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Crítica | Walden (2020)

por Ritter Fan
538 views (a partir de agosto de 2020)

Henry David Thoreau viveu sozinho, durante dois anos, dois meses e dois dias, em uma cabana que ele mesmo construiu à beira do lago Walden, em Concord, Massachusetts, distante uma milha do vizinho mais próximo e escreveu sobre sua experiência em um inesquecível e seminal ensaio batizado de Walden ou A Vida nos Bosques em que ele prega a simplificação da vida, o desapego material e um retorno à natureza em oposição à civilização industrial. Um verdadeiro manifesto, ele é particularmente importante nos dias de hoje em que comprar um telefone de último tipo com dinheiro que não se tem é mais importante do que parar, contemplar a vida ou, simplesmente, ler um livro.

Bojena Horackova, cineasta checa radicada na França, sequestrou o título do famoso manifesto para servir de ponto de partida de seu terceiro longa que muito claramente carrega um lado autobiográfico considerando que ela fugiu de seu país durante o jugo comunista à procura de liberdade e o casal de jovens que ela retrata em sua obra quer exatamente isso: sair de Vilnius, na Lituânia, nos últimos meses da Cortina de Ferro, em direção à liberdade materializada pela promessa que são os países ocidentais. Evocando a nouvelle vague em seu estilo, com um pouquinho de Éric Rohmer em sua abordagem, a diretora tenta construir um filme lírico sobre amor jovem, ao mesmo tempo que ensaia um enfoque político e uma espécie de armadilha onírica da memória, com a versão adulta da protagonista (Fabienne Babe) retornado à sua cidade natal depois de décadas para procurar o misterioso – e, claro, metafórico – lago do título que como em Thoreau, serve de marco em sua vida, como um momento de claridade em meio às duvidas existenciais.

Jana (Ina Marija Bartaité), uma jovem de classe social mais alta (porque comunismo como implantado no mundo não tem relação alguma com igualdade de classes) e conhecida por ser toda certinha, envolve-se amorosamente com Paulius (Laurynas Jurgelis), mais humilde e envolvido com o mercado negro, depois que seu amigo de escola Lukas (Mantas Janciauskas) os apresenta em um ringue de patinação no gelo. Há uma grande simplicidade na forma como Horackova retrata a dupla, retirando qualquer traço de romance clássico da relação. São dois jovens que mais parecem irmãos do que namorados e que a diretora falha ao não extrair sentimentos dos atores. E não falo de sentimentos exacerbados, de choradeira ou, ao revés, de alegria profunda, mas sim uma conexão maior entre eles que convença como casal e que, ato contínuo, permita ao espectador criar empatia por eles.

Mas Jana e Paulius, para além de formar um casal fotogênico, não ressonam, não estabelecem química e não ganham profundidade dramática pelo roteiro a ponto de realmente criar uma ponte com o espectador. Parecem dois arquétipos de jovens, ela apolítica, inocente, mas esperançosa em um genérico “futuro melhor”, ele cínico, prático e experiente, com clareza de visão sobre a impossibilidade de um futuro melhor ali onde vivem, mas sem certeza exata do que fazer além de um “sair dali” não muito convincente. Quando digo que são arquétipos, é porque essa juventude clássica sem rumo é lugar-comum em um sem-número de filmes, sejam eles passados atrás ou não da Cortina de Ferro e o roteiro não traz nada que diferencie efetivamente os dois de um modelo pré-estabelecido que não seja, talvez, sua de certa forma irritante apatia e desconexão com o espectador.

As sequências com Jana mais velha em processo de retorno a Vilnius não têm melhor sorte, pois não só há muito pouco delas, como a personagem não parece ganhar qualquer tipo de desenvolvimento entre versões, com Babe apenas vivendo uma versão mais falante do que a de Bartaité. Além disso, sua busca não convence. Não há um momento no filme que marque a importância do “lago de Thoreau” para além de breves sequências razoavelmente estéreis já nos estertores da fita e que são tonalmente ambivalentes e certamente bem menos interessantes do que os diversos outros momentos dos dois – sozinhos ou com um casal de amigos – em outro lago mais comumente visitado por eles.

Como se isso não bastasse, o longa planta sementes políticas em sua narrativa, mas que jamais germinam, sendo efetivamente esquecidas ao longo de sua progressão, como se nunca tivessem existindo, o que enfraquece ainda mais o abismo sócio-econômico entre Paulius e Jana e reforça a retratação arquetípica dessa juventude. Mesmo que interpretemos o longa como fragmentos da memória de Jana mais velha, o que seria, talvez, a saída mais fácil, falta coesão para as narrativas em dois momentos temporais, além de isso não curar a distância entre os desinteressantes personagens e o espectador.

Walden tenta seguir por diversos caminhos, mas parece não ter força para abordá-los de verdade, permanecendo apenas na superfície plácida do lago do título que, nesse processo, perde até mesmo grande parte de seu significado literário. É como se Bojena Horackova lembrasse apenas dos segundos finais de seus sonhos de juventude e tivesse tentado costurá-los em um longa de relevo, mas sem efetivamente trazer algo de significado para a tela.

Walden (Idem – França, 2020)
Direção: Bojena Horackova
Roteiro: Bojena Horackova
Elenco: Ina Marija Bartaité, Laurynas Jurgelis, Fabienne Babe, Andrzej Chyra, Mantas Janciauskas, Nele Savicenko
Duração: 85 min.

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