Crítica | Watchmen – 1X07: An Almost Religious Awe

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Nós já tivemos uma experiência parecia em episódios grandiosos de séries que já assistimos. Depois de um capítulo que chama a nossa atenção, que tem um tratamento intocável tanto em narrativa quanto em estética, o espectador deve se preparar para algo consideravelmente diferente e, não raro, para revelações e o avanço da história em direção a algo ainda mais impressionante. Pois aqui está An Almost Religious Awe para provar que a regra continua valendo.

Essa frase do título a gente já conhece e de algo relacionado com o próprio Universo Watchmen. Ela faz parte de uma narração do Dr. Manhattan na edição número quatro do original, quando ele explica a experiência dos vietnamitas ao fim da guerra, segundo o seu próprio ponto de vista. E notem que a frase retirada dessa edição em específico não vem gratuitamente. É nela que se dá um grande destaque para a vida do azulão, e isso acaba sendo importando para a série de uma maneira bastante inteligente, através de um documentário que serve como propaganda em uma loja de VHS, quadrinhos e outras muitas coisinhas em Saigon, lar de Angela quando criança. O roteiro aborda uma série de tragédias sequenciais na vida da criança e explica a ligação traumática que ela tem com a persona mascarada que assumiu, referenciando um filme de mesmo nome (Sister Night), um tipo de blaxploitation desse Universo.

Num primeiro momento eu achei interessante as idas e vindas da memória de Angela, um ponto importante para este episódio. A construção da personalidade E da história são guiadas a partir daí e estabelecem um contraste fotográfico dentro de uma montagem paralela, o que é tecnicamente interessante, mas narrativamente acaba se tornando repetitivo e, pelo menos para mim, chateante a partir de certo ponto. Isso se dá pelo fato de que as memórias de Will estão todas aqui, desde o massacre em Tulsa até aquilo que vimos em This Extraordinary Being. Como o roteiro não reduz a frequência dessas memórias e justamente porque elas interrompem coisas muito mais interessantes acontecendo no presente, o enredo acaba parecendo truncado e menos interessante do que na verdade é.

E não, a montagem não é conceitualmente ruim. Os fades, o movimento de mudança em cenas e tempos, as cores escolhidas e as frequentes brincadeiras que vemos entre pessoa/objeto/espaço continuam aqui e estão ótimas em si mesmas. O impasse está no significado disso para a história: repetição e quebra dramática de eventos que não deveriam ser interrompidos. E olha, o que não falta aqui é coisa interessante acontecendo. Laurie subestimou demais uma suspeita e acabou caindo em uma armadilha; Looking Glass está desaparecido mas matou os membros da 7K; o “real” (?) plano da Cavalaria foi revelado, mas a coisa ainda parece megalomaníaca demais — e convenhamos, meio difícil de engolir –; e por fim, a fantástica linha que nos leva para Cal, a forma humana e disfarçada de ninguém menos que o Dr. Manhattan.

Eu achei interessante mostrar que no crânio de Cal havia um dispositivo representando o símbolo do hidrogênio que bloqueava a memória da real pessoa ali confinada, ajudando a manter a sua estrutura humana. Simplesmente adorei tudo relacionado a esse bloco indo de Lady Trieu (e sua “mãe-filha” clonada e tendo pílulas de Nostalgia prescrevidas homeopaticamente), fiquei com a maior cara de na cena do elefante, mas não pude deixar de aproveitar e aplaudir a jornada de Angela nesse capítulo. Já em relação a Ozymandias, minha posição foi de estranheza e puro tédio. É evidente que tem algo que ele mesmo está organizando durante esse julgamento de um ano (ao que parece, ele queria ser condenado), mas tirando as atuações, as cenas simplesmente não funcionaram para mim.

Tanta revelação num único episódio pode fortalecer a suspeita de que a série não será renovada e dá muito material para ser trabalhado nos dois capítulos que ainda faltam para finalizar a temporada. Meus votos é que se mantenha a boa qualidade que tivemos da série até aqui, independente do futuro que a espera. Rogamos à lula alien para que as manias de Damon Lindelof não ataquem novamente.

Watchmen – 1X07: An Almost Religious Awe (EUA, 1º de dezembro de 2019)
Direção: David Semel
Roteiro: Stacy Osei-Kuffour, Claire Kiechel (baseado na obra de Alan Moore e Dave Gibbons)
Elenco: Regina King, Jean Smart, Jeremy Irons, Hong Chau, Sara Vickers, Tom Mison, James Wolk, Frances Fisher, Adelaide Clemens, Yahya Abdul-Mateen II
Duração: 59 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.