Crítica | Watchmen – 1X03: She Was Killed by Space Junk

plano crítico She Was Killed by Space Junk

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Semana passada aconteceu algo engraçado nos comentários da minha crítica numa rede social. Alguém bastante nervoso babava verde diante de meus elogios para a série, em Martial Feats of Comanche Horsemanship, dizendo, além de outras coisas que “ninguém estava entendendo nada” e que “isso não é adaptação dos quadrinhos coisa nenhuma“. E o engraçado é que é exatamente isso: esta série nunca foi uma adaptação. Ela é uma sequência, 30 anos depois do fim da HQ. E não, ninguém está entendendo nada porque é assim mesmo que funciona uma série de mistério e justamente por isso que o gênero tem este nome. Um plot intricado é paulatinamente apresentado e desenvolvido. O entendimento vem aos poucos, chegando-se a uma resposta no final da temporada. Ou uma resposta parcial, se há intenção de continuar com a série. Mas fico imaginando esse tipo de gente assistindo a She Was Killed by Space Junk. Se já “estava difícil” antes, com esse episódio, então… o único neurônio deve ter morrido de overdose.

Aqui, o texto de Lindelof e Lila Byock nos introduzem à coroa Laurie Blake, antigamente conhecida como Espectral (notem que aqui ela está utilizando o sobrenome do pai, Edward Blake, o Comediante, e não Juspeczyk, o sobrenome da mãe). Com referências à letra de Space Junk (Devo) e a uma longa piada que conecta muitos pontos da maneira mais elegante, engraçada, amarga e cínica possível, o capítulo fecha a sequência de introduções da temporada. Aqui é abertamente indicado que o Coruja está preso/sob custódia (atenção à frase do Senador Keene: “Laurie, o presidente pode perdoar quem quiser. Qualquer pessoa. Ele pode até tirar a sua coruja da gaiola“, o que naquela cena tem um duplo significado delicioso). O Senhor do Castelo finalmente dá um nome a si mesmo e, pela primeira vez na série, temos um cenário de investigação pronto para seguir adiante, bem estruturado em sua base interna (os agentes), mas completamente misterioso em sua base externa (os motivos do crime, suas implicações e os que estão diretamente ligados a ele, dentro ou fora da Cavalaria).

Jean Smart está absolutamente fascinante no papel. A postura intimidadora se mescla a algo desafiador, cômico e irônico, claramente mostrando porque todo mundo conhece Laurie Blake e por que quase ninguém parece feliz em estar perto dela. Dos encontros realizados, dois ganham o máximo destaque possível: a excelente sequência com Looking Glass e a hilária e séria sequência com Angela Abar, que também tem a sua cota de badass e lidou com as provocações da colega de forma primorosa. Aqui, o espectador é convidado a pensar nas possibilidades para Laurie ter se dedicado com tanto afinco ao combate aos mascarados, da mesma forma que apresenta a já esperada necessidade de se considerar anti-heróis no meio desse povo todo, novamente, uma relação cíclica e elogiável da série com os quadrinhos.

Os ícones aqui explorados pela direção de arte são mais fortes no apartamento de Laurie, especialmente pela bela e escancarada relação com o Coruja, mas também pela madura forma de exposição psicológica dessa personagem, que se completa com a fotografia e com os sóbrios e elegantes figurinos. Quanto à coerência da atual ocupação, vale dizer que sua presença no original era distanciada o bastante para permitir esse olhar atual da personagem em relação a vigilantes. Todavia, há muita coisa a se considerar aí, e a forma como o episódio elenca essas possibilidades enriquece ainda mais o Universo, abrindo portas, adicionando dúvidas e sugerindo caminhos.

Com uma verdadeira chamada de longa distância, uma piada que ao mesmo tempo dá uma piscadela para a frase de Will sobre ter “amigos lá em cima” e uma interessante discussão sobre o exercício da força policial (vejam que as máscaras não são de uso nacional), tivemos aqui mais um excelente capítulo sobre uma investigação que nem começou direito e já está explodindo caixões e exibindo um gigante dildo azul, guardado como um grande tesouro. Nem o historiador do momento, Agente Petey, poderia encontrar paralelos históricos para isso. A propósito: Ozymandias parece fazer de tudo para irritar quem quer que esteja vigiando sua presença naquela propriedade. E as invenções me parecem uma intricada tentativa de fuga. Eu não sei o que está acontecendo, mas estou adorando cada momento.

Watchmen – 1X03: She Was Killed by Space Junk (EUA, 03 de novembro de 2019)
Direção: Stephen Williams
Roteiro: Damon Lindelof, Lila Byock (baseado na obra de Alan Moore e Dave Gibbons)
Elenco: Regina King, Yahya Abdul-Mateen II, David Andrews, Sara Antonio, Patrick BrownJessica Camacho, Mahdi Cocci, Erin C. Davis, Frances Fisher, Dustin Ingram, Jeremy Irons, Tim Blake Nelson, Dylan Schombing, Jean Smart, James Dean Smith, Adelynn Spoon, Lee Tergesen, Sara Vickers, Denny Zartman, James Wolk
Duração: 55 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.