Crítica | Você – 1ª Temporada

“Eu não me meto na vida das pessoas.”

Criada pela Lifetime e comprada pela Netflix, Você mostra uma competente consciência de estudo de personagem já em seus primeiros episódios. Quase que de imediato, o programa impulsiona uma confusão emaranhada entre vários sentimentos possíveis ao espectador em relação aos seus protagonistas. As tantas piscadinhas ao público, entre sacadas metalinguísticas e contradições na narração, retratam ironias inerentes aos casos retratados, que são acidamente enxergados de um modo romântico pelo seu personagem central. Durante uma citação a Frankenstein, de Mary Shelley, por exemplo, o gerente de uma livraria Joe Goldberg (Penn Badgley) comenta sobre uma ruptura com o maniqueísmo obrigatório aos antagonistas. O monstro seria um monstro completamente ou em parte vítima? O constante voice-over, margeando uma conexão ainda mais próxima do jovem com o público, é uma amostra da perversidade que a série quer que seus espectadores confrontem e percebam presente até mesmo em um relacionamento para os sonhos.

Cada ar que a desconhecida escritora Beck (Elizabeth Lail), ainda cursando a universidade, tomar, cada movimento que ela fazer, cada passo que ela dar, Joe estará olhando-a. Essa é uma série que quer realmente mexer com a narração que propõe, com o protagonismo que primeiramente propõe, questionando-o tempo todo. Você nos incita a uma angústia inexorável às ações tomadas por esse “príncipe encantado”. Mas se a obsessão era romântica na canção do The Police, por que não é mais romântica agora? Penn Badgley, como meio para a originalidade do seriado, é um artista evidenciando-se como mestre na sedução das pessoas, usando e abusando das palavras para que as mesmas estejam ao seu favor. O texto é quase uma confissão auto-indulgente de seu próprio personagem. E tudo precisa iniciar-se como uma justificativa. E tudo precisa encerrar-se com um porquê. Joe Goldberg é o garoto intelectual, que já leu milhares de livros, não possui redes sociais e não se importa com as superficialidades da vida. É o homem dos sonhos de qualquer um.

Mas não existe super-heróis. Os românticos salvadores são tão quebrados quanto os antagonistas, senão mais. Como Beck está inserida em um meio supostamente “cancerígeno”, com pessoas de isopor e relacionamentos mentirosos, Joe enxerga-se no absoluto dever de resgatá-la desse mar tóxico. O acaso é interrompido pela premeditação, repetidamente exposta pelos voice-overs. Essa prepotência é uma marca do personagem, que se encaminha até mesmo ao espectador, enfrentando constantemente um aparente altruísmo desse “herói”. “Eu não me meto na vida das pessoas”, comenta o personagem quando sua “amada” sugere uma interferência na vida de moradores vizinhos, principiada por um alcoólatra e mais disfuncionalidades amorosas. Enquanto o protagonista confronta um ex-namorado da sua paixão à primeira vista, joga na cara do garoto coisas que poderiam ser tranquilamente associadas a si mesmo. E “maníaco” é justamente o adjetivo que a garota usa para brincar com Joe. O espectador é incentivado a repensar esse amor.

Justo que o maniqueísmo não seja exacerbado, mesmo com a subversão de protagonismo. Os roteiristas, um grupo composto por muitas mulheres aqui, sugestionam vários desvios de personalidade, até mesmo na maldade costumeira, mas que nunca é vista como maldade costumeira. Nesse ponto o roteiro é um pouco fajuto, usualmente implicando algumas verdades na narração que mostram ser mentirosas posteriormente. Por que Joe clama o tempo todo não ser um assassino, mas a condução nunca expõe essa informação como parte do processo de recriação de uma máscara para si mesmo? O relacionamento com um menino entusiasta de literatura, ao mesmo tempo, possui essa função de evidenciar uma série menos preto no branco. Assim como, paralelamente a isso, as interações premeditam ao jovem ser uma cópia futura do protagonista, a enxergar relacionamentos de modo controlador e possessivo. Eis um modo mais sagaz para retratar questões que também são exploradas nos flashbacks da série, sobre as causas primeiras.

Esse competente interesse que o espectador encontra na série, no entanto, é minimizado por conta de um andamento problemático, com vai-e-vens que não agregam ao conjunto, muito pelo contrário, até mesmo diagnosticando uma conclusão contraditória para uma empreitada sobre heróis que são vilões. Um abraço entre amigos que agora devem se despedir, numa cena derradeira, é passivo. O personagem principal perde a recorrente malícia com que os roteiristas o embutiram no começo da série, passando por uma desconstrução genérica de personalidade e que acaba precisando de uma manivela narrativa óbvia para conseguir concluir-se em monstruosidade, como outrora ansiaram os responsáveis pelo seriado. O gancho do nono episódio para o décimo mostra, com isso, uma pobreza narrativa extrema, sem conseguir consolidar a proposta de Você. Consequentemente, a conclusão é uma contradição discursiva que repete esquemas. Uma vontade cíclica, que é incoerente com a jornada emocional conduzida no passado, não é certeira.

E uma das ideias mais interessantes que Você apresentou era, coincidentemente, a mudança do ponto de vista do protagonista para o ponto de vista da garota. As construções irônicas anteriores se desmontam em uma reiteração sobre o que significa aquele relacionamento, enquanto, no passado, a série igualmente abraçava uma juventude de fachada para supor uma superioridade mentirosa de caráteres. A riqueza some. Ademais, em questão de prosseguimento, essa é uma temporada que se constrói em blocos, ao menos depois que encontra certas resoluções para a amizade entre Beck e Peach (Shay Mitchell). Mithcell encarna uma personagem que consegue complementar a abordagem feita ao protagonista. Depois disso, o gosto amargo na boca não provoca mais nada, senão descontentamento, pois o que era para ter sido impactante já havia sido impactante. O que sobra é o desfecho mequetrefe e um personagem que se mantém o mesmo, partindo do seu início e concluindo-se com o seu fim. Uma acidez que acaba sendo até amenizada.

Você (You) – 1ª Temporada – EUA, 2018
Criado por: Greg Berlanti, Sera Gamble
Direção: Lee Toland Krieger, Marcos Siega, Vic Mahoney, Marta Cunningham,  Kellie Cyrus,  Erin Feeley,  Martha Mitchell
Roteiro: Greg Berlanti, Sera Gamble, April Blair, Michael Foley, Neil Reynolds, Adria Lang, Amanda Zetterström, Caroline Kepnes, Kelli Breslin
Elenco: Penn Badgley, Elizabeth Lail, Luca Padovan, Zach Cherry, Shay Mitchell, Ambyr Childers, Daniel Cosgrove, John Stamos, Reg Rogers, Natalie Paul
Duração: 10 episódios de 45 min, cada

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.