ela. O tal Beijar ou Matar indica reversão do “ou” para o “e”, como se assassinasse Natasha, um drama argumentativo para uma HQ sem medo de ser autoconsciente, mas infelizmente digna de ser esquecida.

Viúva Negra: Beijar ou Matar (Black Widow: Kiss or Kill | EUA, 2011)
Contendo: Viúva Negra Vol. 4 #6-8
Roteiro: Duane Swierczynski
Arte: Manuel Garcia
Cores: Jim Charalampidis
Letras: Nate Piekos
Páginas: 96

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