Crítica | Watchmen – 1X06: This Extraordinary Being

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Na essência, o episódio da semana passada, Little Fear of Lightning e o desta semana, This Extraordinary Being são capítulos bastante parecidos. Ambos possuem um distanciamento das bizarrices iniciais da série (no bom sentido) focando em situações, personagens e desdobramentos com os dois pés no chão, e ainda com a continuação de um interessante padrão narrativo, que é o de explorar um personagem ou camada dramática por semana, conseguido juntamente com isso um maior aprofundamento na vida de outros indivíduos do show.

O ponto de partida é a prisão de Angela, após engolir todos os comprimidos de Nostalgia (que no original é um perfume produzido por Ozymandias). Como já havia sido aludido no episódio passado, esse tipo de droga é utilizada no tratamento de demência e ajuda os pacientes a se lembrarem vividamente de coisas que viveram. Aqui, Laurie expande rapidamente esse conceito dando outros efeitos para a droga, com consequências terríveis no presente, mas que o roteiro utilizada de forma primorosa para trazer detalhes sobe a vida de Will e, na base, sobre o crime primordial visto em It’s Summer and We’re Running Out of Ice, onde tudo começou.

Nesse aspecto é que This Extraordinary Being, com suas referências à origem do Superman e tudo, se torna superior ao episódio que o antecedeu. Por mais objetiva que seja a história e por mais encolhidos que estejam os tentáculos narrativos dessa vez, o texto de Lindelof e Cord Jefferson não se dobra à burrice do espectador que gosta de comidinha mastigada, que clama por respostas rápidas e que quer sentido completo para um show logo a partir do episódio um, em resumo, indivíduos que têm preguiça de pensar ou que usam de má vontade, ódio, problemas pessoais com a série (seja quais forem) para apontar problemas que ela definitivamente não tem. Porque tudo o que tivemos no show até o momento possui uma base segura e que está sendo polida a contento no decorrer das semanas. O presente episódio é mais uma prova disso.

Esteticamente, estamos falando de uma produção digna da HBO e digna do time reunido para a produção da série. Tudo bem que a qualidade técnica sempre esteve em alto patamar, mas este sexto episódio é um dos grandes destaques visuais da temporada, disparado. O olhar para o passado, tendo como ponto de partida um chacoalhão diferente de memórias, traz um belíssimo uso de cor + preto e branco para as cenas, com aplicações pontualíssimas dessa diferença no decorrer do episódio e um soberbo trabalho de profundidade de campo realizado em dois momentos: um na montagem interna, via composição de cenas pelo diretor Stephen Williams e outro na montagem externa, via edição. Além disso, a fusão de objetos entre cenas e os movimentos e escolhas de transição são irretocáveis aqui, o que é surpreendente, pois criar esse tipo de passagem em um episódio que faz experimento com cor e perspectiva de tempo e espaço é ainda mais difícil que o normal.

A revelação da verdadeira identidade do Justiça Encapuzada (ver Cheyenne Jackson e Jovan Adepo agindo sob um mesmo manto, em concepções diferentes, foi algo indescritível) foi bastante interessante, porque a rigor não quebra o estabelecimento étnico do original e o insere satisfatoriamente dentro da temática de bizarrices desse Universo específico, onde o mesmerismo encontra um alto nível de aplicação de massas e a “hipnose” por um tipo específico de luz é facilmente aplicada. Na teoria, isso exige um pouco a reavaliação de algumas sugestões do quadrinho original, o que não é um verdadeiro problema, já que a identidade do Justiça não é revelada ali. A maior contradição, porém, é em relação à minissérie Antes de Watchmen: Minutemen. Por mais que eu tente pensar num caminho de adequação aqui, não consigo, até porque a história da Silhouette (Ursula Zandt) deixa muito claras certas caraterísticas como algum sotaque e porte físico que não combinam com os de Will. De toda forma, pelo menos para mim, isso não é um real problema, eu consigo curtir plenamente em separado.

Com a história de Will expandida, entendemos muito mais sobre Angela e sobre os percalços sociais e políticos deste Universo, assim como uma série de relações no presente. Um capítulo de forte cunho histórico, intenso e primoroso diálogo com a própria História dos EUA e mais uma série de boas revelações e mudanças que empurram a série para a frente sem desrespeitar a inteligência do público desta vez.

Watchmen – 1X06: This Extraordinary Being (EUA, 24 de novembro de 2019)
Direção: Stephen Williams
Roteiro: Damon Lindelof, Cord Jefferson (baseado na obra de Alan Moore e Dave Gibbons)
Elenco: Regina King, Yahya Abdul-Mateen II, McDaniel Austin, Thomas K. Belgrey, Danny Boyd Jr., Ray Buchanan, Hong Chau, Adelaide Clemens, Jason Collett, Catherine Eure, Louis Gossett Jr., Jean Smart, Steven G. Norfleet, Alexis Louder, Don Johnson, Cheyenne Jackson, Jovan Adepo
Duração: 62 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.