Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | Viver e Morrer em Los Angeles

Crítica | Viver e Morrer em Los Angeles

por Fernando JG
431 views (a partir de agosto de 2020)

Viver e Morrer em Los Angeles me confirma a ideia de que o Willem Dafoe nasceu para fazer filmes temáticos das décadas de 80-90. Quando assisti ao O Dono da Noite, Dafoe estava metido em um esquema de drogas e criminalidade, com toda aquela pompa atmosférica da década de 90, com luz vermelha, muito jeans azul claro, a rádio tocando só as mais românticas no estilo Fulton Street, e ele, obviamente, dominando toda a situação com a malandragem típica que ele tem. Dafoe é sempre um ótimo vilão, e aqui não é diferente. Em To live and Die in L.A, ele tem uma atuação impecável. Começo destacando a atuação de Willem Dafoe pois ele, certamente, sabe o que está fazendo. No filme de Wim Wenders, Tão Longe, Tão Perto (In weiter Ferne, so nah!), o homem também atua no papel de um anjo vilão e é incomparável. Gosto das vilanias dele e da verossimilhança que ele transmite.

Um filme policial carregado de fugas alucinantes, violência, corrupção e uns romances bem cretinos e carnais, o longa de William Friedkin – que, além de ter dirigido um dos melhores filmes da história do cinema, O Exorcista, já tinha cravado seu nome com a melhor direção por Operação França no Oscar de 1971 – é uma produção de altíssima qualidade com um roteiro que dispensa comentários. Da primeira à última cena a ação é o que move a trama. É um homem-bomba que se explode; fugas a pé; perseguição em aeroporto e outros desesperos parecidos com estes. A violência não é sempre explícita, e nem sempre é gratuita, mas ela ocorre em momentos-chave da história, e te choca pelo que acontece, quando você menos espera. 

A trama é simples mas é imbricada de acontecimentos que se cruzam a todo momento. Afinal, em se tratando de redes de crime, o filme, estilisticamente, também busca esse labirinto de perguntas e respostas. Um agente secreto do Estado, Richard Chance (William Petersen) trabalha como investigador infiltrado na sociedade. Quando em um dia de trabalho o seu amigo policial é assassinado por um mero acaso, por estar na hora e no local errado, Richard vai em busca do mandante e se depara com a figura de Rick Masters (Willem Dafoe), um falsificador dono de quadrilha, um bandido procurado há muito tempo pelo FBI. E então tem início a trama de gato e rato. A partir disso, Richard lança mão dos meios oficiais e age conforme sua própria vontade, caminhando da justiça para a vingança, e vice e versa. 

O que chama a atenção é a segurança da direção na condução do filme. É visível que Friedkin assume os riscos de cair no clichê, e justamente por assumir o risco é que ele não cai no lugar-comum. Apesar de vários filmes seguirem a mesma fórmula, o toque de identidade do diretor é o que sustenta a sua originalidade. A ambientação do filme é impecável e te leva para um estado nostálgico através da atmosfera, das luzes características e da trilha sonora composta pela banda da novíssima onda inglesa Wang Chung. A banda, que compôs o álbum chamado também To Live and Die in L.A, traz uma força incrível para a trama. 

Um filme que representa a potência do neo-noir norte-americano, com boas doses de suspense, a película traz um roteiro que flerta com o surrealismo, ainda que distante. Lembrei-me invariavelmente do noir lynchiano, principalmente na cena em que a posição da câmera dá a entender que o personagem de Willem Dafoe beija um rapaz. O jogo de câmera nesta cena é inacreditável, e logo em seguida a câmera faz um meio-giro e revela-se que, na verdade, é a sua ficante, colocando em jogo a questão da perspectiva dentro do cinema. Falando em relações, o modo com que Richard utiliza de sua posição policial para se aproveitar de lindas mulheres, em situação de liberdade condicional, para atrair seus alvos, é de uma canalhice absurda, seduzindo-as e as ameaçando para atingir seu fim. 

As paisagens da famosa L.A aparecem aqui realçadas de sentido e escondem o que há por trás de toda a beleza da cidade dos anjos: corrupção, tristeza, crime, vício. Nem por isso este é um filme de drama. De fato, o grande trunfo e a grande aposta fílmica são as perseguições. Em todos os atos têm cenas arrebatadoras: mas destaco o terceiro ato, momento este em que o filme ganha o espectador, colocando uma perseguição na Avenida Principal – na contramão!! -. Uma cena memorável dentro do cinema noir, que arrepia pelo risco iminente de um acidente fatal. 

Uma produção que tem como característica estilística a velocidade, o excelente longa de William Friedkin acontece sem dar um descanso, suspendendo por aquilo que a arte cinematográfica tem de melhor: a ficcionalização da realidade. É graças a isso que ele pôde dar ao seu filme um ar inflado na ação. E como dá certo! Uma sessão que vale a pena, sobretudo pelo elenco, To Live and Die in L.A é uma maravilha policial para se assistir a qualquer momento. 

Viver e Morrer em Los Angeles (To Live and Die in L.A, EUA, 1985)
Direção: William Friedkin
Roteiro: William Friedkin, Gerald Petievich (baseado no romance homônimo de Gerald Petievich)
Elenco: William Petersen, Willem Dafoe, John Pankow, Debra Feuer, John Turturro, Darlanne Fluegel, Dean Stockwell.
Duração: 116 min.

Você Também pode curtir

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais