Crítica | Vou Para Casa

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Um tragédia sobre a vida. Esta poderia ser uma definição curta sobre Vou Para Casa (Je Rentre à la Maison), filme de Manoel de Oliveira lançado em 2001. Mas há mais coisas por trás dessa simples definição. Tendo 92 anos de idade quando o filme chegou aos cinemas, o diretor não fazia segredo em relação ao caráter testamental que o impulsionava naquele momento, às vezes de maneira inconsciente, levando-o para filmes que davam conta do legado de uma vida, dos laços feitos no decorrer de uma carreira, das ideias defendidas, do amor à profissão, aos familiares e a uma rotina que, para todos os efeitos, poderia acabar a qualquer momento.

Se em 1993 essa temática se fez ver de maneira completamente aberta em seu testamento intitulado Visita ou Memórias e Confissões, foi mesmo só após Viagem ao Princípio do Mundo (1997) que o diretor passou a favorecer os temas mais frios e analíticos em torno da morte e da responsabilidade de morrer, especialmente no caso de um artista, de quem se espera muito, uma palavra, um filme, uma “entrega definitiva” antes que ele volte para casa. Nesta obra de 2001, o cineasta português reflete e também nos faz refletir sobre o fazer artístico após uma certa idade, quando muita coisa se tem para defender, muitas negativas para manter e uma imagem e visão de mundo que não se vendem por um bom cachê ou uma possibilidade de muitas portas abertas. É nesta quase encruzilhada que está o personagem de Michel Piccoli neste filme. Um homem trágico que precisa se reconstruir emocionalmente em uma idade onde não existe assim tanta força ou vontade para isso.

Há uma certa semelhança deste filme com a estrutura cine-teatral de O Meu Caso (1986) ou até mesmo de Inquietude (1998), mas a simplicidade é bem maior no presente longa. No decorrer da narrativa, vemos esse ator veterano envolvido em representações de O Rei está Morrendo, de Eugène IonescoA Tempestade, de William ShakespeareUlysses, de James Joyce, cada uma delas marcando uma fase de sua vida atual, com incômodos, sonhos, realizações pessoais e a “simples” vontade de viver e ser feliz.

Pelo caráter bastante peculiar da fita (com mesclas de teatro, TV, cinema e bastante contemplação do cotidiano) o roteiro e até mesmo a direção não conseguem tornar orgânicas as passagens entre todos esses momentos, alguns deles funcionado mais como esquetes dentro da obra do que partes de uma trama maior. O elemento contemplativo também contribuiu para o desligamento do público em determinadas cenas, uma vez que o foco no ator não é elevado a uma grande categoria dramática no roteiro. Não se contempla aqui para analisar-se o personagem, isso o texto faz rapidamente e muito bem. Os silêncios e as cenas de contexto estão aqui para marcar os dias. O peso do cotidiano, a rotina do ator. Infelizmente, nem todos são de fato necessários ou funcionam como um bom contexto.

A parte final de Vou Para Casa é consideravelmente angustiante e abre um bom caminho para mais de uma interpretação por parte do público. As filmagens de Ulysses, aqui, dirigidas pelo personagem de John Malkovich, apresentam um curioso momento para o ator vivido por Piccoli, um momento de aprendizado, de interferência, de conflito e noção clara de cansaço, algo que até então ele se recusara a aceitar. Aqui, vemos o momento onde um homem se dá conta, de maneira irremediável, das limitações vindas com a idade e, talvez pela primeira vez em muitos anos, o coloca para pensar se quer ou deve continuar fazendo aquilo. No meio da crise, porém, nada há para ser feito. Apenas voltar para casa e descansar. Seja lá o que este retorno à casa queira dizer.

Vou Para Casa (Je Rentre à la Maison) — França, Portugal, 2001
Direção: Manoel de Oliveira
Roteiro: Manoel de Oliveira (com material de Eugène Ionesco, William Shakespeare e James Joyce)
Elenco: Michel Piccoli, Catherine Deneuve, John Malkovich, Antoine Chappey, Leonor Baldaque, Leonor Silveira, Ricardo Trêpa, Jean-Michel Arnold, Adrien de Van, Sylvie Testud, Isabel Ruth, Andrew Wale, Robert Dauney, Jean Koeltgen, Mauricette Gourdon
Duração: 90 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.