Crítica | Voltron: O Defensor Lendário – 8ª Temporada

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das temporadas anteriores.

Foram necessárias oito temporadas – seis se reunirmos as quatro meias temporadas – e 78 episódios ao longo de acelerados dois anos e meio, para que o ótimo reboot de Voltron: O Defensor Lendário chegasse a seu aguardado fim. Nos 13 capítulos finais, os Paladinos finalmente enfrentam Honerva, ex-Haggar, a grande força manipulador por trás do Império Galra e mergulham de cabeça no multiverso. Mas será que o encerramento foi à altura do que se poderia esperar?

A resposta é sim e não, o que, claro, é uma forma de driblar uma afirmação definitiva. Tenho para mim, porém, que a derradeira temporada de Voltron é a que mais poderia ter se beneficiado de concisão e objetividade, com apenas seis ou sete episódios focados, diretos e frenéticos. Com os 13 regulamentares, a linha narrativa bastante simples que é apresentada acaba sendo visivelmente esticada para além do que ela exige, deixando às escâncaras suas fragilidades. Por outro lado, se aceitarmos a cadência repleta de fillers, a manutenção dos detalhes do misterioso plano da vilã até quase o final e a corrida de 100 metros rasos bem no grande momento de virada, o que temos é um belo, mas não excepcional ponto final para as aventuras de nossos heróis salvando o dia em definitivo ou pelo menos até que outra grande ameaça surja por aí.

Os dois primeiros episódios estabelecem as premissas que carregam a temporada. No primeiro, Encontro Romântico, que lida com um salto temporal de “vários meses” como Shiro menciona em seu briefing da missão, vemos o IGF Atlas e os leões em preparações para voltarem ao espaço para terminar o que começaram, o que ocorre em meio a um desnecessário foco no começo do romance de Lance com Allura e o anúncio, pela alteana capturada quando seu mecha foi derrotado no último episódio da temporada anterior, que Honerva está por trás de tudo. No segundo episódio, Sombras, há uma repetição de artifício utilizado para cobrir o “tempo perdido” de Voltron depois da batalha final com Lotor, em que vemos praticamente todos os eventos da série até o presente sob o ponto-de-vista da bruxa, o que coloca tudo em perspectiva e demonstra o grau de sua loucura. É uma dobradinha muito eficiente em impulsionar a temporada e deixar o espectador atento para os eventos seguintes.

Mas são justamente esses eventos que começam a desapontar e a desnudar o pouco de história que a temporada tem para contar. Afinal de contas, a construção da Coalizão Voltron já não era novidade e não precisava de mais exemplos de como ela anda. Teria sido perfeitamente razoável simplesmente pular os eventos de O Dilema do Prisioneiro ou condensá-los em Marcas da Batalha, já que a grande informação nesses dois é mesmo a volta dos Robôs-Fera de Honerva e a descoberta da navegação por buracos de minhoca que permitem a localização da vilã. O que se segue a isso são dois fillers, a volta dos piratas em Sede de Vingança e o completamente inútil Dia 47, todo ele sob as lentes “documentais” dos pilotos Kincade e Rizavi, intercalados pelo primeiro grande confronto de Voltron contra Honerva, em Gênesis.

É importante notar, porém, que não quero com isso dizer que não era importante que a temporada final abordasse os piratas por exemplo, pois é relevante que sejam dados encerramentos a todas as subtramas. No entanto, novamente, o condensamento narrativo teria sido muito bem-vindo aqui, já que, na estirada para o grande conflito, qualquer desvio que tome episódios inteiros precisa ser amplamente justificado dentro da história, o que não me pareceu ser o caso. Com isso, a temporada perde um pouco a força nesse meio, algo que continua com A Comemoração, completamente dedicado aos paladinos se divertindo durante o Dia Limpo, no planeta Drazn. É bem verdade que é exatamente nesse episódio que Allura deixa-se fundir com a matéria negra que ela extrai de um dos alteanos piloto de mecha, mas a inversão da lógica focal da narrativa que chega a cansar.

Felizmente, porém, Cavaleiros da Luz, episódio em duas partes, compensa os desvios anteriores ao lidar com uma excelente viagem metafísica dos Paladinos primeiro pela consciência coletiva do universo, e, depois, pela mente da própria Honerva, cortesia dos perigosos poderes sombrios adquiridos por Allura. Diria que é aqui que a temporada chega a seu ponto mais alto, mesmo considerando que, depois, somos apresentados à versão 2.0 de Voltron, agora fundido ao Atlas. Esse lado mais “viajante” da série já havia sido abordado antes, mais recentemente em A Jornada Interna da temporada anterior, é funciona às mil maravilhas para trazer de volta os Paladinos originais, dentre eles o próprio Rei Alfor, pai de Allura, e a versão jovem de ninguém menos do que Zarkon. Vê-los se enfrentando e, depois, reunidos contra uma ameaça em comum foi uma ótima maneira que Joaquim dos Santos e Lauren Montgomery encontraram para voltar ao passado sem efetivamente ressuscitar ninguém, o que seria uma traição completa à essência mais, digamos, trágica da série. O design de produção, que não havia mostrado nada de realmente muito novo antes na temporada, esmera-se muito aqui nos visuais transcendentais e nos pequenos acenos à série oitentista, diretamente referenciada, aliás, na cena de abertura do primeiro episódio.

Aliás, fiquei feliz ao notar que os showrunners não caíram na tentação nem mesmo de trazer Lotor de volta, pelo menos não em carne e osso. Se sua versão mecha conjurada por Honerva não tem muito uso narrativo na temporada e poderia ter sido evitada, pelo menos ela não representou o retorno efetivo do personagem, ainda que o vejamos criança e adolescente em flashbacks e também em outra realidade, mas aí de forma orgânica e fluida, com especial destaque para quando ele, garoto, rejeita a mãe extradimensinal.

Os três episódios finais carregam a temporada para um final de cunho épico, colocando em jogo literalmente toda a existência. Mais uma vez, porém, menos teria sido mais e percebe-se aquela pegada “enroladora” que já perpassou outras temporadas. Não é nada que estrague a experiência, mas, estranhamente – quase um paradoxo – a trinca final esgarça a narrativa onde não precisa e acelera enlouquecidamente onde não devia. O exemplo mais gritante disso é a velocidade com que a super-mega-vilã-psicopata-mutiversocida “muda de ideia” sobre seu plano e resolve ajudar Allura a desfazer toda a mortandade que causara. É como se Hannibal Lecter resolvesse tornar-se vegetariano depois de assistir uma palestra sobre as propriedades anti-oxidantes do brócolis.

Além disso, confesso que o sacrifício final de Allura pareceu-me deslocado. Não que ela não pudesse ou não devesse até morrer em um ato heroico, mas o que acontece ali naquele plano astral pareceu vazio, fora de compasso com a série e com sua própria importância e o tal romance desnecessário com Lance que só começa nesta temporada. Aqui, os showrunners sentaram na mesa de reunião deles e decidiram que algum paladino tinha que morrer para dar “gravidade” à série e a escolhida foi a princesa alteana. Se pelo menos eles tivessem combinado melhor o “como” e o “porquê”, o sacrifício da moça poderia ganhar contornos maiores do que mega-estátua  dela em uma inexplicavelmente ressuscitada Altea (além do planeta natal dos Galra).

É, relendo o que acabei de escrever, talvez eu tenha sim a minha resposta definitiva à pergunta que fiz no primeiro parágrafo. Essa temporada final definitivamente não ficou à altura do que a série merecia. Não é ruim, longe disso, mas Voltron: O Defensor Lendário prometia mais.

Voltron: O Defensor Lendário – 8ª Temporada (Voltron: Legendary Defender, EUA – 14 de dezembro de 2018)
Showrunner: Joaquim dos Santos, Lauren Montgomery
Direção: Michael Chang, Rie Koga, Eugene Lee
Roteiro: Lauren Montgomery, Mitch Iverson, Erik Bogh, Joshua Hamilton, Rocco Pucillo, Mark Bemesderfer, Tim Hedrick, Joaquim Dos Santos
Elenco (vozes originais): Josh Keaton, Steven Yeun, Jeremy Shada, Bex Taylor-Klaus, Tyler Labine, Kimberly Brooks, Rhys Darby
Produtora: Dreamworks Animation Television, World Events Productions
Disponibilidade no Brasil (à época da elaboração da crítica): Netflix
Duração: 23 min. (cada um dos 13 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.