Crítica | Você Gosta de Hitchcock?

O legado de Alfred Hitchcock, impresso em produções cinematográficas de cineastas que se dedicaram ao seu estilo para manipular o terror psicológico e a tensão é uma obviedade para quem entende o mínimo de história e linguagem do cinema. Trata-se, por sua vez, de uma obviedade necessária para compreendermos determinados filmes de suspense. A lista de realizadores dedicados ao projeto de imprimir algo hitchcockiano em seus filmes é extensa e nem mesmo uma tese de doutorado consegue dar conta de analisar todas as referências, releituras e plágios oriundos do conjunto da obra do mestre do suspense.

Apenas como provocação preambular, deixo como lembrete as paródias aos clássicos Intriga Internacional, Um Corpo Que Cai e Os Pássaros em Alta Ansiedade, de Mel Brooks, as abordagens de Roman Polanski na estruturação dramática e estética de O Escritor Fantasma e Busca Frenética, tramas que emulam O Homem Errado e O Homem Que Sabia Demais, respectivamente, realizadores de estilos e escolhas bastante particulares, semelhante ao longo caminho percorrido pelo italiano Dario Argento, um esteta de primeira linha, sem o mesmo prestígio e reconhecimento crítico dos citados anteriormente, mas nome garantido para a posteridade da historiografia da crítica cinematográfica.

Você Gosta de Hitchcock? Eis a pergunta que nomeia a produção da análise em questão, telefilme que permitiu ao cineasta de Prelúdio Para Matar, Suspiria, O Gato de Nove Caudas, Quatro Moscas sobre Veludo Cinza e O Pássaro das Plumas de Cristal, dentre outros, flertar com diversos filmes de seu mentor cinematográfico, em especial, a base de Janela Indiscreta. No desenvolvimento da narrativa, Dario Argento se deleita com as possibilidades estéticas da linguagem do cinema, delineia as obsessões presentes em todos os seus filmes e ainda mexe com as expectativas do público, algo que aprendeu bem nas lições fornecidas por seu mestre, bem como diante das “figurinhas” trocadas com o “colega” Brian De Palma.

Não faltam, por sua vez, referências gerais ao conteúdo hitchcockiano. No filme, Giulio (Elio Germano) é um estudante de Cinema que desenvolve uma tese sobre o Expressionismo Alemão. O seu perfil dramático é representado nas três dimensões, físicas, psicológicas e sociais, tendo como foco a paranoia exaltada diante de suas práticas sociais, em especial, a frequência contínua na locadora de filmes, espaço que representa a postura cinéfila dos demais personagens e do próprio cineasta realizador. Não faltam tomadas com estojos de filmes famosos como plano de fundo: O Exorcista, Psicose, Maratona da Morte, etc. A direção de arte, parte integrante do design de produção assinado por Valentina Fenoni e Francesca Bocca, capricha não apenas neste ambiente, mas também no quarto do protagonista, adornado por diversos cartazes de filmes. Os filmes? A maioria, clássicos de Hitchcock.

A sua rotina ganha novos rumos quando começa a bisbilhotar a vida alheia. É quando se depara com a bela Sacha (Elisabetta Roshletti), jovem que sabe que a sua intimidade deixou de ser parte da vida privada com os olhares de desejo do estudante de cinema. O desejo e a admiração, sentimentos oriundos da prática voyeur mudam quando o rapaz se torna testemunha do assassinato da mãe da moça que anteriormente, havia digladiado com a filha, tornando-a uma possível suspeita. Para piorar a situação, noutro momento, o rapaz tenta flertar com a misteriosa vizinha, mas perde lugar para outra mulher. Quando elas se encontram pela primeira vez, Sacha indica Pacto Sinistro para a recém-conhecida. Como reagir diante de tudo?

Suspeitar, no mínimo, surge como primeiro verbo a ser conjugado. Basta lembrar que no filme citado, dois homens conversam sobre a troca de posição no assassinato de pessoas indesejadas em suas jornadas. Some a tudo isso um subtexto homossexual feminino, característico do desenvolvimento de Festim Diabólico. O pastiche hitchcockiano está à mesa. Neste caso, na tela, para o consumo dos cinéfilos que conhecem e refletem sobre as apropriações de Argento diante dos filmes de Hitchcock, referencial que ganha olhar e estilo próprio, não sendo mera cópia do material alheio, algo muito comum em outros nichos de produção, em especial, em alguns exemplares da cinematografia hollywoodiana.

O grande jogo de Argento está na especulação das aparências e na obsessão diante da imagem, algo que inclusive foi antecipado por Michael Powell em A Tortura do Medo, uma das certidões de nascimento do slasher. Com a morte da mãe de Sacha, Elio não sente firmeza na investigação do Inspetor (Edoardo Stoppa), incompetente, ineficiente e sem “visão”, tal como os policiais de Frenesi. É a sua desculpa para seguir com a investigação. Há a cena de perseguição de uma das garotas misteriosas, num jogo de imagens com alusão ao clima de Um Corpo Que Cai. Mais adiante, uma cena de banho traz o deslizar da cortina do chuveiro, semelhante ao deslumbrante conjunto de planos de Psicose, além do desfalque numa empresa que lembra o filme de Norman Bates e alguns traços de Marnie – Confissões de Uma Ladra.

Mesmo com uma namorada firme, Elio cobiça algo que vai além das suas possibilidades. A moça que inicialmente pode ter lhe causado furor sexual interno e ereções torna-se uma projeção maléfica da imoralidade, algo que coloca a sua segurança em perigo. Depois do acidente, o personagem inevitavelmente fica imobilizado. Em seu apartamento, viverá situações semelhantes aos arcos dramáticos dos protagonistas de Janela Indiscreta e Disque M Para Matar. É um festival hitchcockiano, mas com clima e cara de Dario Argento, cineasta que nunca tentou enganar ninguém quando parou e emulou Hitchcock em seus filmes. E, mais uma vez, cabe ressaltar a maneira como menciona tais obras, sem recorrer ao plágio vagabundo e sem ética.

Com os acordes de Pino Donnagio, parceiro de Brian De Palma em diversas incursões de caráter hitchcockiano, o suspense lançado em 2005 é um exercício satisfatório da linguagem cinematográfica, narrativa que permite ao espectador mergulhar numa produção que foge das convenções básicas e nunca nos deixa diante da obviedade. Nada, mas nada durante os 93 minutos do filme nos indica exatamente os acontecimentos de seu desfecho. É devir puro. Tudo isso, graças ao trabalho com as imagens realizado pela direção de fotografia de Frederic Fasano, os figurinos de Fabio Angelotti, aparentemente limitados por conta do orçamento televisivo, mas coerentes com a proposta urbana da narrativa, elementos narrativos que ganharam forma com o texto de Argento, escrito em parceria com Franco Ferrini, dupla que deseja saber, por meio do telefilme, a seguinte questão: você gosta de Alfred Hitchcock?

Você Gosta de Hitchcock? (Ti Piace Hitchcock?/Itália, 2005)
Direção: Dario Argento
Roteiro: Dario Argento, Franco Ferrini
Elenco: Chiara Conti, Elio Germano, Elisabetta Rocchetti, Cristina Brondo, Iván Morales, Edoardo Stoppa, Elena Maria Bellini, Horacio José Grigaitis
Duração: 105 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.