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Crítica | Viva e Deixe Morrer, de Ian Fleming

por Kevin Rick
371 views (a partir de agosto de 2020)

Depois do existencialista, trágico e divertido Cassino Royale, no qual Ian Fleming apresenta James Bond como um espião falho e “humanizado”, divergindo bastante do que é visto nas adaptações do personagem, o autor continuou sua célebre série literária com Viva e Deixe Morrer, uma obra que mantém o estilo realista visto nas batalhas de baccarat do primeiro livro, mas que assume uma história mais aventureira e megalomaníaca, bem próximo do que estamos acostumados com a franquia cinematográfica do 007.

Bond é enviado aos EUA para um trabalho em conjunto com a CIA e o FBI, em relação a várias moedas de ouro que estão surgindo no mercado americano, que os serviços de espionagem acreditam datar do século 17, como parte do tesouro perdido do pirata Morgan, o Sanguinário. A inteligência do Serviço Secreto Britânico supõe que o tesouro está sendo usado para financiar o comunismo nos EUA, e que as moedas de ouro estão sendo contrabandeadas de uma ilha jamaicana para a Flórida pelo Mr. Big, um poderoso gângster do Harlem, que também é o líder de um culto voodoo e membro da SMERSH, organização espiã soviética que antagoniza Bond no primeiro livro.

A premissa é simplesmente sensacional, e Ian faz um belíssimo trabalho introdutório à missão. Primeiro que sua bagagem como espião é muito bem vista na maneira que o autor constrói o contexto político e histórico da Guerra Fria, mas, aqui, foge um pouquinho da rixa capitalismo x comunismo, e trabalha mais o relacionamento entre Estados Unidos e Reino Unido. Além de que o serviço conjunto das agências, novamente respaldado por experiências reais de Ian, oferece um interessante olhar ao leigo sobre os funcionamentos e abordagem de cada agência de segurança. Há um certo cinismo dos britânicos, um patriotismo do FBI e a moralidade dúbia da CIA, e o fato do autor trazer Felix novamente, deixa a dinâmica entre os diferentes Serviços Secretos ainda mais divertida.

Outro ponto alto do livro – o meu favorito, aliás – é o vilão Mr. Big, que diferente de um Le Chiffre, que exerce seu antagonismo de um jeito mais mental e lógico com o jogo de cartas, o gângster assume características mais comuns de um vilão de Bond, maligno, impactante e, aqui, até místico. Seus subalternos e seguidores veem Mr. Big como uma reencarnação do zumbi vodu Barão Samedi, um espírito extremamente temido na religião vodu haitiana. E essa presença do antagonista é sentida durante toda a leitura, num exercício criminal e sobrenatural de Ian na caracterização do personagem, o que realmente engrandece a atmosfera e o nível de periculosidade da missão, pois a prosa muitas vezes poética do autor cria uma macabra influência do gângster na narrativa.

O grande problema da obra reside no desenvolvimento dos ótimos elementos iniciais, pois o escritor se envereda num estranho caminho para o arco de Bond e na ambientação da aventura. Toda a construção intimista do protagonista em Cassino Royale é jogada pela janela, com o personagem assumindo por completo seu papel de super masculinidade, já somado ao seu relacionamento com a bond girl da vez, Solitaire, uma mulher descaracterizada de qualquer traço interessante visto em Vesper Lynd no primeiro livro, sendo sua típica interesse romântico meio burrinha, descartável e esquecível. E o próprio Ian tem um abordagem, mesmo pensando no contexto dos anos 50, bastante misógina e racista na descrição de mulheres e negros, que, com exceção de Mr. Big, são receptáculos de péssimos estereótipos preconceituosos que realmente provocam desconforto no leitor.

Ainda que esses diálogos sejam “passáveis” pelo contexto do período e tudo mais, e também não atrapalham a narrativa em si, é um tanto estranho a abordagem de Ian, que já no primeiro livro tinha esses problemas em menor tamanho. Além desse quesito, o autor regredi no ritmo das aventuras do 007, pois enamora-se enfadonhamente com as paisagens do Caribe em longos parágrafos sobre a cor da folha da bananeira da praia melancólica. Isso retira o leitor da atmosfera constantemente, e o fato de Mr. Big, de longe o melhor personagem da obra, ter poucos segmentos na história, tornam a experiência de Viva e Deixe Morrer um tanto quanto chata.

Felizmente, o teor mais megalomaníaco da ação consegue manter a narrativa com boa qualidade, dispondo de várias sequências divertidas de SCUBA Diving, cenas de escapismos marítimos e perseguições no Harlem que passam um belo cenário frenético à obra, relembrando as adaptações mais malucas do 007 da melhor forma possível. Além disso, a intriga da espionagem sai de cena ao longo do livro, mas Ian mantém uma boa pegada realista a partir de consequências das missões, especialmente com Felix, em um âmbito derrotista que sustenta em certa medida a atmosfera de Cassino Royale.

Ian Fleming definitivamente perde um pouco a mão na sua série literária, largando o bom arco de Bond e descrevendo cenários com uma escrita detalhista aborrecedora e de quebra de imersão. Mas existem bons elementos em Viva e Deixe Morrer que não deixam a obra cair na mediocridade, desde o ótimo vilão, a premissa instigante, a atmosfera mística macabra e o senso de limite da ação expandido em divertidos segmentos bem malucos. Ainda assim, fica aquela sensação ruim que o autor regrediu no desenvolvimento da série e de seu protagonista.

Viva e Deixe Morrer (Live and Let Die) — Reino Unido, 1954
Autor: Ian Fleming
Editora original: Jonathan Cape
Edição lida para esta crítica: Alfaguara; 1ª edição (19 julho 2013)
Tradução: Roberto Grey
232 páginas

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4 comentários

Rafael Lima 22 de abril de 2021 - 02:26

Nesse livro, Fleming é mais parecido com o que o cinema nos ensinou a esperar do Bond mesmo. Claro, ainda é uma aventura bem pé no chão, mas já dá uma abraçada maior na natureza mais fantástica do agente. O Bond aqui é mais “indestrutível” do que a versão mais humanizada e falível “Cassino Royale”, mas Flemming iria transitar entre essas duas leituras de 007 de romance pra romance (pelo menos dos que eu lí). E sim, tem um “quê” meio racista no tratamento dos personagens negros da obra, o que também me chamou a atenção negativamente na época.

Mas no geral, é uma leitura bem divertida.

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Kevin Rick 22 de abril de 2021 - 05:18

Também achei uma leitura divertida em certos momentos, mas é um tanto quanto estranho a abordagem do autor aqui se comparada com Cassino Royale. E nem falo da pegada mais fantástica da missão em si, mas de como Bond deixa de ser um personagem cheio de camadas, assumindo todos os esteriótipos ruins do 007. E, nossa, Ian exagera na descrição de paisagens viu hahahaha

Dito isso, quando tem ação e quando Mr. Big está em evidência, é uma leitura bastante divertida. Ainda consegui ter uma experiência boa, mas confesso que me decepcionei um pouco. Fico feliz de saber que ele transita no estilo de livro pra livro.

Abraços, meu parceiro!

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Rafael Lima 22 de abril de 2021 - 15:38

Essa questão da descrição das paisagens é uma faca de dois gumes na literatura do Flemming. Em alguns como “007 A Serviço Secreto de Sua Majestade” a descrição das paisagens é excelente, vide o seu retrato dos alpes suiços, que é extremamente rico e só ajuda a atrair e situar o leitor dentro daquela ambientação. Em contrapartida, em obras como “Com 007 Só Se Vive Duas Vezes”, tinha momentos em que eu me sentia lendo um guia turístico de Tokio e das ilhas japonesas. kkkkk.

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Kevin Rick 23 de abril de 2021 - 23:55

Kkkkkkkk esse eu me senti mais pro lado guia turístico. Especialmente ali na Jamaica.

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