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Crítica | Viúva Negra (Sem Spoilers)

por Ritter Fan
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Sem dúvida alguma, a Marvel Studios demorou tempo demais para bancar um filme solo da Viúva Negra e, como se isso não bastasse, a pandemia ainda fez o favor de atrasar a estreia por mais de um ano, criando um intervalo de mais de dois anos entre filmes, algo que, no Universo Cinematográfico Marvel, só chegou próximo de acontecer lá atrás, entre O Incrível Hulk e Homem de Ferro 2. Mas, como dizem muito acertadamente, antes tarde do que nunca e, mesmo considerando que a personagem está morta no presente da série de filmes, o que sem dúvida tira um pouco do peso da narrativa, é alvissareiro notar que o roteiro de Eric Pearson, que co-escreveu Thor: Ragnarok depois de criar diversos curtas da franquia, funciona muito bem como um longa que mescla história de origem, evolução de personagem, expansão de mitologia e, claro, passagem de bastão.

Depois de um interessantíssimo e muito agitado prelúdio alongado em 1995 em que somos apresentados à pequena Natasha (Ever Anderson) e sua irmã mais nova Yelena (Violet McGraw) tendo suas vidas viradas de cabeça para baixo quando seus pais, Alexei (David Harbour) e Melina (Rachel Weisz), precisam fugir dos EUA por serem espiões russos, o espectador é levado para o momento temporal mais relevante do longa, ou seja, logo  após os eventos de Capitão América: Guerra Civil, com a agora bem adulta Natasha Romanoff (Scarlett Johansson) tendo que desaparecer depois de trair o Team Iron Man e passar a ser caçada pelo Secretário de Defesa Thaddeus Ross (William Hurt). Ao tentar esconder-se na Noruega com a ajuda de seu extremamente prestativo amigo Rick Mason (O-T Fagbenle), ela é violentamente atacada pelo misterioso Treinador (não posso colocar a indicação de ator aqui para evitar spoilers), emissário do mítico Quarto Vermelho, centro russo de treinamentos de espiãs, o que a leva a uma frenética investigação que a faz revisitar todo o seu conturbado passado.

O que é realmente bom do texto de Pearson é que ele não inventa moda e sim apenas constrói em cima do pouco que já conhecíamos da Viúva Negra, o que, claro, lhe dá amplo espaço de manobra, mas sem que ele se esquive de esclarecer mistérios como a missão em Budapeste em que Nat e o Gavião Arqueiro atuaram e que é já foi mencionada algumas vezes no UCM. Por outro lado, talvez justamente por não querer reinventar a roda, o roteirista segue um caminho consideravelmente linear depois que chegamos ao presente do filme. Linear e óbvio, devo ser sincero, bem naquela batida linha de reunir as peças humanas de um quebra-cabeças familiar, o que, claro, inclui reatar conexões com sua irmã, agora também uma Viúva Negra, interpretada por Florence Pugh. No entanto, o caminho previsível – nunca um problema para mim em havendo lógica interna, não canso de repetir – da narrativa funciona bem porque adiciona um bem-vindo drama à vida de Natasha e por Johansson e Pugh funcionarem confortavelmente juntas logo de imediato.

Também ajuda muito que a direção da australiana Cate Shortland, pela primeira vez lidando com uma produção de orçamento gigante, não se perde em meio à pancadaria, nem mesmo quando ela alcança níveis estratosféricos na longa sequência climática no tal Quarto Vermelho. Sim, sem dúvida alguma a diretora luta contra provavelmente o que seria natural, ou seja, picotar a narrativa até tornar tudo visualmente ininteligível, resultando em momentos que surpreendem pela clareza e tranquilidade relativa mesmo em meio a socos, chutes, facas e muitas balas, algo que por vezes rivaliza alguns dos melhores momentos da franquia Missão: Impossível. A coreografia das lutas físicas também merece comenda, algo que é particularmente visível quando Natasha enfrenta o Treinador em uma ponte e quando ela encara sua irmã já crescida pela primeira vez.

Mas o melhor de Shortland é que a cineasta sabe, em meio à ação ininterrupta, fazer o filme respirar um pouco, sem perder o ritmo, para dar voz ao sofrimento e a culpa que Nat sente quando todo seu passado vem literal e metaforicamente atacá-la com força total. O drama da menina transformada em uma máquina de matar é onipresente e ganha contornos bem mais claros aqui, amarrando a história da heroína e dando estofo ao seu passado. Eu poderia dizer o mesmo do lado de Yelena, mas o show é merecidamente de Natasha mesmo, com a irmã mais nova, mesmo com grande destaque, abrindo espaço para a agente ruiva. A câmera da diretora tenta, na medida do possível quando o puro drama do passado é o foco da história, emprestar uma pegada mais realista aos diálogos, trabalhando inclusive sequências mais alongadas, algo que a fotografia mais crua de Gabriel Beristain ajuda a enfatizar.

Diria apenas que a sucessão de pequenas reviravoltas e revelações que acontecem no escritório do grande vilão, o General Dreykov (Ray Winstone), é um pouco exagerada e descompassada em relação ao restante do filme. Não que sejam grandes segredos ou coisa parecida, pois meu ponto é mais na quantidade de momentos “ahá” que vão acontecendo um atrás do outro, com as sequências paralelas de ação tendo, com isso, pouco tempo para serem devidamente exploradas. Ficou parecendo que Shortland, mesmo considerando a duração razoavelmente avantajada do filme (mas que passa rápido), só tinha a opção de alongar uma das pontas. Ou ela expandia a mitologia da protagonista ou ela trabalhava um clímax bem longo, sem uma opção meio-termo que, tenho para mim, estava ali em algum lugar (a outra hipótese, claro, seria fazer uma minissérie, que poderia funcionar muito bem, aliás).

Mas eu entendo essa escolha. Viúva Negra é um filme que veio tarde e, por isso, provavelmente é a última oportunidade de ver Scarlett Johansson em seu inesquecível papel no UCM, pelo que era necessário colocar tudo nesse único tiro disponível. E, tenho que reconhecer, na grande maioria das vezes esse tiro acerta em todos os alvos em que mira, servindo como uma bela despedida para a atriz e sua personagem.

Obs: Há uma cena pós-créditos relevante para o futuro razoavelmente imediato do UCM.

Viúva Negra (Black Widow – EUA, 09 de julho de 2021)
Direção: Cate Shortland
Roteiro: Eric Pearson (baseado em história de Jac Schaeffer e Ned Benson)
Elenco: Scarlett Johansson, Florence Pugh, David Harbour, O-T Fagbenle, Olga Kurylenko, William Hurt, Ray Winstone, Rachel Weisz, Liani Samuel, Michelle Lee, Nanna Blondell, Ever Anderson, Violet McGraw
Duração: 133 min.

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