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Crítica | “Wallflowers” – JINJER

por Davi Lima
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wallflowers

Para quem conhece a banda JINJER, sabe bem que ela tem uma veia crítica do metal, que permeia as músicas e o exercício do scream em criatividade. Além de se categorizar como um metalcore sempre numa evolução de performance, talvez com o álbum Macro (2019) sendo o mais variado do clássico enervante da guitarra, tendo reggae e jazz no repertório; Wallflowers provavelmente seja o ponto de maturidade mais recente de um progresso criativo em sequência. Entre o grave gutural e a clean voice da vocalista Tatiana Shmailyuk, sem medo de descaracterização, a banda ucraniana cria um interpelo (pergunta reflexiva) emocional à realidade que revela pecados floreados numa aberta redenção reflexiva. 

Certa vez, um professor de arte holandês chamado Hans Rookmaaker disse que tinha mais um anseio por Deus e aprendizado de redenção com pinturas de Picasso, modernas, que quebravam qualquer realidade do sobrenatural divino, do que com artes sacras e ditas cristãs, ou gospeis, que não eram tão ricas quanto a arte do espanhol. Assim ele pensava por causa do exercício de interpelo que fazia na apreciação das obras maravilhosas de Picasso, que mesmo em contraponto à sua fé o faziam refletir sobre os problemas da humanidade e sobre qual redenção ele acreditava.

Discursiva e vocalmente no metal, JINJER segue uma linha crítica que parece a indagação feita por Rookmaaker, especialmente nesse recente lançamento da banda. As duas primeiras faixas, Call Me a Symbol e Colossus do álbum Wallflowers refletem nas letras um apontamento forte sobre certa idolatria do ser humano e uma grandiosidade colossal que é imposta sobre uma pessoa e que a faz perder o controle. Junto a isso, o scream intensifica esse discurso que problematiza orgulho e falibilidade humana inerente, assim como o clean voice dá um suspiro no metal pesado como um drama a mais ou até uma ironia. 

Passando para os tracks seguintes, o terceiro, chamado Vortex, é o mais visual na composição musical e afunilante de unidade na proposta do álbum quanto a interiorizar os pecados humanos e perder o controle quanto a eles. Tematicamente relacionado a isso, uma certa trindade é posta no repertório do álbum, juntando Vortex, Disclosure! e Wallflower. São faixas tão diferenciadas em abordagem, seja letra ou ritmo, que quando unidas tonalizam a maturidade que JINJER demonstra para os ouvintes. A segunda faixa citada do trio, por exemplo, tem um discurso mais contemporâneo e uma introdução talvez até animada demais para o convencional gutural da banda. O guitarrista Roman Ibramkhalilov fica mais explícito no groove e é possível identificar mais facilmente o refrão, além das variantes de gutural para screamo. É uma faixa mais limpa em vários sentidos, até mesmo para o baterista Vladislav Ulasevich. Sobre Wallflower, quem brilha é o baixo de Eugene Abdukhanov, em vista de ser uma faixa alternativa para uma linha metal, bem mais dramática e sem tantos screams de costume.

Diante dessa trindade discursiva das faixas pode-se criar até um ódio romântico contra o ser humano como modo de alguma santificação, como Disclosure! parece intentar em sua indagação da realidade na letra dizendo: “You’re good, them bad/Since when to hate a man is a fate of a saint?”. Se não bastasse essa beleza temática, a estética da guitarra, o mais vibrante no metal, parece imprevisível ao longo do tempo que vai se ouvindo o álbum Wallflowers. O ponto alto, que a guitarra até parece se esconder em alguns momentos, é As I Boil Ice. Fica arrepiante a união temática de crítica com os improvisos metálicos pesados e os screams que tornam a letra extremamente metafórica mais emplacante e intensa.

Infelizmente, o repertório não acaba nessa penúltima faixa pensativa e sim na última Mediator, mais didática em tema e estilo. Ao mesmo tempo que há esse provável deslize de finalização pouco inspirada, numa experiência de deixar o tom reflexivo após tanta pancada, a última faixa também conclui o tema em anseios por respostas. A banda JINJER, finalizando assim, parece sem limites no metalcore, por enquanto. Sendo alternativa e inventiva, procurando maneiras de se reinventar sem perder sua linha evolutiva, esse último trabalho dentro de sua curta história de dez anos, caso acabasse esse ano, seria num último nível de maturidade.

Aumenta!: Disclosure!
Diminui!: Mediator
Minha Canção Favorita do Álbum: As I Boil Ice

Wallflowers
Artista: JINJER
País: Ucrânia
Lançamento: 27 de agosto de 2021
Gravadora: Napalm Records Handels GmbH
Estilo: Heavy Metal

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