Crítica | War Machine (2017)

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estrelas 3

Em oposição ao regime Talibã, o presidente George W. Bush iniciou a Guerra do Afeganistão no final de 2001, tendo como apoio uma coalizão de países da OTAN e a própria República Islâmica do Afeganistão, combatendo organizações insurgentes como Talibã, al-Qaeda, Rede Haqqani, Oposição Unida Tajique, Emirado Islâmico do Afeganistão e até mesmo o MIU (do Uzbequistão) e o Estado Islâmico, este último, batalhando contra todos os grupos e lados da moeda para obter controle absoluto de cidades do país.

Passando pelos governos de Bush, Barack Obama e chegando ao governo de Donald Trump, esta Segunda Guerra do Afeganistão (às vezes assim chamada para se diferenciar do conflito que ocorreu no país entre 1979 e 1989) já obteve diversas representações no cinema, desde a primeira produção nacional após a queda do Talibã, Osama (2003), até indicados ao Oscar, como Restrepo (2010), O Grande Herói (2013), Guerras Sujas (2013) e Guerra (2015). Nenhuma dessas versões, porém, teve como tema a comédia satírica, gênero desta produção da Netflix coproduzida e atuada por Brad Pitt.

War Machine (2017) é uma adaptação do livro The Operators (2013), de Michael Hastings, que teve como tema o cotidiano militar, os pensamentos e estratégias de administração e campanhas do General Stanley A. McChrystal e sua equipe no Afeganistão. No filme, ele se torna Glen McMahon (Brad Pitt), um militar de altíssimo prestígio que é designado para uma missão de “limpeza” das cidades ainda dominadas pelos insurgentes e que tem um longo histórico de vitórias em sua carreira e uma fama quase mitológica no Exército. Acreditando que irá resolver todos os problemas em andamento naquela terra desolada e, claro, vencer a guerra, o General McMahon faz alguns planos e quer vê-los em execução o mais rápido possível. O que ele não imaginava é que nem toda guerra é a mesa. Algumas possuem maior interferência, intensões escusas e mãos de diversos Estados do que outras. Nesta parte oculta estava a semente de sua ruína.

A primeira coisa que se deve elogiar aqui é o casting. Não tem ninguém fora do lugar neste filme. Todos os papéis cabem como uma luva nos atores designados, da exigência mais canastrona (Pitt é um bom ator, mas vê-lo forçando uma voz badass e fazendo pose de general durão de carinha simpática e correndo como um pinguim constipado é hilário — e um pouquinho incômodo — por si só) ao posto mais genuinamente ligado aos “homens de Estado” ou ao “líder fantoche”, como é o caso do ótimo e também caricato (algumas pessoas até dirão “desrespeitoso”) Presidente Karzai, interpretado por Ben Kingsley.

O que dá errado é que o roteiro de David Michôd, que também dirige a obra, se alonga mais do que deveria — o filme ficaria bem melhor com uns 20 – 30 minutos a menos — e isso dá espaço para que uma série de cenas fracas que empanturrem a obra, algumas delas ainda mal editadas e com direção pouco fluída de Michôd. Certas relações pessoais até podem ser bem vistas de modo isolado, mas o texto poderia aproveitar o padrão voice over como um dos instrumentos capazes de sugerir maiores interações, especialmente o bloco com a esposa do General, que não serve para absolutamente nada na história e ainda faz o desserviço de quebrar a linha de ações ligadas à guerra (linha com direito a cutucadas políticas e críticas sociais atiradas para todos os lados), tornando o personagem de Brad Pitt chato pela primeira vez, dado o seu “desconforto” diante de uma situação romântica e o quanto isso destoa de todo o resto do filme.

War Machine nos faz pensar mais do que rir. A obra traz à tona uma situação ainda em andamento e que tem ganhado cores e importâncias diferentes a cada mudança de governo dos Estados Unidos e dos Estados membros da OTAN. Novas exigências sociais e midiáticas, novas motivações políticas e econômicas e novas desculpas geopolíticas para aumentar áreas de influência surgem e desaparecem, enquanto novos gerentes de guerra são nomeados para fazer algo em um lugar que, em parte, não quer ser ajudado e, em outra parte, já sofreu demais com esta “mão amiga que vem de fora”. A não ser que os Estados Unidos e a OTAN estejam lá apenas para fazer o bem mesmo, de maneira altruísta e sacrossanta. Quem sabe o que uma máquina de guerra de grandes potências pode (e é criada para) fazer, não é mesmo?

War Machine (EUA, 2017)
Direção: David Michôd
Roteiro: David Michôd (baseado no livro de Michael Hastings)
Elenco: Brad Pitt, Anthony Hayes, John Magaro, Anthony Michael Hall, Emory Cohen, Topher Grace, Daniel Betts, Aymen Hamdouchi, RJ Cyler, Alan Ruck, Nicholas Jones, Will Poulter, Lakeith Stanfield, Ben Kingsley, Meg Tilly, Tilda Swinton, Russell Crowe
Duração: 121 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.