Crítica | Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro

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estrelas 5,0

__ Mas, explicou o cego, a História não é só essa que está nos livros, até porque muitos dos que escrevem livros mentem mais do que os que contam histórias de Trancoso. […] Além disso, continuou o cego, a História feita por papeis deixa passar tudo aquilo que não se botou no papel e só se bota no papel o que interessa. […] Alguém que roubou escreve que roubou, quem matou escreve que matou, quem deu falso testemunho confessa que foi mentiroso? Não confessa. Alguém escreve bem do inimigo?  Não escreve. Então toda a História dos papeis é pelo interesse de alguém.

Lançado em 1984, Viva o Povo Brasileiro é um dos retratos histórico-fictícios mais notáveis de nossa literatura, a epopeia de um povo que acompanhamos de 20 de dezembro 1647 até 7 de janeiro de 1972, uma jornada concebida pelo baiano João Ubaldo Ribeiro, membro da Academia Brasileira de Letras morto em 2014.

Ao longo dos anos, João Ubaldo Ribeiro refutou a ideia de que este livro seria um romance histórico, mas fica difícil não fazer esta relação, dada a estrutura geral de construção dos personagens — a obra mescla indivíduos reais e fictícios –, os acontecimentos históricos mais marcantes do Brasil e, principalmente, a abordagem de cunho nacionalista que propõe um diálogo satírico e irônico (nunca excluindo passagens fantásticas, messiânicas e até surreais) com as mentalidades da nossa sociedade.

Não vou cair na armadilha de dizer que a obra “opõe elite e povo” ou a “mentalidade dominante e a mentalidade dos excluídos“, como se a obra fincasse pé em um discurso de defesa das classes menos favorecidas e propusesse uma revolta contra a ‘História dos vencedores’. Ribeiro cansou de dizer em entrevistas que “nunca passou por sua mente escrever uma coisa dessas” [referindo-se ao olhar do Brasil pela ótica dos excluídos], mas isso não quer dizer que a obra também não apresente, dentro da variedade de comportamentos, esta exata abordagem. Conseguem perceber a diferença? Ela não é focada em um único propósito ou tendência, mas as muitas tendências fluem na obra à medida que o tempo passa e os personagens envelhecem, morrem e são substituídos pelas novas gerações.

Há sim interferência por parte do autor na configuração dos discursos da elite, geralmente tratados com esnobismo ou crueldade caricata, mas o livro não é panfletário no sentido negativo da palavra. A obra explora as raízes, a formação (ou uma parte dela) e os pequenos frutos de uma sociedade que não é una, nunca foi, mas sim grandiosamente diversificada, lutando, em dado momento de sua história, para conseguir uma unidade social, política e cultural que na realidade nunca veio.

A partir da história do alfres José Francisco Brandão Galvão, Ribeiro nos leva por uma viagem não cronológica através da História do Brasil, resgatando valores e hábitos dos habitantes da Ilha de Itaparica, cenário onde a maior parte da ação se passa, e outros espaços como o Recôncavo Baiano, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Lisboa. Trabalhadores, pseudo-heróis, religiosos, comerciantes, políticos, militares, todos ganham espaço na narrativa, e como um caminho natural do homem, as histórias individuais são aventuras de busca, sempre interrompidas pelo sonho do outro indivíduo, criando o contraditório e complexo ciclo de status e ordem social, de civilização e de lutas em sociedade.

O desfile dos tipos brasileiros e a análise e recepção dos discursos de ordem e rebeldia que alguns personagens representam a parte ideológica, também plural e tratada com ironia mista de seriedade, dando a oportunidade para o autor representar com verossimilhança cada espaço social, investindo em variações no uso da língua portuguesa, da História oral, da História escrita e da memória histórica.

Ler Viva o Povo Brasileiro é também fazer uma viagem antropológica pela História do Brasil. Estão aqui dissecados, narrados com precisão (na maioria dos casos), entrelaçados por uma visão que vai da utopia e do mito à melancolia, despolitização ou domínio ideológico pela força, alguns eventos como a catequese dos índios e invasão dos Holandeses no Brasil Colônia; as revoltas sociais na Bahia e no Rio de Janeiro; a vinda da Família Real e a Independência do Brasil; o Segundo Reinado; a Guerra dos Farrapos e a Guerra do Paraguai; a Lei Áurea; a Proclamação da República; o Cangaço; a Guerra de Canudos; o Governo Vargas e o Golpe Militar de 1964, todos com seu quinhão de micro-História para nos divertir.

Viva o Povo Brasileiro é uma narrativa pessoal e simbólica que se assume como tal e que, diferente de muitas narrativas nesse modelo, dá oportunidade para o leitor ver as outras faces da mesma realidade, como se estivesse reafirmando o título, celebrando um povo inteiro pelas suas muitas caras, um povo diverso e curioso que, como qualquer outro povo, sempre ansiou por alguma coisa. E que, vez ou outra, dá empurrões no andamento da História do país com uma tentativa de tornar a vida melhor para todos. Se isso funciona ou não, se isso será positivo no futuro ou não, só o tempo poderá dizer. E então, outra geração do mesmo povo terá de lidar com as consequências de um ato histórico do passado. Esta é a sina não só do povo brasileiro, mas também da espécie humana, após iniciar o seu convívio em sociedade.

Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro (Brasil, 1984)
Autor: João Ubaldo Ribeiro
Editora: Nova Fronteira
Páginas: 706

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.