Crítica | Watchmen – 1X02: Martial Feats of Comanche Horsemanship

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Uma visita que pode mudar tudo. Ou começar a mostrar para todos que… as coisas estão mudando. Assim foi com a visita de Ozymandias ao Comediante em Watchmen, com as visitas que presenciamos claramente em It’s Summer and We’re Running Out of Ice e nas visitas reais e simbólicas que este segundo episódio da série nos traz, a começar pelo título.

Martial Feats of Comanche Horsemanship é uma pintura datada de 1834 (mas finalizada em 1835), concebida pelo pintor e escritor George Catlin, que teve sua paixão pelos povos indígenas americanos iniciada com uma visita. A visita de uma delegação indígena à Filadélfia, que plantou nele uma paixão e faria com que finalmente embarcasse, em 1830, em uma missão diplomática ao longo do Rio Mississípi, colocando em suas telas as faces, o ambiente e as lutas dos povos que ele via como uma “raça em extinção“. A ponte entre o povo nativo exterminado pelos bravos colonizadores vem do Piloto da série (afinal, o enforcado Judd Crawford não utilizava Little Bighorn e Custer’s Last Stand como códigos?) e aqui aparece pendurada na parede de um honrado policial assassinado. A morte que iniciou uma investigação; mas diferente de tudo o que a nossa Avançada Equipe Sherlockiana Internauta apontou, trouxe ainda mais perguntas, surpresas e mistérios para a série. Sim, este é o meu tipo de show.

No roteiro, Lindelof e Nick Cuse criam uma base investigativa a partir de problemas históricos, mas não necessariamente tratando direto com esses problemas. O uso desse recurso é arriscado, porque adiciona mais dúvidas do que respostas e não está preocupado em acalentar o espectador com caminhos fáceis, previsões sobre identidade de personagens e principalmente referências vazias (o grande mal das adaptações dos quadrinhos, tanto no cinema quanto na TV). O fato histórico envolvendo Tulsa é tratado de maneira um pouco mais didática aqui, é verdade, mas isso é breve e ajuda o texto a conectar o misterioso velhinho cadeirante de 105 anos à fantástica personagem de Regina King. Ela protagoniza o início de uma investigação que até dá um resultado inicial, mas como uma espécie de sacanagem dos roteiristas, termina nos colocando em um poço ainda maior de dúvidas. E daquelas melhores dúvidas, porque toda a participação do personagem é sólida e intrigante, bem modulada em torno do que está acontecendo no país neste momento e que (sem querer ou querendo?) abre mais uma porta de questionamentos sobre quem de fato era Judd. Ninguém disse que seria fácil.

Mas não é o bastante para ficarmos assim tão espantados. Afinal, a obra original tratou exatamente assim todos os seus mistérios iniciais, com muita gente aparecendo, muitas pistas estranhas ligando-se parcialmente e nós sem entender o que estava acontecendo. Até que tudo começou a fazer sentido. Em termos de estruturação do mistério, esses dois episódios (especialmente este segundo) foram soberbos, assim como foram a linha de explicações e ligação de alguns personagens. Basta olhar com atenção aquela conversa entre o entregador de jornal e o jornaleiro (viram que o The New Frontiersman segue firme e forte?), a indicação de que a chuva de lulas não é apenas local e que existe um ideal conspiratório em torno disso no mundo todo; a irônica, selvagem e genial reprodução de um aviso televisivo sobre o conteúdo da série American Hero Story (que coisa mais linda foi a sequência com o Justiça Encapuzada!) e por fim, uma revelação e mais um tsunami de perguntas em torno do personagem de Jeremy Irons, que me fez gargalhar com a sua reprodução melodramática dos eventos que criaram o Dr. Manhattan (com direito a jiromba azul e tudo!) e a indicação de um loop ou repetição proposital — um experimento? — em torno desses acontecimentos.

Com mais uma aula de edição e atuações brilhantes, Martial Feats of Comanche Horsemanship explora interessantes segredos dos personagens desse Universo. Do uniforme da KKK no armário de um amigo de Angela aos pobres clones queimados no porão de Veidt, o capítulo nos convida a pensar sobre a raiz dos males, como se chamasse a atenção para o fato de que nada, numa sociedade, acontece ou termina por acaso. Mas isso a gente já sabe muito bem. Ou não?

Watchmen – 1X02: Martial Feats of Comanche Horsemanship (EUA, 27 de outubro de 2019)
Direção: Nicole Kassell
Roteiro: Damon Lindelof, Nick Cuse (baseado na obra de Alan Moore e Dave Gibbons)
Elenco: Regina King, Yahya Abdul-Mateen II, Jim Beaver, Luke David Blumm, Danny Boyd Jr., Jim Braswell, Ryan Czerwonko, Miles Doleac, Frances Fisher, Henry Louis Gates, Jolie Hoang-Rappaport, Andrew Howard, Jeremy Irons, Cheyenne Jackson, Don Johnson, Kate Kovach, Tevin Marbeth, Tim Blake Nelson, Annika Pampel, Dylan Schombing, Sara Vickers, James Wolk
Duração: 55 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.